CRÍTICA – SÃO PAULO, SOCIEDADE ANÔNIMA

CRÍTICA – SÃO PAULO, SOCIEDADE ANÔNIMA

É de impressionar um filme dos anos 1960, até os dias atuais, seguir com o mesmo impacto e a atualidade em sua reflexão e ideia geral. São Paulo, Sociedade Anônima é, talvez, o filme brasileiro com o maior êxito em evidenciar o caos que uma cidade pode causar a um indivíduo — um caos interno que, uma vez externado, acaba por respingar em todos ao seu redor. Com um texto nada melífluo ou de fácil digestão, julgamos e também compreendemos a trajetória complexa de Carlos, que se vê pressionado a buscar por uma ascensão financeira num lugar que não para.

O olhar preciso de Person em retratar aquela São Paulo não somente como pano de fundo, mas também como uma personagem crucial daquela história, é o que mais dá motor para a narrativa, uma vez que acompanhamos como a vida daqueles personagens é determinada pelo frenesi da metrópole. Por entre os lugares mais icônicos e populares da cidade, como a Rua Roosevelt e o Viaduto do Chá, observamos a mente de Carlos entrar numa espiral de sobrecarga. Nem mesmo Luciana, que se mostra como uma mulher em busca de sua melhor versão a cada dia, escapa da hostilidade gratuita do rapaz.

Bem como em Taxi Driver (Scorsese, 1976), por exemplo, onde aquela Nova York violenta e obscura de 1970 é uma (in)direta responsável pela deterioração psicológica do protagonista, aqui, a cidade caótica e no auge de seu processo industrial também é um dos — senão o maior dos — responsáveis para que Carlos caia num vazio existencial a ponto de se afundar num imenso poço de amargura, descontando sua frustração até mesmo em quem não merece. Entre aulas de inglês meia-boca e um chefe hedonista de moral duvidosa, uma possível “fuga” torna-se um caminho a se considerar.

Não que Carlos seja flor que se cheire, o contrário até — ele é um homem intrinsecamente ríspido, machista, de personalidade difícil de lidar. Isso pode inclusive ser o maior empecilho para conectar o espectador com a obra: como “torcer” por um alguém que é praticamente detestável? Entretanto, um insight pode dar luz a esse questionamento: é como se todo o contexto do capitalismo imperdoável no qual ele está inserido fosse o maior responsável por sugar suas energias, tornando-o um ser humano gradativamente pior. O agravamento de sua hostilidade tem nome e motivo.

Antes e sobretudo depois de tornar-se um trabalhador e sócio da indústria automobilística, ele acaba deixando mecânica até mesmo suas relações afetivas. É como se as três mulheres com as quais ele acaba se envolvendo, inconscientemente, representassem uma parte diferente de um todo que ele almejava: Luciana sendo a sonhada parte mais humana e sincera; Hilda representando uma vontade de status social e aparência; e a amante, seu vazio interno, sua irracionalidade. Mas o mais interessante é vermos como nada supre o vazio constante de Carlos, que implode em sua angústia.

Nesse sentido, não somente o personagem, mas também o filme, se revela cada vez mais complexo, menos confortável. Nós, como espectadores, acompanhamos ele sendo “esmagado” pelo sistema; no entanto, é válido trazer o ponto de que Carlos também escolhe reproduzir essa lógica fria e instrumental em suas relações pessoais. Seus traços de constante dureza, cinismo e impaciência soam até como uma provocação de Person: até que ponto devemos terceirizar a culpa de nossos maiores defeitos para o contexto onde estamos inseridos?

Taipei Story (1985), de Edward Yang, também poderia ser mencionado como um outro ótimo filme com temática semelhante, se não falhasse em evidenciar que os conflitos em ebulição dos personagens estavam sendo alimentados pelo caos daquela sociedade frenética e em constante transformação. A atmosfera apática do filme taiwanês deixa uma imensa neblina à frente de uma maior conexão com a narrativa — algo que Sociedade Anônima consegue atirar no alvo.

Esse e alguns outros filmes que tentam trabalhar essa alegoria da relação “lugar/ser humano” acabam por afastar o espectador, não provocando compadecimento; ao contrário do longa de Luiz Sérgio Person, que, com planos e contraplanos megalomaníacos e paradoxalmente sutis, deixa elegantemente subentendido — ou, por vezes, até mesmo explícito — que é aquela cidade caótica a principal responsável por fazer a psique dos personagens (sobretudo a de Carlos) sucumbirem. As nuances são estabelecidas na medida perfeita.

São Paulo, Sociedade Anônima, em suma, é tecnicamente impecável, um marco cinematográfico para sua época e para os dias atuais. De um primor narrativo que inspira, ao trabalhar com maestria a realidade fria de uma sociedade que permanece anônima, como se cada indivíduo da cidade fosse reduzido a um mero transeunte apressado do dia a dia, tendo suas histórias e lutas deixadas na sombra de mais um prédio de uma metrópole tão mecânica e pessimista. Observando São Paulo hoje, o filme e seu discurso envelheceram como um bom vinho.


Pôster do filme São Paulo, Sociedade Anônima

Filme: São Paulo, Sociedade Anônima
Elenco: Walmor Chagas, Eva Wilma, Darlene Glória, Lima Duarte, Carlos Zara
Direção: Luiz Sérgio Person
Roteiro: Luiz Sérgio Person
Países: Brasil
Ano: 1965
Gênero: Drama
Sinopse: Carlos é um trabalhador da indústria automobilística que enfrenta os dilemas morais e emocionais provocados pela modernização da São Paulo industrial de 1950.
Classificação: 14 anos
Distribuidor: Vitrine Filmes
Streaming: Netflix
Nota: 8,0

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