Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria é um título que pode enganar pelo tom jocoso e peculiar presente na frase. Nem parece que iremos assistir a um filme que retrata todo o caos interno e externo que uma mãe enfrenta dia após dia. Aliás, irei me “corrigir”: mãe é uma nomenclatura muito reducionista para se referir a uma mulher que também é trabalhadora, dona de casa e esposa. O recente drama da A24 se propõe a perscrutar todas essas esferas numa jornada de esgotamento psicológico bem árdua.
Já ouviram falar daquela frase: “Aguentou muito e ainda foi simpática”? Isso definiria bem a situação de Linda, que se vê constantemente sendo cercada de pessoas instáveis. É até curioso porque quem está lidando com uma tribulação interminável é ela e, enquanto todos ao seu redor costumam reagir com hostilidade ou simplesmente sumindo, Linda se vê obrigada a manter-se firme e resignada. É como se estivéssemos vendo uma panela de pressão prestes a explodir — e não à toa.
O filme não nos poupa de experienciar o auge dos dissabores da maternidade. Não há olhar romantizado — o que vemos é uma perspectiva crua e até pessimista semelhante à história de muitas mulheres da vida real, que são negligenciadas aos olhos da sociedade. Inclusive, uma escolha criativa interessante é o fato do rosto da filha de Linda ser oculto, o que acaba voltando o protagonismo ao peso que a mãe carrega sozinha. O marido é ausente, o terapeuta displicente, o vizinho é inflexível… Fica até difícil permanecer na posição de espectador omisso, sem poder ajudá-la. A angústia em meio ao caos é palpável.
O grande cerne do roteiro de Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria reside justamente nesse fato do filme conseguir imprimir muito bem a sobrecarga de uma mulher que se vê nessa posição de ter que dar conta de tudo sozinha, sempre rodeada de obrigações e problemas, sem ter uma rede de apoio. Pior: sem ter ao menos uma pessoa que de fato a ajude em algo. Quando há alguém que tenta, acaba mais atrapalhando do que de fato a amparando. É um verdadeiro pesadelo filmado sob a ótica feminina.
O filme acerta muito ao explorar, com muito drama e caos, essa montanha-russa de sentimentos de Linda. A atuação visceral e realista ao extremo de Rose Byrne carrega o filme nas costas, já que ela nos transmite, desde os primeiros minutos do longa, o quão exaurida a terapeuta está apenas com o olhar. Aliás, os excessos de planos fechados em seu rosto evidencia bem essa claustrofobia emocional que rui Linda gradativamente.
Até seu próprio terapeuta aparenta ter ojeriza a ela, como se ouvi-la fosse um fardo pessoal para ele, enquanto ela, mesmo no limite, ainda ouve e se importa com seus pacientes. Talvez James (personagem muito bem interpretado por A$AP Rocky) seja o único que trate Linda com alguma ternura e atenção. Na realidade, suas interações com ela são coisas básicas, nada de muito extraordinário, mas diante de tanto descaso emocional por parte de todos — sobretudo do seu marido ausente — é como se o rapaz representasse alguma esperança de bondade e certa empatia.
Se Eu Tivesse Pernas fortalece muito seu texto nesse sentido. Ele começa a tropeçar mesmo quando tenta mesclar demais esse drama mais realista com certos elementos abstratos e até surrealistas, como se o filme precisasse se escorar em “algo mais” para consolidar sua ideia. Certas metáforas inclusive acabam soando muito óbvias e dispensáveis (como o buraco gigante no teto, uma cena envolvendo um tubo “infinito”, etc). É como eu sempre digo: às vezes, o menos é mais.
Além disso, com a montagem e direção “dividindo a culpa”, o longa acaba caindo numa repetição que acaba ficando exaustiva, tal como a ‘jornada’ da personagem, o que empaca qualquer tipo de progressão. Ou seja, à medida em que fica cada vez mais explícito o quão a psique de Linda está entrando em colapso, o texto se torna indolente, não consegue extrair mais nada de relevante ou revelador, mesmo ao seguir evidenciando tamanho nível de sobrecarga.
Apesar desses tropeços de ritmo e fluidez, o filme consegue evidenciar todo esse caos interno e externo da personagem central sem soar caricato, e isso é um baita trunfo — coisa que o recente Morra, Amor, por exemplo, não conseguiu trabalhar tão bem (mesmo não sendo um filme tão especificamente centralizado em maiores discussões sobre a maternidade em si). Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria apresenta um retrato frontal do ônus que é ser mãe, praticamente um anticoncepcional em forma audiovisual. Os minutinhos finais talvez sejam o único insight positivo de autodescoberta de Linda.
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Filme: If I Had Legs I’d Kick You (Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria) Elenco: Rose Byrne, Conan O’Brien, Danielle Macdonald, Christian Slater, A$AP Rocky, Ivy Wolk, Delaney Quinn, Lark White, Daniel Zolghadri, Manu Narayan, Mark Stolzenberg, Ella Beatty, Helen Hong, Josh Pais, Ronald Bronstein Direção: Mary Bronstein Roteiro: Mary Bronstein Produção: Sara Murphy, Ryan Zacarias, Ronald Bronstein, Josh Safdie, Eli Bush, Conor Hannon, Richie Doyle Ano: 2025 Gênero: Comédia/drama Sinopse: Linda, uma terapeuta e mãe, vê sua vida se desintegrar enquanto enfrenta a doença misteriosa da filha, um marido ausente, um paciente desaparecido e uma relação cada vez mais conflituosa com seu próprio terapeuta. Classificação: 16 anos Distribuidor: A24 Streaming: Indisponível Nota: 6,0 |


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