CRÍTICA – SIRĀT

CRÍTICA – SIRĀT

“Sirāt”, segundo a religião islâmica, trata de uma ponte extremamente fina e perigosa que deve ser atravessada para se chegar ao Paraíso. A experiência árdua que implica tal travessia é o ponto chave do novo filme de Oliver Laxe, sendo que tal “missão” acaba proporcionando uma generosa dose de tortura não somente aos personagens, mas também ao espectador, já que o texto consolida suas ideias se apoiando, quase que exclusivamente, no fator de choque. Há praticamente dois filmes em um só: e ambos são igualmente amargos e desanimadores em sua essência.

Há um prenúncio de desgraça já nos primeiros minutos do filme, por mais que ele inicie ameno, tranquilo. É como aquele sol meio bêbado que antecede uma grande tempestade. Quando notamos que iremos acompanhar a jornada de um pai, juntamente com seu filho e uma graciosa cadela, na aridez do deserto do Marrocos, com o objetivo de encontrar a filha/irmã perdida, já é dedutível que não virá coisa boa por aí — com o bônus (ou ônus) de que a premissa por si só não ajuda muito. Ao nos deixar sempre em alerta, o filme restringe qualquer esperança de êxito nessa jornada à la Mad Max (Miller, 1979), sendo que a pior desgraça sempre será a próxima.

É que além de ser um tanto difícil ter empatia por frequentadores de rave, é como se aquele pai estivesse determinado a ir atrás de uma filha que “sumiu” por escolha própria, não por algum motivo de força maior. Não são apresentadas maiores nuances contextuais, o que enriqueceria a trama se houvesse alguma urgência maior por trás da tal busca. O filme apenas apresenta sua base de maneira desleixada e espera que o espectador “compre” a ideia. Um pai estar em busca de sua filha, portanto, por si só já seria uma razão suficientemente louvável, ao menos por parte do diretor.

Só que além da tal jornada atroz possuir uma motivação incompleta ou até leviana, devido a todo o risco que implica tal decisão, o filme, a partir de um certo acontecimento impactante — não no melhor sentido —, não poupa nem seus personagens, nem o espectador de uma imperdoável sequência de acontecimentos sádicos. O incômodo no cinema não só pode como deve ser explorado: quando a arte consegue nos deslocar da zona de conforto a fim de nos elucidar, ou provocar reflexão sobre algum tema, é algo válido. O fato é que Sirāt não consegue triunfar nesse sentido.

O fracasso no poder das escolhas em Sirāt é pelo fato de não haver substância em tais imagens tão impactantes que vemos, o que soa até como um paradoxo, mas não é: o impacto está ali, cru e explícito, mas o que o diretor busca suscitar, afinal, com tamanho espetáculo de sofrimentos? Essa é uma pergunta em aberto, já que não há alguma provocação filosófica ou política, ou sequer um maior aprofundamento a respeito do vínculo familiar que move o protagonista. O filme até tenta puxar esse viés emocional, mas falha por não soar orgânico em suas ideias; e isso tanto na primeira metade, quanto na última, quando o filme vai para uma vertente completamente inesperada e destoante.

A fotografia ressequida e tudo o que envolve o trabalho sonoro do filme acabam sendo mais relevantes à história do que o motivo da jornada, já que proporcionam uma atmosfera sensorial e desconfortável inegavelmente interessante. Uma grande pena isso não ser suficiente para tornar o roteiro tão grandioso quanto os demais aspectos artísticos, de tudo o que embala a mise-en-scène de Sirāt. Uma vez que as cenas vão escalonando no nível de sadismo, inevitavelmente ressurge a mesma pergunta: “para quê?”

Se Sirāt trabalhasse um propósito ou uma reflexão ao menos válida sobre essa sequência de caos nas vidas daquelas pessoas, seria um filme que entraria no hall de filmes desconfortáveis e catárticos (tal qual o cinema de Haneke ou Lanthimos, por exemplo), iria ser aquele famoso “cutucar a ferida” de que muita gente gosta. Contudo, o roteiro acaba travestindo sofrimento gratuito de suposta arte impactante. A ausência de coerência temática dá holofote ao vazio de uma trajetória tão angustiante quanto de fato uma travessia ao inferno seria.


Pôster do filme Sirāt

Filme: Sirāt
Elenco:
Sergi López, Bruno Núñez, Stefania Gadda, Joshua Liam Henderson
Direção:
Oliver Laxe
Roteiro:
Oliver Laxe, Santiago Fillol
Produção:
Espanha, França
Ano:
2025
Gênero:
Drama, Suspense
Sinopse:
Um pai e seu filho chegam a uma rave nas montanhas do Marrocos em busca de Marina, filha e irmã desaparecida meses antes. Ao seguirem um grupo de jovens rumo a outra rave no deserto, embarcam em uma jornada física e emocional trágica e intensa.
Classificação:
16 anos
Distribuidor:
Retrato Filmes
Streaming: 
Indisponível
Nota:
5,0

 

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