CRÍTICA – SOMBRAS NO PARAÍSO

CRÍTICA – SOMBRAS NO PARAÍSO

O que esperar de um filme que tem como personagens principais uma caixa de supermercado e um coletor de lixo?

Uma história cheia de consciência social e um romance nada convencional.

Aki Kaurismäki é um diretor finlandês conhecidíssimo entre os amantes da sétima arte, reconhecido por filmes de crítica social, minimalistas e com um humor ácido. Inicialmente trabalhou em conjunto com seu irmão Mika Kaurismäki, na década de 1980. Sempre com tom de ironia, o diretor retrata em seus filmes trabalhadores comuns, desempregados, pessoas solitárias, imigrantes e situações cotidianas, criando uma atmosfera de melancolia cinzenta como as ruas da Helsinki (que é a Capital da Finlândia) oitentista.

Sombras do Paraíso (Varjoja Paratiisissa), lançado em 1986, é um dos seus maiores filmes e um grande resumo dessa estética de Aki Kaurismäki. A película acompanha o mal-humorado coletor de lixo Nikander (o falecido e talentosíssimo Matti Pellonpää) e a caixa de supermercado Ilona, interpretada por Kati Outinen, que se encontram ao acaso do destino, em momentos tímidos e silenciosos — outra marca registrada dos filmes do diretor.

A intensidade da relação aumenta depois que Ilona, desiludida por ter sido mandada embora, rouba uma caixinha lotada de dinheiro do patrão e tenta fugir. Nikander, por sua vez, envolve-se na morte de um colega de trabalho e,  mesmo afeiçoado pela mulher, acaba se afastando em tremenda tristeza e conflitos internos.

Nesse antidrama, as poucas falas e expressões desses ótimos atores convidam o espectador a torcer por uma melhora de vida em meio a tantas problemáticas. O filme rejeita qualquer apetrecho hollywoodiano (muita química física, falas prolongadas e intensas) ou expressões melodramáticas exageradas, optando por uma abordagem mais crua e fria. Conforme a narrativa se desenrola, os planos tornam-se mais longos e com pouco movimento, permitindo que o espectador capte cada gesto contido.

Falando em frieza, os cenários são retratados com cores frias e poucos ornamentos, remetendo a uma sensação constante de vazio pelo abandono social. A trilha sonora, por vezes pitoresca, constrói uma atmosfera de estranheza, crítica social e um humor sórdido característico. A ambientação é impessoal, sem nenhuma idealização ou esperança de que os acontecimentos vão levar ao almejado “final feliz”, retratando a solidão moderna e a busca da dignidade na precariedade e na indiferença social.

O filme é o primeiro da intitulada “Trilogia do Proletariado”, que representa a classe trabalhadora finlandesa. Os outros dois títulos são Ariel (1988) e A Garota da Fábrica de Fósforos (1990). A escolha das profissões é cuidadosamente calculada para traduzir os sentimentos e a dureza da vida dos trabalhadores mais ignorados pela sociedade.

O ambiente melancólico refletido também nas expressões dos atores é proposital e se encaixa no retrato do operário infeliz. Grande parte da película foi gravada em externas e locações reais, aproximando ainda mais o tom realista, com forte influência do noir (também denominado como Nordic Noir, com temas e cenografias sombrios, desfechos nada convencionais e protagonistas falhos) e do neorrealismo italiano —igualmente com foco na classe trabalhadora e representação crua da realidade.

Mesmo com baixíssimo orçamento, Sombras do Paraíso garantiu maior visibilidade internacional a Aki Kaurismäki, sendo amplamente aclamado pela crítica e por circuitos de cinema. Por fim, retrata a morbidez, a solidão, a dignidade e como o afeto pode transformar a vida de pessoas à margem da sociedade. Por isso, esse filme tão simples é cruelmente lindo e profundamente tocante. Recomendadíssimo.


Filme: Varjoja paratiisissa (Sombras no Paraíso)
Elenco:
Matti Pellonpää, Kati Outinen, Sakari Kuosmanen, Esko Nikkari
Direção: 
Aki Kaurismäki
Roteiro: 
Aki Kaurismäki
Produção: 
Finlândia
Ano:
1986
Gênero:
Comédia Dramática 
Sinopse:
Um lixeiro solitário em Helsinki encontra uma conexão improvável com uma caixa de supermercado desiludida, enquanto ambos navegam pelas dificuldades da vida da classe trabalhadora e buscam um refúgio de amor e pertencimento em meio à frieza da cidade. 
Classificação:
14 anos
Distribuidor:
Finnkino
Streaming: 
Mubi
Nota: 
9,0

 

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