CRÍTICA – SONHOS DE TREM

CRÍTICA – SONHOS DE TREM

Certos filmes, quando optam por uma abordagem mais intimista e emocional ao apresentar a história de seus personagens, acabam caindo num show de melodrama apelativo, ou fazem o espectador submergir no mais puro tédio. Felizmente, não é o caso de Sonhos de Trem, cuja direção e roteiro sensibilíssimos de Clint Bentley nos apresentam uma história que, ao mesmo tempo em que é singela, é surrealmente devastadora, na mesma medida. Um filme simples em sua essência, mas grandioso em seu conteúdo.

É que Sonhos de Trem nos apresenta a história de um simples lenhador; um homem comum, desafortunado, que, com o tempo, finalmente encontra um sentido de vida. Mas esse tempo que é o responsável por trazer as maiores alegrias a Robert, acaba sendo o mesmo responsável por fazê-lo sentir, através da dor, como certas decisões são irremediáveis e determinantes para o nosso destino. Há um quê sensorial e contemplativo sem nenhum esforço, já que o filme se pauta no silêncio e no poder das imagens que temos a honra de contemplar juntamente ao personagem.

O contraste gritante entre as dores e a beleza da vida: essa é a base principal de Sonhos de Trem. É como uma gangorra emocional: ele vivendo momentos felizes com sua mulher e filhinha; ele tendo que partir logo em seguida. Admirando aquela floresta tão verde e grandiosa que o cerca; derrubando aquelas árvores de mais de quinhentos anos. Ele rindo e conversando sobre a vida com seus amigos; ele testemunhando acontecimentos não tão agradáveis para com os mesmos. Entre sabores e dissabores, como espectadores, nos damos conta de que a vida é bem assim — linda, imprevisível e dolorosa.

Nunca deixando esse viés contemplativo de lado, à medida em que o filme avança na história de Robert, o texto perpassa por vários temas que fazem parte da vida de qualquer pessoa comum: amor, trabalho, família, amizade… dor. Apesar de emanar beleza e doçura, é como se algo não nos permitisse apegar àqueles bons momentos em que o personagem desfruta de uma felicidade e completude genuína, como se algo devastador estivesse anunciado nas entrelinhas. Uma melancolia sempre subjacente como um prelúdio para algo ruim iminente.

É no mínimo desconfortável ver que o trabalho de Robert consiste em derrubar árvores, trabalho essencial naquela época de expansão de ferrovias e indústrias nos Estados Unidos. A fotografia magistral do brasileiro Adolpho Veloso, sendo uma poesia visual e também um personagem primordial para contar a história, contempla tão perfeitamente cada paisagem daquela natureza que cerca o lenhador, de modo que evidencia com maestria o quão a pequenez humana torna-se gritante diante de uma natureza tão grandiosa.

Não há uma súplica para provocar comoção em Sonhos de Trem. É como um choro entalado na garganta. Um melodrama que sufoca e assola, sem precisar gritar ou externar em palavras; o silêncio consegue ser gritante. Está tudo sobreposto em tela. Inclusive mais para frente, quando percebemos que tais desgraças que ocorrem na vida de Robert soam como se fossem um revide da natureza, como resposta à devastação que ele e os demais trabalhadores realizavam nas florestas. Tal karma é como se fosse solenemente aceito e esperado também pelos seus companheiros, os quais também acabam sofrendo as consequências.

A certa altura, fica inevitável enxergar que a resignação e tristeza é a única coisa certa na vida daquele homem, como se ele estivesse fadado ao amargor da vida, por mais que estivesse sempre em busca do amor. O fato é que Robert, por fim, vai “fazendo as pazes” com a natureza: sai daquele trabalho (que a certa altura já teria se tornado obsoleto, visto que os machados passaram a ser substituídos por motosserras) ao cuidar dos cães que aparecem, ao banhar-se no rio, ao voar como um pássaro livre enquanto contempla o céu para, por fim, fundir-se à natureza no fim da vida.

O mais devastador aqui é a reflexão de como o tempo pode ser implacável e desolador. Sobre como abdicar da própria vida em detrimento do trabalho tem seu preço. Sobre como testemunhar o evanescer das coisas valiosas ao seu redor faz até mesmo sua existência perder o sentido. Um homem com a sua história, porém sem história — invisível aos olhos daquela sociedade que ele ajudou a construir com o seu suor e sacrifício pessoal. Sonhos de Trem é definitivamente um filme que tem o poder de marcar, uma vez que o espectador estiver entregue e disposto a se conectar nessa trama que se faz tão forte em sua mensagem.


Filme: Sonhos de Trem
Elenco: Joel Edgerton, Felicity Jones, Kerry Condon, William H. Macy, Nathaniel Arcand, Clifton Collins Jr., John Diehl, Paul Schneider, com narração de Will Patton
Direção: Clint Bentley
Roteiro: Clint Bentley e Greg Kwedar
Produção: Estados Unidos
Ano: 2025
Gênero: Drama
Sinopse: No início do século XX, um humilde lenhador tenta construir uma vida simples com a família enquanto enfrenta o isolamento, a perda e as mudanças de um mundo em transformação. Entre florestas, trilhos e memórias, sua jornada é marcada pela solidão e passagem implacável do tempo.
Classificação: 14 anos
Distribuidor: Netflix
Streaming: Netflix
Nota: 9

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