O final de 2025 tem se revelado particularmente trágico para o Brasil. Os índices de violência contra a mulher e de feminicídio atingiram patamares alarmantes, superando inclusive os números já estarrecedores de 2024, ano em que mais de 50 mil mulheres foram assassinadas por seus parceiros no país. Mesmo quando esses episódios não culminam em morte, é inevitável questionar quais forças estruturais permitem que dados tão brutais se tornem recorrentes em nosso cotidiano. A misoginia é o desprezo sistemático à figura feminina, guinando o ser misógino a enxergar a mulher numa posição de inferioridade, guinando o ser misógino ao controle sobre seu corpo, sua autonomia e sua liberdade.
Sorry, Baby, recente estreia nos cinemas brasileiros e obra aclamada no Festival de Sundance nos EUA, aborda, com sutileza, um mergulho no impacto psicológico feminino diante de uma experiência dolorosa e, infelizmente, comum. Eva Victor assina aqui uma dupla estreia segura, atuando simultaneamente como diretora e atriz. Na trama, acompanhamos Agnes, jovem professora de literatura que vive sozinha e hospeda temporariamente a amiga Lydie. Em um encontro entre amigos, Agnes manifesta sua admiração por um romance escrito por Deckler, orientador acadêmico do grupo, interpretado por Louis Cancelmi — ator frequentemente associado a personagens violentos nos recentes filmes de Martin Scorsese. Pouco depois, Deckler retribui o elogio, afirmando ter admirado a tese de Agnes. Eles marcam então de se encontrarem à noite na casa dele. É interessante, sobretudo, na sutileza com que Eva Victor conduz esse momento. A diretora opta por revelar o mínimo possível do “date” casual. Até que um corte abrupto revela Agnes dirigindo até sua casa de forma desesperada.
Apesar de silenciosa, esta elipse consegue ser perturbadora: algo grave aconteceu, mas está implícito. Esse recurso produz uma tensão inquietante no espectador, e evidencia o respeito do roteiro com sua protagonista, evitando a espetacularização da violência. O mesmo respeito se estende à cena seguinte, em que Agnes e Lydie conversam calmamente na banheira. Aos poucos, sem pressa e sem didatismo, os detalhes do ocorrido emergem, permitindo que o espectador construa imageticamente a cena e justamente por isso sinta com mais intensidade seu impacto.
O filme avança sempre com parcimônia. Não há exatamente uma explosão. Tudo se organiza sob uma tonalidade de calma vigilante. Esse equilíbrio torna as cenas intensas bem inquietantes, como no momento em que Agnes sofre um ataque de pânico e encontra acolhimento na figura interpretada por John Carroll Lynch, em uma participação muito bem-vinda. A experiência subjetiva da personagem é compartilhada com o espectador, que passa a habitar essa tempestade psicológica junto a ela.
Em seu maior acerto, Sorry, Baby escolhe avançar no tempo, revelando que o abuso sofrido por Agnes não apenas retorna de forma latente, como redefine sua identidade, sua sensibilidade e sua forma de estar no mundo. Ainda que os anos passem, o trauma persiste. Nesse aspecto, o filme dialoga com Manchester à Beira-Mar (2016), ao alternar o evento traumático com suas reverberações emocionais, mostrando como a experiência altera irremediavelmente a maneira de viver. O que torna esse percurso ainda mais duro é a percepção de que essa resistência emocional se impõe, aqui, como uma exigência estrutural da condição feminina — e que nem sempre há força suficiente para confrontar uma misoginia tão profundamente enraizada.
Por outro lado, o filme peca por, digamos, dar um protagonismo excessivo à Agnes na trama: por onde ela passa, acaba sendo o centro das atenções. Diferentemente do protagonista de Manchester à Beira-Mar — um sujeito apagado, ordinário, que carrega seu trauma como única forma possível de seguir vivendo, mesmo à custa da fragmentação de sua alma —, Agnes parece constantemente deslocar o eixo das cenas para si. Por exemplo: em uma audiência para treinamento de júri em que Agnes se voluntariou a ir, ao invés de ser apenas mais uma em meio a vários, ela acaba discutindo com a juíza e sendo convidada a se retirar. Em outro momento, ao encontrar uma gatinha chamada Olga, o filme investe em uma encenação simbólica, filmado de forma a deixar Agnes levando a gata para o céu. São escolhas que reforçam sua centralidade não apenas narrativa, mas quase ontológica, como se ela estivesse destinada a protagonizar todas as situações ao seu redor. Com isso, há perda de parte de espontaneidade.
Para um primeiro trabalho, há o que enaltecer, em especial na delicadeza da abordagem trazida. Contudo, alguns fluxos, e até mesmo enquadramentos inorgânicos, mostram que ainda há o que amadurecer na cineasta, assim como algumas cenas que poderiam ter melhor timing, como as que incluem o personagem do vizinho interpretado por Lucas Hedges. Outro ponto que deixa a desejar é que a unidimensionalidade de certos personagens secundários, ocupando papéis com funções muito objetivas no roteiro, às vezes até caricaturando-os para vitimizar, de forma pontual, a protagonista — o que não combina com o respeito que é dado a ela na maior parte do longa. Sendo uma boa entrada indie contemporânea do cinema feminista nesta década, coloca-se acima de O Acontecimento (2021), mas inferior a Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre (2020).
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Filme: Sorry, Baby Elenco: Eva Victor, Naomi Ackie, Louis Cancelmi, Kelly McCormack, Lucas Hedges, John Carroll Lynch Direção: Eva Victor Roteiro: Eva Victor Produção: EUA Ano: 2025 Gênero: Drama Sinopse: Após um evento traumático, Agnes se vê sozinha enquanto todos ao seu redor seguem em frente como se nada tivesse acontecido. Um dia, sua amiga Lydie resolve visitá-la vindo de Nova York e compartilha a notícia de que está grávida. Esse reecontro traz de volta memórias e momentos do passado. Classificação: 14 anos Distribuidor: Mares Filmes Streaming: Indisponível Nota: 7,0 |

