CRÍTICA – SUPERMAN

CRÍTICA – SUPERMAN

Por que super-heróis são admirados? O que faz com que esses indivíduos com roupas coloridas sejam capazes de inspirar várias gerações? O legado que os quadrinhos, os desenhos e os filmes de heróis deixam é, dentre muitas coisas, a busca por justiça, e cada geração tem suas próprias injustiças a enfrentar. As histórias dessas figuras superpoderosas atravessam épocas e são moldadas por elas, pois é o contexto histórico que diz o que é ser um super-herói. É fácil olhar para o passado e notar os problemas, mas, a sua própria maneira, em seu próprio tempo, os super-heróis de todas as épocas, por essência, ao menos tentam agir de boa fé.

Superman (2025), dirigido por James Gunn, é um filme sobre um imigrante, como o diretor recentemente definiu muitíssimo bem, que tenta fazer o bem. É isto. A simplicidade dessa intenção é o que encanta as gerações, mas é a dificuldade de concretizá-la, definida pelo período em que o super-herói se encontra, que é alarmante, pois denuncia os anseios do presente. Superman é um filme que trata diretamente de sua própria época, como se fosse uma intervenção em resposta aos conflitos geopolíticos em que os Estados Unidos estão envolvidos. Mais que um filme de herói, pode-se dizer que o filme almeja realizar um ato heroico ao adotar uma postura clara quanto o conflito israelo-palestino, aqui disfarçados como Borávia e Jarhanpur, respectivamente. Esse, acredito, será o maior legado do trabalho de James Gunn, já que o cineasta compra uma briga corajosa sobre um tema urgente, ainda mais considerando que o filme é o alicerce de toda a produção da DC Studios que está por vir.

O filme é imbuído de tendências contemporâneas no cinema de super-herói, particularmente as próprias manias do diretor, mas, ao mesmo tempo, exibe uma forte carga nostálgica, principalmente ligada ao clássico Superman (1978), de Richard Donner (como ao usar fontes estilizadas similares ao clássico), além de inúmeras referências aos quadrinhos. Essa mistura de épocas e, dadas as distinções entre os tipos de mídia, estilos artísticos se faz presente no filme por meio de uma composição audiovisual hiper estimulante. O cineasta já vinha aprimorando sua extravagância estilísticas, basta comparar Guardiões da Galáxia (2014) com Guardiões da Galáxia Vol. 3 (2023) — e, em Superman, ele vai além.

Dentre as qualidades da direção de James Gunn, está sua decupagem mirabolante porque ele organiza os planos desse filme inspirado no dinamismo das páginas de revistas em quadrinhos. Para visualizar, imagine a cena, sem spoilers: Lex Luthor carrega uma arma e aponta para alguém. Em apenas um único plano, a câmera sai de um primeiro plano de Luthor, move-se rapidamente até um plano detalhe da mão dele apontando a arma para alguém e, por fim, move-se de novo até mostrar o rosto do sujeito em close. Em uma página de uma revista em quadrinhos, isso poderia estar em três quadrinhos pequenos seguidos de um painel com a pose final. No filme, James Gunn usa muito desse recurso, o diretor compõe vários planos dentro de um corte; é um filme frenético e meticulosamente organizado nesse sentido, ainda mais em cenas de ação.

Porém, dentre as problemáticas desse estilo, o fato dessas cenas de ação serem majoritariamente dependentes de CGI desvaloriza essa decupagem, pois muitas cenas acabam perdendo impacto visual por serem plasticamente bastante artificiais. O Superman é frequentemente trocado por um boneco de borracha voador — as cenas à luz do dia em Metropolis escancaram isso — e toda a sequência envolvendo a fuga de uma prisão parece saída de Homem-Formiga e a Vespa: Quantumania (2023), de Peyton Reed. Não é uma sequência confusa, mas os efeitos especiais certamente não foram bem polidos nem aí, nem na batalha final, nem em muitos outros momentos.

Aliás, abro parênteses para notar que, durante a própria divulgação do filme, ainda estavam acontecendo ajustes de pós-produção, como na colorização e em alguns efeitos visuais. Um exemplo foi a infame piscada que o Superman dá quando é acertado por um copo na cabeça, removida pela recepção negativa de parte do público. Inexplicável essa reação da direção — por acaso, o último filho de Krypton é magnânimo demais para ter… reflexos?

Outra característica do cinema de James Gunn é o fascínio com os personagens série B. Sem juízo de valor, refiro-me aos personagens que não têm destaque maior na cultura pop — até porque o ponto de seus filmes geralmente é sobre o valor que os rejeitados podem ter. Acontece que em Superman, ainda que haja personagens não muito populares, como os membros da Gangue da Justiça, o próprio roteiro os põe em escanteio e, francamente, são todos substituíveis. Se quaisquer outros heróis esquecidos estivessem no lugar de Senhor Incrível, Guy Gardner e Mulher Gavião, não faria a menor diferença, já que eles têm o único propósito de aparecer em uma cena, bater em alguém e ir embora. Vá lá, o Senhor Incrível tem um destaque um pouco maior, mas enquanto personagem é pouco e enquanto presença cool também não faz nada de novo.

Em contrapartida, a alma e coração do filme certamente estão na dinâmica entre Superman/Clark, Louis e Lex Luthor. Aí reside a força dramática, a força motriz da produção, o centro em que gravita toda a questão geopolítica do filme. A disputa entre os ideais militaristas de Luthor e os altruístas de Superman; o relacionamento de Clark e Louis, que é tensionado pelas questões entre Superman e a repórter; a investigação ativa de Lane no Planeta Diário para desmascarar Luthor; a inveja enraivecida nos olhos de Nicholas Hoult, a impulsividade ingênua nas expressões de David Corenswet e a atenção e firmeza na postura de Rachel Brosnahan. Esse jogo de poderes é bem diluído em meio às cenas de ação da segunda metade do filme, e os atores são convincentes frente à câmera, ou seja, quando essa dinâmica volta a ser o foco, volta com vivacidade.

Enfim, reitero minha admiração à coragem de James Gunn em pôr em foco a guerra entre Israel e Palestina, que é central nas disputas políticas no mundo, pois muito se engana aquele que pensa que, por estarmos no Brasil, esses conflitos não nos atingirão em algum momento. Mesmo assim, por mais que, com certeza, esse filme vá receber retaliação ideológica, não é novidade do cinema de super-heróis tratar de assuntos políticos. Superman de 1978 já falava de manipulação de opiniões e especulação imobiliária como plano de Lex Luthor, na época interpretado por Gene Hackman, e, se até hoje esses são assuntos sensíveis, imagine nos anos 1970. Porém, as várias cenas de ação sem peso, uma constante ao longo do filme, resultantes dos problemas com o CGI, causam ruído à finesse louvável de decupagem do diretor — e isso acaba distraindo, também, daquilo que importa. Ainda assim, penso que a base do trio principal foi bem estabelecida, e, à longo prazo, acho que o Universo DC só tende a decolar.

Pôster do filme Superman Filme: Superman
Elenco: David Corenswet, Rachel Brosnahan, Nicholas Hoult
Direção: James Gunn
Roteiro: James Gunn
Produção: Estados Unidos
Ano: 2025
Gênero: Ficção Científica, Aventura, Ação
Sinopse: Superman, um jovem repórter de Metrópolis, embarca em uma jornada para reconciliar sua herança kryptoniana com sua criação humana como Clark Kent.
Classificação: 14 anos
Distribuidor: Warner Bros.
Streaming: Indisponível
Nota: 6,0

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