CRÍTICA – UMA BATALHA APÓS A OUTRA

CRÍTICA – UMA BATALHA APÓS A OUTRA

Paul Thomas Anderson é o que podemos chamar de um cineasta único. Sua singularidade autoral não é captada por meio de detalhes pontuais isoladamente perceptíveis em seus filmes; trata-se, antes, de um conjunto de sensações e elementos específicos, pincelados pela maestria ímpar de um diretor extremamente requintado. Anderson encontrou em Thomas Pynchon, autor literário, um verdadeiro oásis que espelha, mesmo que em outra mídia, fortes concordâncias estéticas. Ao adaptar sua obra a partir de um match sensorial profundamente entrosado, Vício Inerente (2014) destaca-se por canalizar parte da tarefa de caracterizar esse cineasta tão peculiar. Além de acompanhar personagens impulsivos, constantemente à beira do descontrole, a câmera de Anderson parece coabitar sensorialmente os mesmos ambientes, com uma presença física imersiva, textura granulada e uma recusa deliberada ao corte de alívio, forçando o espectador a confrontar o desconforto e a estranheza — sensações quase sempre associadas à música percussiva, por vezes tribal, de Jonny Greenwood, compositor da maioria de seus filmes e também integrante da banda Radiohead.

Enquanto Vício Inerente vivencia uma atmosfera política marcada por contradições e perseguições no contexto da contracultura americana e na transição para um período de paranoia e conspiração nos Estados Unidos do pós-guerra, a mais recente adaptação de Pynchon por Anderson, Uma Batalha Após a Outra (baseada no romance “Vineland”, de 1984), lida com as consequências sombrias e o rumo caótico para o qual se encaminhou a nação americana — e, por extensão, boa parte do mundo polarizado em que hoje vivemos. Há aqui uma dura ressaca psicológica, experimentada centralmente pelo protagonista Bob Ferguson, vivido por Leonardo DiCaprio — aguardada e precisa parceria entre ator e diretor. Na trama, DiCaprio interpreta um ex-revolucionário obrigado a aceitar que não conseguiu transformar o mundo em que vive, ao mesmo tempo em que precisa proteger sua filha adolescente de perigos persistentes e reminiscentes de seu passado.

Uma Batalha Após a Outra é, antes de tudo, uma obra completa. Como experiência cinematográfica, nada lhe falta; e, como toda grande ficção, exagera apenas um pouco da realidade — muito pouco, inclusive. Entre os antagonistas, militares institucionalizados que capturam opositores de um regime neofascista em exercício, Sean Penn encarna um coronel caricatural que, simbólica e literalmente, se excita com seu ofício, utilizando deste inclusive como meio de satisfação sexual. Em contrapartida, James Raterman interpreta um militar nacionalista frio e protocolar, extremamente fiel a estruturas que remetem diretamente aos métodos e à mentalidade do ICE, operando segundo critérios metódicos alinhados a uma espécie de nazifascismo cínico.

O domínio de Paul Thomas Anderson em estruturar um mundo caótico e imergir o espectador nessa realidade intensa manifesta-se tanto no micro quanto no macro. Desde cenas íntimas — como dois personagens dentro de um carro ao perceberem que uma viatura policial os persegue, com a câmera recusando-se a sair do interior do veículo e preenchendo a tela e focando apenas nas expressões dos indivíduos ali inertes — até momentos grandiosos como na épica batalha de Baktan Cross, um momento raro no cinema atual em que se sente simultaneamente a adrenalina de uma transformação social iminente, a paranoia da perseguição e a angústia visceral da busca por uma filha sequestrada em meio ao caos organizado.

Engana-se quem acredita que Uma Batalha Após a Outra busque transmitir um discurso político. Apesar de apresentar personagens revolucionários, o interesse de Anderson não reside exatamente em suas pautas — ainda que demonstre simpatia por elas, como no retrato do tratamento desumano dispensado a imigrantes em verdadeiros campos de concentração. Seu foco está nos indivíduos frágeis que desejam reformular o sistema em que vivem e romper com suas injustiças, apenas para se depararem com a frustração de perceber que não é possível romper com o liberalismo institucionalizado, além das consequências perigosas de suas ações passadas, que podem surgir a qualquer momento.

Retomando um de seus temas mais recorrentes, Anderson explora novamente a paternidade ambígua. A relação entre Bob e sua filha Willa, vivida pela estreante surpreendentemente confiante Chase Infiniti, funciona como o delicado fio condutor que abastece a ação implacável do filme. A vulnerabilidade do personagem de DiCaprio — exausto, paranoico, vagando de roupão à la The Dude (de O Grande Lebowski), desacreditado, mas profundamente amoroso — coloca-o em uma posição delicada diante da filha. Indomável, Willa é uma personagem forte, que reconhece as limitações do pai, mas também compreende que herdou seu propósito, consciente de que será a protagonista das próximas batalhas, uma vez que a guerra já está perdida. Ainda assim, mesmo em meio a tantos erros, Bob percebe que nem tudo está condenado ao fracasso ao reconhecer na filha a possibilidade de ser uma versão melhor de si mesmo.

E personagens memoráveis não param por aí: o icônico Sensei vivido por Benicio del Toro atua como um apaziguador de almas em meio ao frenesi, funcionando como refúgio espiritual e alívio cômico, fornecendo coordenadas como uma bússola em meio ao caos. Teyana Taylor, que vive a esposa de DiCaprio, é também uma personagem cheia de camadas e desejos. Uma personagem difícil, com impulsos e princípios que a controlam e que não a fazem fácil de largar o osso, mesmo que isso a faça dúbia — o que na verdade é mais uma maneira complexa de mostrar sua frustração. Aliás, cada personagem nesta cadeia lida de uma forma diferente com essa que deve ser a emoção em comum entre todos — algo que, mesmo com resistência, há de se reconhecer a dureza.

Por não se aprofundar diretamente nos tópicos políticos em sentido estrito, é justamente nessa lacuna que se pode perceber uma leve baixa. Enquanto guerrilheiros explodem bancos e executam missões, tais ações não são plenamente contextualizadas para o espectador, funcionando quase como procedimentos protocolares — já que o verdadeiro interesse está nos desdobramentos subjetivos dessas ações. Ainda assim, isso não compromete a eficácia do filme em entregar sequências de ação de altíssimo nível, com perseguições pictóricas captadas em VistaVision pelo diretor de fotografia Michael Bauman, e impulsionadas pela trilha de Jonny Greenwood, que atinge aqui um dos ápices de sua carreira, explorando uma diversidade instrumental que resulta numa experiência sonora arrebatadora. A direção de Paul também encontra um auge técnico ao estabelecer uma imersão cênica e mise-en-scenes que marcam esta década no cinema.

No final do dia, Uma Batalha Após a Outra se afirma menos como um retrato sobre a possibilidade de revolução e mais como uma crônica amarga sobre seus escombros com (por sorte) pitadas de humor numa relação pai e filha cômica e de tirar o fôlego. Paul Thomas Anderson compreende que o verdadeiro campo de batalha não está apenas nas ruas, mas na herança afetiva e na maneira como o fracasso é transmitido — ou ressignificado — entre gerações. O filme encontra sua força justamente ao contar uma histórica de derrota (para o controle fascista econômico do estado e pela geração de políticas retrógradas ofensivas à dignidade humana) mas trazendo também a chance de nos ressignificarmos e ganharmos, mesmo que pequenas, algumas batalhas pelo caminho.


Pôster do filme Uma Batalha Após a Outra Filme: Uma Batalha Após a Outra (One Battle After Another)
Elenco: Leonardo DiCaprio, Sean Penn, Chase Infiniti, Benicio del Toro, Teyana Taylor
Direção: Paul Thomas Anderson
Roteiro: Paul Thomas Anderson
País: EUA
Ano: 2025
Gênero: Comédia, Drama
Sinopse: Bob Ferguson, um ex-revolucionário, sai da aposentadoria para enfrentar a missão mais importante de toda a sua vida: resgatar a sua filha. Tendo vivido a juventude como integrante de um grupo de guerrilha, Ferguson precisa lidar com as frustrações e tristezas quando o seu mais cruel inimigo retorna, após 16 anos, e resolve sequestrar a garota. Diante de tamanha urgência, ele embarca em um implacável desafio em que precisará correr contra o tempo para salvar quem ele mais ama.
Classificação: 16 anos
Distribuidor: Warner Bros.
Streaming: HBO Max
Nota: 9,5

 

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