CRÍTICA – WICKED: PARTE II

CRÍTICA – WICKED: PARTE II

Desde o lançamento da obra seminal de L. Frank Baum, The Wonderful Wizard of Oz, em 1900, a Terra de Oz ocupa um lugar de destaque na memória afetiva das pessoas, sobretudo de quem enxerga na arte uma espécie de portal de acesso ao livre exercício da criatividade. Espetaculavilhoso, o universo de Oz, firmado no imaginário coletivo através do clássico O Mágico de Oz, nunca passou incólume a questionamentos. Tanto isso é verdade que, nos anos 1990, um romance de Gregory Maguire, escrito em sintonia com uma tendência contemporânea de revisitar criticamente narrativas consagradas, trouxe um novo e mais complexo olhar em relação à história original. Wicked não tardaria a ganhar os palcos da Broadway, numa adaptação que expõe, de forma reabilitadora, o passado de Elphaba Thropp, a dita Bruxa Má do Oeste, e de Glinda, a Boa.
Sempre atenta às boas oportunidades de lucro nas bilheterias, Hollywood, aqui representada pela Universal Pictures, sabia que valia a pena correr os riscos de adaptar Wicked para o cinema, apesar do receio quanto a um fracasso em escala similar a de Cats (2019). A primeira parte do musical de tom fabular, lançada em 2024, não apenas tornou-se um sucesso de público, mas, também, evidenciou a parceria de Cynthia Erivo e Ariana Grande em frente às câmeras, interpretando, respectivamente, Elphaba e Glinda, como uma das mais carismáticas deste século.
Mesmo se tratando de partes complementares de uma única história, Wicked (Parte I) e Wicked for Good (Parte II) guardam entre si diferenças notáveis no que diz respeito à unidade estilística — isto é, a maneira como os diversos elementos da linguagem cinematográfica são estruturados num amálgama capaz de transmitir ao público, de modo coerente e coeso, uma visão própria do diretor com relação ao roteiro. Tais diferenças encontram-se a meio caminho entre acertos e deslizes quando se compara o segundo com o primeiro. A principal delas certamente é a correção da imagem levada a efeito pelo diretor Jon M. Chu. Em oposição ao tom lavado das cores visto no longa anterior, agora é devolvida a Oz a intensidade cromática que perfaz o longa de 1939, dirigido por Victor Fleming. Essa pequena, porém significativa mudança, deixa tudo mais bonito e vívido em tela, o que dá o devido valor visual ao deslumbre dos cenários e figurinos.
Para além desses aspectos mais transparentes da imagem, ressalte-se o caráter mais sóbrio desta Parte II, fincada menos numa construção estereotipada de suas personagens e mais na complexidade das relações humanas, rechaçando, assim, em grande parte do tempo, um viés maniqueísta frente aos acontecimentos narrados. O ser humano típico — real ou ficcional — comporta-se de modo que o contexto, somado às emoções e paixões que o movem situacionalmente, termina por condicionar o direcionamento de suas escolhas e, por conseguinte, o seu agir no mundo. Daí a montanha-russa comportamental que leva a afastamentos e reaproximações entre as protagonistas, motivadas por valores ético-morais, interesses subjetivamente explicáveis ou, mesmo, por uma razão específica que faria a maior parte das feministas torcer o nariz. Essa sobriedade também ressoa na trilha sonora — composta por canções notadamente menos marcantes e clichês, ela agora se alinha mais natural e densamente ao peso dramático de algumas cenas, a exemplo do encontro derradeiro entre as bruxas “Má” e “Boa”.
A dimensão política é evidenciada com nuances mais carregadas desde as cenas iniciais, nas quais vemos animais em estado de opressão forçadamente trabalhando na construção da famosa estrada de tijolos amarelos que serpenteia o território. Se na Parte I é revelado que a dominação do Mágico (Jeff Goldblum) pautava-se pela propagação deliberada de mentiras, agora são expostos os mecanismos utilizados pelos detentores do poder para manter o seu domínio sobre a população. Nesse sentido, a moral da ética política, na Terra de Oz, guia-se por ideais que, muito provavelmente, seriam chancelados por Nicolau Maquiavel — pensador italiano do qual deriva o termo maquiavélico. Como se percebe no novo encontro entre o Mágico, Elphaba e Glinda na Cidade das Esmeraldas, mesmo a mentira não sendo algo bom em si mesmo, ela funciona, em determinadas circunstâncias, como uma ferramenta necessária à manutenção da ordem social e da sustentação do regime político. A mentira, portanto, costuma ser a maneira mais eficaz para se atingir um objetivo político. O sucesso nas ações do governante, seja através de resultados efetivos ou de meras aparências, faz com que o povo, que se impressiona com o que vê, o elogie, mesmo sabendo que seus métodos são questionáveis ou, até mesmo, sabendo que ele recorreu a mentiras em algum momento, supostamente pelo bem comum.
Por sua vez, a estruturação da mise-en-scène se mostra mais inconsistente. Sem a necessidade da apresentação de personagens, Wicked: Parte II vai muito mais direto ao ponto em sua abordagem dos eventos, o que se reflete, inclusive, na sua duração significativamente mais curta em relação ao longa anterior. Objetividade narrativa costuma ser saudável, desde que isso ocorra sem prejuízo para a contação da história. Infelizmente, este não é o caso aqui. Observa-se uma aceleração na condução da trama de tal ordem que, mesmo não se deixando pontas soltas, acarreta uma fragilização de sua fruição para o espectador, bem como uma certa inorganicidade ao ato de evocar, tangencialmente, a presença do quarteto Dorothy, Espantalho, Homem de Lata e Leão Covarde. Desta feita, diga-se: um acréscimo de meia hora provavelmente teria sido benéfica à encenação do desfecho épico dessa fantasia.
Em que pese os elementos pró e contra aqui elencados, a sensação que fica é a de que o segmento derradeiro equipara-se à primeira parte, ainda que num patamar ligeiramente mais baixo. Entre acertos e erros, as duas partes dialogam entre si de modo suficientemente coerente, ainda que a coesão seja afetada por certas escolhas estéticas e narrativas da direção, responsáveis por um desencontro no estabelecimento da mise-en-scène de ambos os filmes. É pouco provável que Wicked alcance o mesmo status de cult do clássico dos anos trinta; todavia, é inegável o seu apelo para as gerações futuras, porquanto resgata, em Hollywood, uma tradição de musicais que acreditam na força de suas imagens, bem como no movimento contínuo e celebratório de personagens que, entoando canções, contam uma história capaz de transportar o público para outra dimensão, onde tudo é possível.

Filme: Wicked: For Good (Wicked: Parte II)
Elenco: Cynthia Erivo, Ariana Grande, Jonathan Bailey, Jeff Goldblum, Michelle Yeoh, Marissa Bode, Ethan Slater, Peter Dinklage, Colman Domingo, Bowen Yang e Bronwyn James.
Direção: Jon M. Chu
Roteiro: Stephen Schwartz, Winnie Holzman e Gregory Maguire
Produção: Estados Unidos e Reino Unido
Ano: 2025
Gênero: Fantasia, musical
Sinopse: Após desafiar o regime totalitário do Mágico em Oz, Elphaba precisa lidar com sua identidade como a “Bruxa Má do Oeste”. Enquanto isso, o Mágico concedeu a Glinda o título de “Glinda, a Boa” e o status público de defensora da nação contra Elphaba. As duas bruxas precisam tomar decisões que selarão seus destinos nesta segunda parte do musical.
Classificação: 10 anos
Distribuição: Universal Pictures
Streaming: Indisponível
Nota: 6,5

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