É no mínimo complexo comentar sobre um filme que tem em sua aura a sensação de ser o filme mais fraco da carreira de um diretor. Nessa série de críticas sobre a cinematografia de David Lynch, com certeza é o que ao longo do texto se perceberá o maior número de comentários negativos sobre, mas, existem tantos pontos prévios para serem elaborados que permite a pergunta: o quanto isso tudo pode ser realmente creditado ao diretor? Vamos, então, juntos nessa jornada pela primeira adaptação cinematográfica do icônico primeiro livro da série escrita por Frank Herbert.
A dificuldade principal em qualquer um que testemunhe esse longa-metragem é baseada em se o espectador conhece o documentário Duna de Jodorowsky (2013), em que acessamos a visão insana para adaptação do romance de um dos diretores experimentalistas mais amados por qualquer entusiasta dos cinemas alternativos, afinal uma parceria entre Jodorowsky e Moebius (um dos quadrinistas franceses mais influentes em sua arte e também no estabelecimento de toda ficção científica até os dias atuais) enche o coração de pesar saber que tal visão nunca foi parar nas telas (você ainda pode ler parcela de suas ideias coletivas manifestando-se na série de quadrinhos Incal, recentemente republicada no Brasil pela editora Pipoca & Nanquim). Uma visão ousada, criativa e única que poderia ter impactado o cinema no mesmo nível se não maior que a própria franquia Star Wars em sua época. Ao se deparar com tamanho projeto frustrado e nos compararmos com a formulaica adaptação de Duna que foi lançada em 1984 fica claro o quão não houve criatividade ou mesmo paixão no longa-metragem.
Surge uma questão: o quanto de David Lynch podemos encontrar nesse projeto dirigido por ele? Muito pouco, afinal, existe quase nada de ousadia ou experimentalismos visuais que são tão associados ao diretor com suas tendências a não usar de fórmulas muito padrões na hora de estabelecer suas narrativas. A primeira grande problemática do longa-metragem se mostra em seus primeiros minutos de abertura, em que uma grande exposição narrativa é colocada em fala buscando contextualizar o público nesse universo ficcional que é vasto e complexo em suas relações sociopolíticas. Aqui já é encontrado a chave do contraste: David Lynch e grandes exposições? São condições quase que dicotômicas de um diretor que nunca busca encher as telas com longas falas de personagens explicando minuciosamente suas histórias ou o que está para acontecer. Duna é uma longa exposição, havendo pouco trabalho de construção das personagens, buscando ocupar a narrativa com grandes explicações sobre tudo e todos que ali habitam de uma maneira que soa muito pouco natural e beira ao enfadonho (guardem em vossos corações o contraste dessa experiência imaginando tudo que nós somos apresentados ao que Jodorowsky tinha em mente com sua adaptação).
Talvez um dos poucos pontos familiares é encontrar vários rostos que serão frequentes ao longo de toda carreira de David Lynch em que se manteve fiel com diversos atores: Everett McGill (Stilgar), Jack Nance (Iankin Nefud) e claro Kyle MacLachlan (interpretando Paul Atreides) e é aqui que agradecemos pela parceria entre Kyle e David ter acontecido, afinal, se não fosse Duna talvez o diretor não teria descoberto o ator responsável por dar vida para um dos detetives mais incríveis, amorosos e carismáticos das telas (Dale Cooper em Twin Peaks) e claro outros projetos que serão comentados no futuro (Blue Velvet, 1986). O filme conta com outros rostos bem famosos, como por exemplo Sting (Feyd-Rautha), Jürgen Prochnow (Leto Atreides), Patrick Stewart (Gurney Halleck) e Kenneth McMillan (Vladimir Harkonen). Um elenco de grandes talentos (com exceção de Sting que tem no máximo dez falas ao longo do filme inteiro e só serve para ser o rosto famoso e carismático que não faz diferença alguma no filme) que em momento algum brilham em sua atuação, ficando periféricos ou no mínimo completamente esquecidos em sua participação (talvez seja até melhor assim). A atuação de Kenneth McMillan como o Barão Harkonen beira ao ridículo, havendo tantas escolhas caricatas em suas decisões de atuação como uma figura vilanesca que está muito mais próximo ao que imaginamos de um vilão da Disney (e na situação atual da Disney eles se afastaram bastante dessas atuações arquetípicas clichês do que é um vilão) não existindo nuance alguma na personagem que no próprio livro causa tanto impacto e tensão em sua presença maligna que intimidam através de seus esquemas, loucuras e perspicácia.
O ponto crucial e mais problemático das personagens é quase nenhuma conexão com as características étnicas que são dadas aos Fremen no livro. Estamos falando de um povo que tem claras inspirações nas etnias egípcias e árabes e, claro, nos deparamos com um elenco majoritariamente branco que fica deslocado das condições verossimilhantes associadas a criação detalhada de Arrakis (planeta em que grande parte do conflito narrativo se ambienta). O impacto quando a personagem de Chani (Sean Young) aparece é contrastante por completo com as descrições que nos são dadas ao livro e, ressalta também outra perspectiva: as personagens femininas tem pouco impacto em uma obra que já trabalha tão bem o elenco feminino ficcional nas páginas literárias do livro. Não há nenhuma grande cena em que ressalta as atuações femininas (que brilham tão pouco quanto o elenco masculino).
Quando é somado esses problemas em sua fotografia, o filme dificilmente consegue se sustentar em qualquer emoção. Outro sinal dos possíveis problemas com o estúdio que David Lynch deve ter tido, afinal, sua carreira tem enquanto marco visuais únicos e momentos singulares de tamanha criatividade mesmo quando seu orçamento é limitadíssimo, como no caso de Império dos Sonhos (2006). Duna não possui vida, talvez consigamos elogios aos figurinos, mas esses parecem deslocados, estranhos, não encaixando na assimilação entre os elementos de ficção científica e fantasia. Os efeitos especiais (tanto práticos quanto visuais) são díspares: em alguns momentos existe aquele charme dos jogos óticos e os vermes da areia são destaque, envelhecendo até que muito bem para sua produção, porém quando envolvem efeitos visuais… Toda imersão é perdida por completo, havendo certas cenas que beiram ao cômico para os padrões da época – ainda mais se ousarmos fazer a comparação injusta com Star Wars: Episódio IV – Uma Nova Esperança (1977).
Do ponto de vista de adaptação, é uma colcha de retalhos de vários momentos do livro (que é consideravelmente grande), havendo uma condensação de seu conteúdo inteiro para um único filme: logo, duas sensações serão causadas em seu discorrer, gerando sentimentos conflituosos, pois ele parecerá arrastado em diversos momentos e em outros rápido demais.
Duna (1984) é uma marca negativa na carreira de David Lynch, pois mesmo com todas as discussões sobre os bastidores, ainda há de gerar a dúvida: o quanto também não pode ser creditado responsabilidade sobre o produto? Afinal, talvez não fosse realmente para David Lynch trabalhar com filmes blockbuster, não ousaria novamente trabalhar com filmes tão grandiosos, sua carreira após esse longa-metragem segue uma demarcação de nicho muito bem delimitado. É tedioso, demorado, rápido e frustrante a experiência de revisitar essa adaptação mesmo com rostos tão familiares que pouco fazem o projeto sobreviver. É uma esfera de expectativas e contrastes com o passar dos anos, resguardando uma memória do quanto os estúdios podem vir a afetar as produções de cinema (Duna não foi o primeiro e muito menos o último a sofrer com essas intervenções). Nos resta guardá-lo como essa obra cômica, caricata e falha da carreira de um diretor que só teria esse projeto como um pequeno tombo… Agora vamos viajar para a onde o céu é azul e nos confins das cidades residem segredos horrorosos… Mas ainda existe esperança…
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Filme: Duna Elenco: Kyle MacLachlan, Francesca Annis, Patrick Stewart, Sean Young, Sting, Everett McGill, Jack Nance, Jürgen Prochnow, Max von Sydow, Kenneth McMillan Direção: David Lynch Roteiro: David Lynch Produção: Estados Unidos Ano: 1984 Gênero: Ficção Científica, Aventura, Ação, Drama Sinopse: A ascensão messiânica do guerreiro intergaláctico Paul Atreides a líder de seu povo e a sua luta pela sobrevivência. O jovem herói lidera seus guerreiros contra um barão perverso e tenta destruir em toda a galáxia o comércio da especiaria, que é uma droga alucinógena produzida no planeta deserto. Classificação: 14 Distribuidor: Universal Pictures Streaming: Looke, Prime Video Nota: 4,5 |