Segundo dia da décima edição do FIIK Janela Caipira, o Festival Independente dos Interiores Kino-Olho! A abertura já passou, mas os ânimos ainda não cessaram; o ar pulsa com desejo de continuidade. O coletivo reafirma-se como território de formação, não apenas no sentido acadêmico, mas como espaço para o gesto de aprender com o mundo. Hoje, o tema da vez é Labirintos Utópicos. Toda utopia é um labirinto, e todo labirinto é também uma promessa de saída.
Nesta segunda sessão, somos convidados à navegar pela fronteira do sentido, onde a clareza se desfaz e a experiência se torna matéria bruta. Encontros e reencontros que vivem no limiar entre a utopia e a perdição. Sob essa temática, somos levados a uma noite que deseja nos mostrar detalhes cotidianos e contradições rotineiras que constituem a própria essência da vida.
Após a exibição, a mediadora Vivi Pistache conduziu o público por um debate entre os realizadores das obras e uma posterior sessão de perguntas e respostas — que incluiu até uma indagação filosófica sobre o propósito da arte quando faltavam menos de cinco minutos para o encerramento. No fim, porém, a troca se revelou menos um espaço para perguntas objetivas e mais um momento de partilha, em que os presentes dividiram as formas pessoais e singulares com que se conectaram aos filmes e aos seus personagens.

Competitiva Filme-Ensaio
Assim como na noite anterior, os filmes-ensaios preservam sua liberdade formal maior e sua duração reduzida — traços que não apenas definem o formato, mas lhe conferem um caráter de gesto instantâneo. Nesta quinta-feira, porém, a categoria expandiu-se ligeiramente, totalizando quatro obras da modalidade nesta sessão.
Brás Cubas-Delírios (2011), de direção coletiva, foi o encarregado de abrir a sessão. Inspirado em um capítulo específico do livro Memórias Póstumas de Brás Cubas (Assis, 1881), o filme é menos adaptação que incorporação febril. Guia o espectador através de um lapso alucinante pelas contradições das memórias e pós-memórias de Brás Cubas. Um sonho breve e assombroso.
Logo após, Gaiola (2009), também de assinatura coletiva. Um homem recebe um pintinho dentro de uma gaiola; o piar incessante acumula tensão até tornar-se intolerável. Interessante como é um filme que em menos de quatro minutos consegue acumular camadas de impacto emocional diferentes através das rápidas reviravoltas. Primeiro, enoja o espectador ao forçá-lo a se perceber cúmplice de uma atitude horrível; depois, nos oferece a satisfação punitiva da vingança; no final, nos arranca o alívio culpado da descoberta do engano.
Omatofobia (2020), de Mari Lahr, é claramente um filme de pandemia. É o tipo de exercício que só pode surgir de uma mente afetada pelo tédio do isolamento — não digo como descrédito. Uma mulher em frente ao espelho, repetindo gestos higiênicos banais; a câmera é espelhada na horizontal, duplicando-se de modo que enxergamos duas imagens refletidas. Há uma brincadeira interessante entre o modo como a imagem é exibida e a óptica de um espelho.
O último dos filmes-ensaios do dia é Tring! (Coletiva, 2013). No curta, um telefone toca e, ao atender, sons estranhos escapam do outro lado da linha. 21 segundos de montagem veloz e ruídos indecifráveis vindos de um desenho de som que é um empilhamento caótico. Uma brincadeirinha rápida sobre mistério e sonoridade. Como uma gargalhada curta, some antes que possamos decifrá-la.
Competitiva Curta Escolar
Novamente, apenas um filme na categoria escolar. Cúmplice (2016), dirigido por Vinicius Augusto e feito em colaboração com uma turma da Escola Estadual Professor Odilon Corrêa. Uma bombinha é deixada no lixo do banheiro; um aluno que estava próximo é pressionado pela direção para entregar os culpados. Um ato de vandalismo, de uma banalidade quase cômica no contexto escolar, é filmado quase como um documentário true crime. Nesse sentido, me lembrou a série American Vandal (Netflix, 2017), um pseudodocumentário sobre uma investigação que busca os culpados por um ato de vandalismo escolar.
Competitiva Curta-Metragem
Sob a temática Labirintos Utópicos, os curta-metragens tem uma diretriz política menos evidente do que na abertura. Em vez disso, seu enfoque maior é em microgestos do cotidiano — detalhes que fazem a vida ser vida — fragmentos que, reunidos, compõem uma topografia da experiência humana.
O primeiro deles, Liberdade de Viver (2008), de direção coletiva. Somos convidados à acompanhar um dia na vida de Tony Zanello, aposentado da cidade de Rio Claro que utiliza sua estética como forma de expressão. Tony é um figuraça, com F maiúsculo! Um ser humano do século 20, repleto de charme, peculiaridades e contradições; características que são justamente o que o tornam especial. Um corpo em trânsito: excêntrico, anacrônico, irresistível na dualidade entre a pose consciente e a espontaneidade. Enquanto passeia pela cidade e conta suas histórias, a câmera é muito efetiva em capturar planos que ressaltam o corpo de Tony dentro da geografia daquele ambiente urbano, como quem cartografa uma cidade através de um único habitante. Um filme também sobre circunscrever a presença física e estética de Tony Zanello no espaço urbano.
Já Ir (2018), de Marina Palmero Butolo, vem na sequência, e junto do curta a surpresa da constatação de que, apesar do nome, não é sobre Jair Bolsonaro. Memórias; vida e morte de Jair, tia da diretora. Butolo é hábil em dissolver fronteiras temporais com rigor formal; VHS em registros do passado, lente anamórfica para denotar lembranças, e câmera de celular ou drone para o presente. Há uma melancolia que impregna a obra como uma tonalidade inevitável, conseguindo deixar até mesmo o carnaval melancólico — e isso é um elogio!
Mais um filme de João Paulo Miranda, que será homenageado no sábado, Command Action (2015). Na feira da cidade, um garoto se encanta por um boneco Comandos em Ação que está à venda em uma barraca. Um convite para o exercício da imaginação do espectador; o que o garoto fará para conseguir o boneco? A feira é um organismo polifônico, e o fluxo de vidas nela traz consigo personagens únicos que tentam o garoto em diferentes direções. Um campo de prova para o imaginário de um garoto fascinado por um brinquedo. Entre estereótipos e deslocamentos narrativos, o filme tensiona a ingenuidade da infância contra a complexidade social. Um curta sobre preconceitos, estereótipos, subversões e sobre a pluralidade da cidade.

Quer TC? (Coletiva, 2019) é o filme mais curto dos curtas (hehe), com apenas 1 minuto e 23 segundos. Uma senhora na terceira idade busca por conversas calientes na internet, enquanto finge ser uma jovem nos seus vinte-e-poucos anos. Um curta simples, mas que demonstra que não é necessário muita coisa para ser funcional. A persona virtual e o corpo envelhecido em conflito irônico e terno. A idosa e o “garanhão 22cm”. Impossível ver sem dar algumas risadinhas.
O próximo trabalho é de autoria de Cláudia Seneme do Canto: Vou-me Embora pra Paulista (2012). Trata-se de um filme documental sobre o Sr. Palotta, ex-funcionário da antiga CIA Paulista de Estradas de Ferro. Cinéma Vérité dos mais belos. A cineasta anda com o entrevistado pelos locais de sua memória, conduzindo-o por uma jornada emocionante na estrada das lembranças. O Sr. Palotta, por sua vez, com todo seu carisma, lembra à nós e à cineasta sobre a existência de um território onde o afeto e a morte coexistem. Os dispositivos cinematográficos não se escondem — o microfone constantemente invade a cena — nos fixando na realidade. Em determinado momento da sessão, a menina que sentou na minha frente tirou os óculos para limpar as lágrimas, e acho que essa imagem fala pelo filme muito mais do que minhas palavras.
Isolamentos Móveis (2020), assinado coletivamente, é mais um dos filmes de pandemia desta lista. Desta vez, não é um filme-ensaio, mas poderia ser. Com uma forma fluída e livre, o curta foi produzido coletivamente com imagens gravadas por diversas pessoas durante seus próprios isolamentos. Múltiplos dispositivos e múltiplos olhares constituem uma linguagem múltipla, condensada em um fluxo imagético psicodélico. Por fim, uma colagem sensorial que retrata um momento histórico que, indubitavelmente, marcou cada um dos espectadores.
Encerrando a noite, Poeta da Violência (2012), feito pela dupla Bruno Ch. Barrenha e Thierry Vasques. Um garoto isolado em seu quarto trava uma batalha violenta com sua própria mente. Há algo de Cronenberguiano no enquadramento dos cantos escuros e no modo como aquele mundo é coberto por uma violência onipresente que massacra o psicológico dos personagens. A violência aqui não é um tema, mas um clima, quase uma matéria suspensa no ar. Vamos compreendendo melhor o protagonista e seu pensamento conforme ele digita em sua máquina de escrever — mecanismo que revela, simultaneamente, o pensamento e a própria construção da narrativa. Nesses momentos, existe um jogo divertido de ir fazendo o espectador ler e perceber as coisas conforme elas são escritas.

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