10º FIIK JANELA CAIPIRA – SESSÃO DE ABERTURA

10º FIIK JANELA CAIPIRA – SESSÃO DE ABERTURA

Quarta-feira, um interstício ordinário entre o começo e o fim de mais uma semana de repetições. Poderia ser apenas mais uma data normal, outro dia de trabalho para o proletariado, mas não foi. Em meio às ruas e praças da Cidade Azul do estado de São Paulo, um sopro de cultura atingiu Rio Claro, rompendo o véu da normalidade. Na sombra confortável da noite, o Centro Cultural Roberto Palmari — cujo nome ecoa a memória do cinema nacional — acendeu com lampejos de imagem e som. Assim deu-se início a 10ª edição do FIIK Janela Caipira, o Festival Independente dos Interiores Kino-Olho.

Organizado pelo coletivo Kino-Olho, o festival assume como eixo a ideia de “Trajetórias dos começos” e celebra os vinte anos do coletivo. Longe de seguir linha reta, a exposição propõe um mergulho sensorial em vozes, imagens, bastidores e desejos, revelando o artesanato do cinema feito no interior. O que se exalta não é um produto final, mas o processo: o cinema como artesania, como tentativa, como falha bela e insistente.

Durante o primeiro dia, a atriz Val Morari — com direito ao apresentador da sessão chamando-a erroneamente, em uma confusão engraçada, de Val Moreira — foi homenageada. Val Morari não virou atriz — foi sequestrada pelo cinema. Vinda do teatro, moldada por grupos formativos e pelo Coletivo Kino-Olho, Val fez do interior paulista sua trincheira criativa. Em “A Forma do Barro”, seu mais recente curta, Val retorna à tela após em colaboração com seu filhe. Mais do que uma homenagem, seu nome escrito nesta parede é o reconhecimento de uma artista que encarna, com coragem e sensibilidade, o poder do cinema de dentro para fora.

Créditos: Michael Willis – @willis.mov

Ainda, o coletivo ressaltou enfaticamente o propósito deles como instrumento para levar o cinema e seu artesanato a todos da cidade. Um modo de fazer cinema que busca, em primeira instância, não a fama, mas possibilitar a arte às pessoas do bairro. Fazer do cinema um instrumento de acesso, de circulação sensível e de pertencimento; um gesto comum, popular e terreno. Nesse sentido, é muito interessante, e inegavelmente belo, observar os desdobramentos que a sétima arte performa para chegar em todos os cantos dessa região do interior paulista. Como uma maré, o Kino-Olho ocupa as ruas rioclarenses com um apetite voraz por fazer acontecer.

Questão que é banalmente percebida no fazer cinematográfico das obras exibidas na noite de abertura. Sejam filmes de uma só pessoa, que carrega o peso e a alegria de sonhar sozinha; ou filmes coletivos que abrem brechas para que o cinema aconteça — como contrabando sensível, como travessia. 

Durante sua fala, ao receber a homenagem, Val Morari afirma ter se tornado “atriz por acaso”. Uma fala que significa muito para sua própria história, mas que pode ser lida com uma abrangência ainda maior por traz. O acaso, nesse contexto, não é ausência de escolha: é sintoma de contágio. É uma fala que revela o modo sucinto com o qual o cinema invade corpos, sequestra almas e domina sonhos. Uma arte que, com toda sua potência, conquista corações e modifica rotas, levando-os para caminhos que não poderiam ser outros que não a própria arte. Um caminho que, uma vez trilhado, não permite retorno.

Estopim dado, tem início a décima edição do Janela Caipira. A primeira noite nos oferece um vislumbre dentro das mentes sonhadoras da região, divididas em três categorias: Competitiva Filme-Ensaio, Competitiva Curta Escolar e Competitiva Curta-Metragem. Tudo isso se organiza sob o tema da sessão:  “Começo, Meio e Começo”; focada em obras que buscam reinventar formas em um território marcado pelo passado colonial, onde o final se manifestou como um novo começo.

E assim, entre acasos e escolhas, o Janela Caipira reafirma seu lugar. Ao ocupar o interior com imagens e sons, o Kino-Olho celebra seu passado, projeta um futuro idealizado e insiste no presente. Porque, no fim, o que se projeta na tela não é apenas luz, é vida em movimento, é o começo que insiste em não terminar.

Créditos: Michael Willis – @willis.mov

Competitiva Filme-Ensaio

Os filmes-ensaios demonstram uma liberdade formal maior, compondo uma categoria onde o cinema se permite sonhar fora dos contornos rígidos da narrativa tradicional. Alguns deles soam até como uma espécie de experimento linguístico. A forma é conteúdo, e o conteúdo é devaneio. Não é à toa, as características inerentes da modalidade ensaística pemitem uma autonomia maior para as obras. Filmes que nos levam em uma viagem maluca por territórios psicodélicos.

A Girl and a Gun (2009), assinado coletivamente, é o primeiro curta da categoria Filme-Ensaio. A obra nos leva por poucos minutos à vida de uma garota que aguarda, tensa e bela, por seu amado num teatro deserto. Parece feito como estudo de composição noir — e é ótimo nisso. Belo chiaroscuro, angulos misteriosos, uma femme-fatale e uma artificialidade ressaltada que lembra até alguns momentos de Nouvelle Vague. Uma mulher, uma arma e, talvez, nenhum final.

Na sequência, O Eterno Regresso (2020), de Vânia Brega e Filastor Brega, apresenta-se com uma declaração de inspiração em Béla Tarr e Friedrich Nietzsche — uma combinação um pouco curiosa; na minha cabeça, Nietzsche odiaria Tarr. Um casal empurra um carrinho em direção ao infinito. O resultado é uma imagem em loop: um casal, um carrinho, um caminho. A inspiração em Béla Tarr é evidente, e não há muito mais a comentar.

Finalizando a categoria pela noite, Matriz da Liberdade (2025), de Ash Kauany, propõe um gesto generoso: observar o cotidiano como fluxo, e a praça matriz como organismo vivo. Ash demonstra um senso extremamente apurado para decupagem, montando ótimos planos em harmonia com as características daquele local. Uma câmera que ouve e respira com o lugar. Há um plano lindíssimo da cruz da igreja durante a missa. A praça é a personagem principal, e tudo que acontece e passa pelo local são manifestações físicas da protagonista; a praça é o centro gravitacional de todas as coisas. O resultado é uma cartografia sensível de um espaço comum elevado à dignidade de mito. Encerramos a primeira categoria com um gosto delicioso na boca (que lembra pipoquinha de praça)!

Competitiva Curta Escolar

A existência da categoria Curta Escolar, em si, já é um gesto político. Primeiro, por demonstrar um modo do cinema se manifestar em ambiente escolar, incentivando o fazer artístico lá dentro e reconhecendo o ambiente como espaço legítimo de criação cinematográfica. Em segunda instância, é um exemplo do que comentei ser o mote do Kino-Olho: levar o cinema para o povo. Prática que reafirma a ética do coletivo; o cinema como prática coletiva, como linguagem acessível e como possibilidade viva de expressão.

Na primeira noite, há apenas um filme da categoria: Buraco (2018), realizado por uma turma da Escola Estadual Professora Zita de Godoy Camargo. Em um futuro distópico, um grupo constituído apenas de mulheres sobrevive em meio ao caos pós-civilização; entretanto, tudo muda com a chegada de um homem desconhecido. Dos filmes da primeira sessão, é o que se aprofunda mais no cinema de gênero; se revelando como um flerte com o faroeste apocalíptico. O filme todo abraça uma visualidade marcada, se desenrolando com um filtro alaranjado constante — corroborando para a sensação distópica. No momento final, esse véu é suspenso e o filtro é removido durante um monólogo no último plano. Um modo bem engenhoso e simbólico de encerrar o filme.

Créditos: Michael Willis – @willis.mov

Competitiva Curta-Metragem

Chegamos, por fim, à última categoria da noite: Competitiva Curta-Metragem. As obras são um pouco mais longas (ué, mas não eram curtas? Brincadeirinha…) que as outras modalidades, com uma média de 15 minutos. Sob o tema da sessão, “Começo, Meio e Começo”, os filmes aqui reunidos operam, majoritariamente, sob uma diretriz política mais forte.

O primeiro filme é A Forma do Barro (2025), dirigido por Lares Lares, filhe da homenageada Val Morari. No curta, Val interpreta Rita, uma operária exaurida por sua rotina proletária. Ao longo de toda a jornada de Rita, existe um mal-estar muito palpável na mise-en-scène, onde cada plano parece pesar sobre o corpo da personagem. A direção é muito competente em transmitir as aflições da protagonista através da forma. Há uma cena específica, em um bar, que é de um desconforto enorme — e isso é um elogio! E quando a catarse final chega, é menos alívio do que ruptura; uma rachadura na superfície da sobrevivência.

Abismo (Direção Coletiva, 2024) propõe um jogo narrativo em um espaço de mineração, onde diferentes vozes se entrecruzam. Há algo de exercício nesse gesto; uma tentativa de colagem entre ficção e testemunho, entre encenação e devaneio. Interessante enquanto prática criativa, mas meio perdido no tom enquanto unidade. Característica que até faz sentido com a proposta, mas atrapalha o ritmo do curta.

O terceiro curta é Quem Chegar por Último (2016), de Rogério Borges. A obra acompanha alguns momentos da vida de David e seus amigos na periferia da cidade. Um film exímio no quesito competência técnica; é nítido que Borges não é amador e sabe exatamente o que está fazendo. Em debate após a sessão, Borges revela que os jovens do elenco eram seus alunos em uma escola pública da cidade; também menciona que deseja deixar a significação do filme por conta do espectador. Ambas as falas fazem muito sentido dentro da obra, que parece ter como objetivo primordial colocar a garotada para experimentar o que é fazer um filme. Dar à juventude o direito de se ver e de se imaginar dentro da linguagem cinematográfica.

Sendo o primeiro (e único) documentário informativo do dia, O Tamoyo (Mano Oráculo, 2010) faz um retrato sobre a história negra em Rio Claro, centrado na figura de Olga Maurício Mendonça e no clube Tamoyo, espaço de resistência negra na cidade. A obra consiste primordialmente de uma entrevista com Olga Maurício Mendonça, que conta sobre a história do local e sua vivência na época. Entretanto, é no extradiegético — nas fotografias antigas, nos arquivos visuais, na voz que ressoa em off — que ele alcança sua maior potência. Não que a entrevista per se não seja interessante, apenas faço uma constatação de que o brilho da coisa está com o cerne no material histórico. Um gesto de memória, com imagens que parecem perfurar o tempo, trazendo à tona presenças que recusam o apagamento. Além disso, um detalhe de um espectador chato, mas há alguma coisa na lateral direita da lente que o diretor usa para gravar a entrevista que embranquece muito a imagem naquele local.

Por último, mas não menos importante, A Moça que Dançou com o Diabo (2016). O filme, dirigido por João Paulo Miranda — cineasta que, apropriadamente, será homenageado no encerramento do festival — é um dos seletos curtas da Kino-Olho que foi exibido no Festival de Cannes. O filme inscreve-se no campo fértil onde a iconografia religiosa e o desejo colidem. A obra conta a história de uma garota evangélica (ou ao menos criada como) tentando encontrar seu local dentro do nosso mundo, território de disputa entre dogma e transgressão. Miranda é muito sagaz em compreender como ser político sem ser escrachado. Um filme impregnado de uma acidez sarcástica que nunca se rende ao escárnio. Comenta e crítica um recorte sociopolítico específico, sem deixar de ser estranhamente engraçado. O humor surge como consequência natural de uma atenção à vida que aceita a contradição como parte integrante de sua condição. O final inesperado — e não importa o quanto você tente, você não vai adivinhar o que é — arranca uma risadinha surpresa do espectador; é um riso desconcertado que nasce do espanto.

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