CRÍTICA – UMAMUSUME: PRETTY DERBY – BEGINNING OF A NEW ERA

CRÍTICA – UMAMUSUME: PRETTY DERBY – BEGINNING OF A NEW ERA

É com certa complexidade que venho a escrever essa crítica. Afinal, contextos se mostram necessários para justificar esse texto. UmaMusume

Por mais insípido que seja minha produção de críticas sobre animações japonesas no site, me considero um entusiasta e dolorosamente admito me encaixar no que é popularmente chamado de otaku, consumindo uma quantidade considerável de longas-metragens, séries e mangás. Ao longo dos últimos meses, um amigo muito próximo falava com certa constância sobre o universo de “UmaMusume” ou também informalmente chamado de: garotas-cavalo… Meu primeiro pensamento sobre foi que era um anime de centauros que corriam e eram todos do sexo feminino. Conversando com outras pessoas, aliás, é sempre a primeira associação que é feita pelos indivíduos. Não. São garotas-cavalo. Possuem orelhas e rabo. Somente isso. E sua função máxima nesse universo é correr. Correr muito. Japão sendo Japão, não é mesmo?

Com certa precaução e muitas solicitações, ousei assistir ao primeiro episódio da animação serializada e com o coach desse amigo, contextualizando as informações sobre esse universo… Me vi conquistado. Admito. Me tornei entusiasta desse universo ficcional e me assustei conforme a qualidade do roteiro – nada absurdo no quesito animação, por enquanto – e o nível de detalhismo sobre as personagens.

Detalhismo? Como assim, você pode perguntar. Bom… Essas garotas-cavalo são “reincarnações” dos cavalos da nossa realidade, os cavalos japoneses de corrida. As personalidades das personagens são baseadas nas características do cavalo ou das pessoas reais que rodeavam determinado cavalo. Suas histórias, arcos narrativos dramáticos, são inteiramente ambientados para complementar as reais ocorrências nas corridas históricas no Japão. Eles se apegam ao nível de agregar certos adereços nas orelhas das personagens e conforme em qual orelha está posicionado é possível distinguir o sexo do cavalo real: na orelha esquerda é égua e na direita um garanhão. Sim, sei que é bizarro e esquisito, mas impressiona que até mesmo peculiaridades dos cavalos são expostas às vezes em poucos frames, estruturando um world-building coeso e planejado das personagens em reflexo com as personas reais (seja animal ou humano).

Existem saldos positivos que refletem na própria realidade, pois graças a esse universo de UmaMusume – das animações, mangás e o próprio jogo eletrônico – a qualidade de vida dos cavalos aposentados melhorou consideravelmente, afinal, uma legião de fãs começou a se interessar pelas figuras reais e até mesmo visitar as fazendas em que os cavalos vivem. Por exemplo: o cavalo Meisho Doto não estava nas melhores condições de vida em sua aposentadoria, os fãs doaram quantidades absurdas de alimento para a fazenda, melhorando consideravelmente a qualidade de vida não só desse cavalo, como de todos os outros que viviam na mesma fazenda. Existem inúmeros exemplos do tipo. Recomendaria para quem se interessar pelas histórias desses cavalos reais, deixo aqui o link de um documentário do cavalo Haru Urara que é uma das figuras mais amadas pelos japoneses e o quão foi importante para a história das corridas e da superação do povo japonês durante a crise econômica na década de 1990.

Dado esse contexto, essa crítica vem com um propósito maior de recomendação para entusiastas de animação, seja somente pelo elemento estético. O filme UmaMusume: Pretty Derby – Beginning of a New Era é um espetáculo da animação! Já adianto que mesmo que a história fosse medíocre, ainda é possível sustentar uma nota alta somente pela experiência audiovisual, com uma ousada tomada de decisões em quais momentos posicionar músicas ou efeitos sonoros. Mas, vamos por partes.

Na estrutura narrativa de UmaMusume sempre há uma rivalidade entre personagens, é sempre elencado uma dupla, no caso do filme é Jungle Pocket e Agnes Tachyon, em que Jungle Pocket almeja atingir o mesmo nível de habilidade que Agnes que não a vê como sua rival de início. Assim, todo o foco do roteiro são os dramas psicológicos de ambas as personagens, complementados por coadjuvantes que tem seu brilhantismo na narrativa – no caso aqui é a personagem Manhattan Café. Todo o restante do elenco é bem secundário, funcionando como ferramentas de auxílio para os dramas emocionais das personagens, principalmente da protagonista Jungle Pocket. A novidade que é apresentada no longa-metragem quando comparado com obras anteriores – o anime Pretty Derby serializado – além da significativa melhora na qualidade da animação, é por um ponto final no quesito do quão agradável é a convivência de todo o elenco, mesmo das rivais. Aqui é inserido agressividade, ansiedade, depressão e até mesmo shitty talk entre as personagens – havendo a grande cena de um tapa na cara que gera um Absolute cinema no quesito drama.

E daí advém o contraste belíssimo do longa-metragem: não há nada de inovador em sua proposta narrativa, pois é o que pode ser denominado como um ótimo dramalhão. Participa de toda uma questão formal de estrutura de outros animes de esportes. Altos e baixos, vitórias e derrotas, frustrações e superação dos próprios limites, auxiliados por explorar a psique daqueles participantes da narrativa. O que faz UmaMusume, então, ser destacado entre uma escolha clichê de narrativa? Bom, é a compreensão sagaz do elemento visual!

Uma das melhores qualidades da animação é a experimentação de visuais fora do que é considerado tradicional. Explorar cores, ângulos, quebras da convenção estética, subversões da maneira de expor uma cena e até mesmo os cortes entre takes. O diretor Ken Yamamoto compreende com primazia essas qualidades e utiliza ao máximo isso para favorecer a narrativa do longa-metragem. É um espetáculo de momentos que reforçam uma ferramenta que muitas vezes é esquecida: mostrar. As cores, posições, cortes, momentos entendem que precisam auxiliar naquilo que as personagens estão sentindo, falando e pensando. Não há um singular segundo em que isso é esquecido pelo diretor, mobilizando as emoções do público através do visual para compreender os sentimentos/sensações daquilo que está em cena. Logo, com essa estratégia dos visuais refletirem muitas vezes o interno das personagens, é aberta uma porta para experimentar visualmente essa qualidade do texto, por mais clichê em que seja o tema que está sendo trabalhado na narrativa. Beira ao impossível que qualquer entusiasta de animação saia insatisfeito com o que é testemunhado no longa-metragem, deixando-me boquiaberto em diversos momentos, forçando até a repetição de certas cenas pelo simples prazer de rever a genialidade do take. Fiquei sem ar em alguns momentos, considerando quase incompreensível – no sentido de qualidade – aquilo que assistia, por desacreditar na qualidade do fora executado.

Outro ponto de importante qualidade no longa-metragem é no âmbito envolvendo áudio: tanto pela trilha sonora e efeitos sonoros. A ousadia acaba perceptível na escolha entre os momentos que possuem música ao fundo ou não, optando por valorizar os efeitos sonoros e é justamente tomado um caminho em que durante as corridas que essa estratégia brilha. O pensamento tradicional seria posicionar alguma música de alto valor, com ritmos mais acelerados, instrumentos que geram tensão no público durante uma corrida importante. No longa-metragem é o oposto, ficando-se em um total silêncio, acompanhado somente dos efeitos sonoros das personagens correndo e auxílios quando as personagens “despertam” ou “utilizam” seus “poderes”. Assim, acaba sendo importante assistir o longa-metragem com um bom fone de ouvido ou sistema sonoro, pois, caso seja o contrário a experiência cai pela metade.

– PARA AQUELES QUE AINDA NÃO ASSISTIRAM AO FILME, A PARTIR DO PRÓXIMO TRECHO ENTRAREI ABERTAMENTE EM SPOILERS – RECOMENDO ABERTAMENTE ASSISTIR O FILME ANTES DE LER QUALQUER COISA A PARTIR DAQUI – DESÇA O TEXTO ATÉ A PRÓXIMA MARCAÇÃO QUE É ENCERRADO A SESSÃO DE SPOILERS –

A narrativa, dentro do aspecto do dramalhão previamente citado, toma rumos bem fora do convencional, ainda mais quando comparamos com outros animes no gênero dos esportes. O primeiro ponto está no âmbito envolvendo a rivalidade entre a protagonista Jungle Pocket e a antagonista Agnes Tachyon. Nossa antagonista ganha – humilha – a protagonista em uma das corridas, superando diversos limites e quebrando recordes. Isso acaba gerando a sensação clichê, aonde o público acostumado acaba pressupondo que o roteiro a partir da derrota que a protagonista sofre, a próxima etapa é acompanhar seu treinamento para que no futuro próximo ela derrote a antagonista, mas não. Agnes Tachyon se aposenta das corridas – devido à uma lesão – e quando declara esse retiro das corridas Jungle Pocket é quebrada mentalmente, acorrentada pelo fantasma da rival que ela não terá oportunidade de superar em nenhum momento. Então, a relação protagonista x antagonista toma um rumo fora do convencional, pois o adversário de Jungle Pocket se torna uma ideia da sua rival, a pressão psicológica imposta daquilo que não poderá ser alcançado. O auxílio dos visuais nesse momento de interação entre ambas as personagens é de gerar um famoso “absolut cinema“.

Após o clímax da narrativa, então segue a jornada de Jungle Pocket buscando superar suas próprias limitações, buscando motivação de superar suas barreiras psicológicas, logo tudo isso acontece quase no meio do longa-metragem. O ápice da jornada da personagem Jungle Pocket vem no segundo ato da narrativa. A quebra de ritmo – que pode ser muito mal-vista por quem estava buscando a adrenalina promovida por todos os trechos prévios do longa-metragem – é belíssima, pois a partir deste ponto, o drama psicológico domina cada centímetro do texto e visual. Você engaja em uma jornada que busca a quebra dos limites mentais, das correntes que a protagonista impôs sobre si mesma a partir das frustrações constantes que sofreu, idealizado por um desempenho que não possuía até aquele momento. muito mais sonhando do que concretizando a velocista que almeja se tornar. É um respiro pesado, ansioso, pessimista. Então, mesmo que a sólida relação de rivalidade tenha se diluído, sobrando somente um fragmento de memória com a adversária perfeita, Jungle Pocket percebe que mesmo sem possuir provas diretas – ganhar uma corrida de Agnes Tachyon – é possível superar os limites e recordes de si própria elevando suas forças, moral e psiquê. É de um brilhantismo ousado e fora do convencional que poucos longas-metragens tomam enquanto estratégia para uma narrativa, principalmente no gênero esportivo.

– AQUI SE ENCERRA A PARTE COM SPOILERS DA NARRATIVA –

Daí advém todo o brilhantismo desse longa-metragem animado, pois a união entre narrativa – exposição – visual é de um exímio que não se vê com tanta casualidade. E ao pensar que estamos falando de um universo em que a principal proposta é testemunhar garotas-cavalo correndo e o foco subverter-se no drama emocional das personagens é uma quebra de expectativa que acaba sendo refresco. A maior contradição é perceber que uma proposta tão nichada tem tanto investimento em qualidade técnica (seja texto ou visual) e obras consolidadas na cultura popular continuam recebendo animações porcas e medíocres – sustentadas pelo argumento de um fandom que pensa: “melhor isso do que nada”.

Talvez tenha sido um dos textos mais complexos de apresentar, pois essa obra tem todos os indicativos de algo bizarro, estranho e esquisito. Mas, ao quebrar preconceitos e julgamentos prévios, UmaMusume: Pretty Derby – Beginning of a New Era é um espetáculo da animação como um todo. Se for para indicar qualquer obra desse universo para ser testemunhada, o longa-metragem é a melhor escolha, ainda mais se for para ficar em uma experiência com uma única obra das garotas-cavalo. Prometo para leitores que irei produzir mais textos envolvendo críticas de animes, é um compromisso que estou gerando comigo próprio. Afinal, tenho muito para comentar de tantas coisas.

Vá lá, assista essas garotas-cavalo correndo e aguardo ansiosamente por comentários e observações sobre!


Filme: UmaMusume: Pretty Derby – Shin Jirai no Tobira
Elenco: Yuri Fujimoto, Sumire Uesaka, Yui Ogura, Sora Tokui, Haruna Fukushima
Direção: Ken Yamamoto
Roteiro: Kiyoko Yoshimura
Nacionalidade: Japão
Ano: 2024
Gênero: Drama, Esporte, Corrida
Sinopse: Competir no mais alto nível das corridas de cavalos, a Série Twinkle, é o sonho de muitas garotas apaixonadas por cavalos. Embora só tenha participado de corridas estilo livre até então, a garota Jungle Pocket descobre essa mesma aspiração após testemunhar a estrondosa vitória de Fuji Kiseki em um grande palco. Dotada de uma autoconfiança inabalável, Jungle Pocket rapidamente conquista algumas vitórias, o que lhe permite participar de corridas de nível superior.
Classificação: Livre
Distribuidor: CygamesPictures
Streaming: Indisponível
Nota: 10

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