CRÍTICA – COYOTE VS. ACME

CRÍTICA – COYOTE VS. ACME

Papa-Léguas é, sem dúvidas, um dos personagens mais imediatamente reconhecíveis dos Looney Tunes. Concebido em 1949, a dinâmica entre ele e o Coiote se tornou um clássico absoluto da animação, partindo de uma repetição muito simples: o Coiote elabora um plano para capturar o Papa-Léguas usando produtos da Acme, mas sempre é vítima da própria engenhoca. É uma premissa extremamente simples, mas que encontrou uma longevidade impressionante justamente por permitir infinitas variações sobre a mesma piada. E talvez por isso a Acme tenha ganhado, com o passar do tempo, uma certa importância, gerando perguntas como: o que, afinal, existe de errado com os produtos da Acme?

Coyote vs. Acme parte justamente dessa ideia e transforma a velha piada na premissa do longa-metragem. Depois de tantos anos sendo vítima dos produtos da Acme, o Coiote finalmente resolve processar a empresa. A ideia, curiosamente, não nasceu diretamente dos desenhos: o filme é inspirado em um texto humorístico de Ian Frazier publicado na The New Yorker em 1990, que já imaginava o Coiote entrando com uma ação judicial contra a Acme.

Após mais uma tentativa fracassada de capturar o Papa-Léguas com um produto da Acme, Wile E. Coyote decide responsabilizar judicialmente a empresa pelos inúmeros acidentes provocados por seus equipamentos. Para isso, ele procura Kevin Avery, um advogado especializado em casos envolvendo produtos defeituosos. O que parecia ser apenas uma pequena ação se transforma em um processo de grandes proporções quando Avery percebe que está enfrentando uma das maiores corporações do mundo. Do outro lado do tribunal está Buddy Crane, poderoso advogado da Acme e antigo chefe de Avery.

Ou seja, Coyote vs. Acme tem a estrutura de filme de tribunal, mas insere elementos de aventura, investigação e conspiração, conseguindo amarrar bem essa mistura de gêneros em grande parte da projeção. Isso porque, nas cenas de investigação, nas quais o filme tenta inserir claras inspirações do cinema noir, há uma queda considerável na dinâmica do longa, o que faz com que ele lembre bastante Uma Cilada para Roger Rabbit.

E já no início do filme é possível perceber rapidamente o funcionamento desse universo. O Coiote tenta capturar o Papa-Léguas utilizando produtos da Acme, e mais uma vez dá errado. Além da nostalgia, algo que é inerente e totalmente esperado aqui, há uma função dramática muito clara para esse início. Já cansado, Coiote volta para sua caverna, dando sinais claros de que vai desistir. É nesse momento que entram cenas de arquivo dos desenhos antigos, com uma trilha sonora mais melancólica. Para quem cresceu vendo esses desenhos, existe uma força emocional maior nessa lembrança. Mas, para além da referência visual, esse início ajuda a construir a história do Coiote e até a criar uma certa identificação com o espectador. O Coiote, historicamente vilão, passa a ser vítima aos nossos olhos, não colocando o Papa-Léguas como vilão, mas a Acme, como tal.

E se tem algo que surpreende bastante é justamente a maneira como Coyote vs. Acme trata a Acme. Existe uma certa coragem em transformar a Acme em uma vilã tão claramente corporativa, lembrando diversos filmes das décadas de 70, 80 e 90, que representavam as corporações de maneira ácida. Ela não é simplesmente uma empresa que fabrica produtos defeituosos, mas uma corporação realmente suja e com planos escusos. Existe uma acidez aqui, embora ainda moderada, mas saindo um pouco da lógica que permeia vários filmes de estúdio atuais. Outro ponto que funciona muito bem é como David Green concebe a lógica do Grande vs. Pequeno de maneira muito simples, mas suficiente para gerar os conflitos necessários e o humor necessário.

Outro elemento que funciona muito bem é a concepção dos personagens. Há quatro personagens centrais aqui. O primeiro deles, e um dos pontos altos do filme, é o próprio Coiote. Como ele não fala, o filme precisa encontrar outras maneiras de fazê-lo se comunicar. Os gestos, as placas e principalmente suas engenhosidades acabam funcionando como a linguagem do personagem. Ele consegue se expressar através de planos extremamente elaborados, ou seja, tudo que ele faz parece passar por uma arquitetura de etapas, como se ele precisasse planejar cada mínimo detalhe. Mesmo quando a ação é simples, ele transforma aquilo em uma sequência mirabolante. Além de conseguir manter a essência do personagem, essa concepção carrega os principais momentos de humor.

Já o advogado de defesa, Kevin Avery, que conta com uma boa performance de Will Forte, é apresentado inicialmente através de uma propaganda de televisão na qual procura clientes para processos envolvendo produtos defeituosos. O escritório parece muito mais importante e profissional na propaganda do que realmente é. Isso porque Avery está completamente acomodado na vida que leva, numa zona de conforto profissional e pessoal. A sobrinha dele, Paige (Lana Condor), funciona como um contraponto interessante. Ela está começando a carreira e demonstra muito mais entusiasmo e vontade de fazer as coisas acontecerem. Essa dinâmica dentro do escritório é uma das coisas que ajudam a estabelecer o tom da história. Avery está acostumado a processar empresas por pequenas quantias e chegar rapidamente a acordos. Esses acordos não incomodam empresas grandes como a Acme e, justamente por isso, fazem parte da rotina dele. A chegada do Coiote e o entusiasmo de Paige mudam tudo por lá.

E por fim, com menos tempo de tela, mas com bom impacto, está o advogado da Acme, Buddy Crane, interpretado brilhantemente por John Cena. É uma concepção caricatural, mas que combina demais com o universo de Coyote vs. Acme. E talvez por isso Cena se encaixe tão bem aqui e seja fundamental para que o personagem ganhe brilho. O fato de ele representar a Acme o torna um vilão, mas não um vilão que passe algum tipo de temor no espectador. Ele funciona muito mais por transformar todo esse estereótipo em caricatura, sem amenizar o peso das ações da Acme que, de certa forma, representa as grandes corporações atuais.

E aqui voltamos para o momento talvez mais surpreendente, que acontece no final. Portanto, se você tem problema com spoiler, pule este parágrafo. O filme sugere que grandes empresas conseguem sobreviver a processos justamente porque têm recursos suficientes para prolongar disputas, encontrar brechas e fazer acordos. Existe também a ideia, exposta de forma explícita, de corrupção e de práticas ilícitas que ajudam essas empresas a proteger seus interesses. O fato de o Coiote e Avery não conseguirem simplesmente vencer a Acme torna essa dimensão da história mais interessante. O filme chega perto de uma visão bastante amarga de como grandes corporações funcionam no mundo real e de como existe toda uma estrutura que sustenta esse tipo de dinâmica. Ou seja, por mais que a própria Acme assuma as barbáries que faz com o consumidor, nada disso é considerado prova num processo judicial repleto de vícios. O problema, no entanto, é que pouco depois o filme recua dessa postura, oferecendo uma resolução mais confortável, clichê e previsível. Isso é, de certa forma, esperado quando olhamos para o contexto em que a obra está inserida. Ainda assim, a concepção de invencibilidade das corporações a partir da lógica capitalista é exposta. Mesmo com um verniz ao final, ela ainda está lá. E nisso Dave Green acertou.

Voltando à terra sem spoilers, posso dizer que Coyote vs. Acme é bastante eficiente naquilo que se propõe a fazer. Tem seu apelo nostálgico, o que era esperado, mas na dosagem correta, funcionando como acessório, não como base. Ele consegue transportar características fundamentais do desenho para uma estrutura de filme sem simplesmente tentar reproduzir o desenho em live-action. A investigação é o ponto em que essa energia diminui, porque o mistério da Acme não consegue produzir o mesmo interesse, mas existe uma boa ideia por trás do conflito entre o pequeno escritório de advocacia e uma empresa gigantesca. Peca um pouco no final por não levar sua visão mais amarga até as últimas consequências, mas ainda assim é muito divertido.


Filme: Coyote vs. Acme
Elenco: Will Forte, Lana Condor, John Cena, Tone Bell, Eric Bauza, P.J. Byrne, Martha Kelly, Luis Guzmán
Direção: Dave Green
Roteiro: Samy Burch
Produção: EUA
Ano: 2026
Gênero: Aventura, Comédia, Família
Sinopse: Após décadas de falhas catastróficas com os produtos ACME em sua caçada ao Papa-Léguas, Wile E. Coyote decide que é hora de buscar justiça e processar a corporação. Ao lado de um advogado azarado, Coyote trava uma batalha jurídica épica contra o impiedoso CEO da companhia. Enquanto enfrentam o sistema, a dupla desenvolve uma amizade improvável e luta para provar que a culpa de tantos desastres nunca foi do instinto, mas sim de defeitos de fabricação.
Classificação: Livre
Distribuidor: Paris Filmes
Streaming: Indisponível
Nota: 7,0

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