Foi um dos episódios mais marcantes da história dos acidentes radioativos em nível mundial, polêmicas e vítimas independente da perspectiva que você olhe, com vasto potencial pedagógico e uma ferida na memória coletiva que buscam cicatrizar através do esquecimento. O evento trágico do Césio-137 em Goiânia, capital de Goiás, carrega uma amarga tristeza pelos resultados ao observar pela perspectiva do presente/futuro. Então, um dos primeiros pontos que deixo bem claros aqui, apesar de todos os apesares que serão discutidos ao longo da crítica, é a ampla divulgação desse caso, principalmente por conta de a série ser da Netflix. Talvez, assim, resultados melhores cheguem na vida das vítimas que ainda sofrem dos efeitos da contaminação radioativa e novas iniciativas para que isso adentre na memória coletiva do povo brasileiro. Claro, também é um respiro por narrativas diferentes, fora de eixos tão amplamente e massivamente trabalhados no quesito temática histórica.
A série tem uma infinitude de problemas estruturais; por conta do quanto isso pode acabar acarretando uma extensa análise de aspectos negativos, gostaria de iniciar pelos elogios — deixando bem avisado quando adentrarei em spoilers — mas, spoilers sobre um evento histórico? Não há muito com o que se comprometer no sentido de perda dos elementos-surpresa ou ganchos que buscam quebrar as expectativas. A decisão é sua.
No variado elenco que encontramos — Leandra Leal (Esther), Tuca Andrada (Governador Roberto Correa), Antonio Saboia (Dr. Eduardo Souto), William Costa (Darlei), Alan Rocha (João), Emílio de Mello (César), Bukassa Kabengele (Evenildo) — junto com nomes mais “desconhecidos” — Johny Massaro (Márcio), Victor Salomão (Raimundo), Ana Costa (Antônia), etc., todos cumprem bem seus papéis; quando se deparam com momentos de desafio ou emocionantes é gerado um engajamento que traz imersão dentro da narrativa proposta. Carregam nas costas diversos momentos, ainda mais no clímax dos últimos episódios. Os elementos visuais da produção — tanto na fotografia quanto na cenografia do período histórico, pois os eventos do Césio-137 ocorreram nos anos de 1987 — merecem reconhecimento, com uma reprodução bem verossímil: carros, roupas, casas, prédios e música. Outro ponto positivo é a fac símile com os eventos, baseando-se tantos nos conteúdos das reportagens da época, nas entrevistas das vítimas reais e seus relatos das adversidades históricas. A linha do tempo dos ocorridos e representações deles respeita muito bem os fatos históricos. Mas, esse é um ponto meio-a-meio, pois diminui o quão abrangente fora a problemática em escalas maiores; limitações devem ter ocorrido no que envolve orçamento, etc., afinal, na série, acompanhamos em específico entre 12 a 14 vítimas envolvidas com Evenildo e seus familiares. Na realidade, houveram bombeiros, policiais, motoristas que não receberam instrução alguma ou precaução para lidar com o Césio-137, causando sequelas que ceifaram muito mais vítimas do que as que a série se compromete em acompanhar. Há uma “diminuição” na escala de afetados diretamente daqueles envolvidos tanto na contaminação quanto na contenção do desastre.
O ritmo da narrativa é em ascendente, com claras inspirações na produção Chernobyl (2019), da HBO. Há uma fragmentação e não convencional linha do tempo ao contar a história da tragédia, indo e voltando entre a memória das vítimas — o tempo antes do desastre tomar a proporção que tomou, quando a contaminação ocorria — e os dias “presentes” ou depois quando está ocorrendo a escalada da noção do tamanho desastre que estava acontecendo. Há um gancho de expectativa e o conteúdo prende no ritmo de consumir episódio atrás de episódio com certo fascínio por acompanhar cada ocorrência e o decorrer dos dias. Mas, essa cadência dos episódios demonstra o primeiro sinal das questões não tão positivas da minissérie. Ela caba diluindo seus principais defeitos por melhorar significativamente a cada novo episódio que é assistido, sendo seu último episódio o melhor momento das atuações — as personagens nos conquistam em seu drama e arcos individuais. Os atores carregam a qualidade do texto.
Ponto. Aqui acabam os elogios. Pois, de restante é uma fragmentação constante entre altos e baixos. E o seu principal inimigo no âmbito de imersão, verossimilhança e as atuações é o texto, o roteiro e a direção que foi tomada para direcionar as decisões dos atores em suas personagens.
O primeiro episódio é a balança que norteia todo o restante da série, pois os problemas que encontramos aqui se manifestam nos outros em doses maiores e menores dependendo da cena e momento, mas nada comparado ao terrível episódio de abertura. Se você superar a barreira aqui, o resto se torna muito mais palatável, porque parece que se deram o trabalho mínimo de estruturar melhor sua cadência narrativa e os atores estavam mais confortáveis em seus papéis. Então, a ideia é diluir o primeiro episódio enquanto reflexo do restante da série.
Sinceramente, a pior sensação que poderíamos obter ao encarar interações entre personagens é que o diálogo pode ter sido elaborado por uma inteligência artificial. É uma suspeita que nunca teremos confirmação, mas não abandona em momento alguma essa possibilidade. Além de generalizações de como pessoas do interior falam, forçando sotaques e maneirismos de uma maneira tão estereotipada que gera imediatamente a sensação de não imersão e de artificialidade, pois, existe uma necessidade constante de reafirmações de sensações, com um foco tenebroso de reforçar o quão é urgente lidar com o que está acontecendo. Personagens ficam repetindo falas umas para as outras ao ponto da burrice. “É realmente de alta gravidade a situação”; “Mas, você não pode ir embora em?!”; “Fulano, prometo que não irei, porque a situação é realmente grave”; “Então, tá bom, parece grave”. P*** já entendi e todo mundo entendeu!
A melhor maneira para representar ambos os focos é reproduzir esses diálogos, então, vamos para um exercício comparativo muito rápido.
Solicitei para uma das I.A.s de texto gerar um roteiro baseado no acidente do Césio-137 sem muito esforço com a elaboração do prompt para isso. Irei reproduzir aqui o roteiro feito pela I.A. da interação dos personagens:
| TEXTO FEITO PELA INTELIGÊNCIA ARTIFICAL | TEXTO ORIGINAL DA SÉRIE |
| INT. HOSPITAL ABANDONADO – DIA
Poeira suspensa no ar. O som dos passos ecoa. Wagner entra primeiro, chutando uma porta semiaberta. WAGNER Aqui dentro… ó. Vem cá. Beto entra mais devagar, olhando ao redor. BETO A gente não devia mexer nessas coisa, não. Wagner já está revirando um canto. WAGNER Deixa de frescura. Isso aqui tá largado faz tempo. Beto observa uma maca enferrujada BETO Era hospital mesmo, né… (pausa) Esses lugar assim… sempre tem história. WAGNER História não paga conta. Ele puxa uma chapa metálica. WAGNER (CONT.) Ó isso aqui. Já dá pra vender. BETO Isso aí é mixaria, Wagner. Wagner para. Olha pra ele. WAGNER Você confia em mim ou não confia? BETO Confio… mas não confio no lugar. Wagner ri, andando mais pra dentro. WAGNER Então confia em mim que o lugar esquece. Eles entram numa sala maior. A máquina aparece, coberta de poeira. Silêncio. BETO …que trem é esse? Wagner se aproxima devagar. Passa a mão. WAGNER Isso aqui… isso aqui é bom. BETO Bom como? WAGNER Pesado. (pausa) E coisa pesada… sempre vale. Beto não se aproxima totalmente. BETO Não tem base um negócio desse aqui dentro, não. WAGNER E por que não? BETO Porque ninguém larga dinheiro assim. Wagner se vira, meio impaciente. WAGNER E o que é dinheiro pra quem já foi embora? Beto fica em silêncio. Wagner bate na estrutura metálica. Som denso. WAGNER (CONT.) Escuta isso. Isso aqui é chumbo. BETO Você nem sabe o que é isso direito. WAGNER Sei o suficiente. (aponta) Isso aqui paga a semana fácil. Beto respira fundo. BETO Eu não gosto disso. WAGNER Você não gosta de trabalhar, isso sim. Wagner começa a forçar uma peça. WAGNER (CONT.) Pega as ferramenta aí. Beto demora. BETO Se der problema… WAGNER (interrompe) Não vai dar. BETO Você não sabe. WAGNER E você também não. (pausa, encara) Mas eu prefiro descobrir com dinheiro no bolso. Silêncio. Beto cede. Larga a mochila no chão. BETO Só você mesmo, viu… Wagner sorri, já animado. WAGNER Bora. Rapidinho a gente desmonta isso aqui e ninguém nem sabe. Beto pega as ferramentas. Se ajoelha ao lado da máquina. BETO Você sabe mexer nisso? Wagner já começa a puxar uma peça. WAGNER Sei trabalhar. Beto dá um leve sorriso irônico. BETO Trabalhar você sabe… fazer direito já é outra coisa. Wagner olha de lado. WAGNER Então faz melhor. Beto encaixa a ferramenta. Começa a girar. Metal rangendo. BETO Ó… se isso aqui explodir, eu vou te assombrar. WAGNER Se explodir, nós dois vira história. Os dois riem. O som do metal cedendo começa. A câmera se aproxima lentamente da máquina. |
Carlinhos: Aqui dentro. Aí. Lúcio, larga isso aí. Isso não vale nada não.
Lúcio: “não vale nada”. Ó o tamanho, Carlinhos. Carlinhos: Larga isso aí! Vem. Lúcio: tá de presepada comigo, rapaz. Carlinhos: Tô nada. Aqui dentro tem dinheiro. Já te falei. Lúcio: Carlinhos… Esse trem aqui tudo era um hospital antes, é? Deve tá cheio de alma penada aqui. Carlinhos: Deixa de bobagem. Vem. Ó o troço aqui. É isso ai ó. Lúcio: É esse trem aí? Carlinhos: Eu não te falei? Isso aqui é chumbo. Vale uma grana, Lúcio. Lúcio: Não tem base um trem desse, Carlinhos. Quem ia deixar um troço desse de valor nesse lugar abandonado do jeito que tá aqui? Carlinhos: E o que é chumbo para quem tem ouro? Lúcio: Hein? Carlinhos: Deixa de conversa e pega as ferramentas. Bora trabalhar. Lúcio: Só você mesmo, hein? Carlinhos: Bora! Lúcio: Você mesmo, hein? Carlinhos: Bora! Quando der fé nós desmontamos isso ai tudinho, não deu em nada. Lúcio: “não deu em nada…” Vamos pegar isso aqui. Pega aqui. Carlinhos: Isso aqui é bom. Desmonta rapidinho. Então vamos ver. Tu sabe fazer isso, né? Lúcio: Carlinhos, eu sei trabalhar, rapaz. Carlinhos: Por isso tô falando sei que sabe trabalhar e trabalha mal, olha aí. Olha. Lúcio: Ó, rapaz… |
Façam o julgamento por vocês próprios ao comparar ambos os diálogos. Então, além dessa sensação esquisita e estranha, os diálogos às vezes parecem demasiadamente artificiais — e sem julgar atores que aparecem às vezes em uma minutagem pequena, mas conseguem marcar com uma falta de carisma e convencimento terrivelmente memoráveis que quase nos impedem de continuar a cena. Por exemplo: na primeira cena em que o personagem Dr. Orenstein (Paulo Gorgulho) interage com alguns alunos. Só de me recordar dá arrepios do quão bizarra é essa cena, com um elemento quase tétrico de tão deslocada, na qual é possível encontrar maior naturalidade em Chiquititas ou Carrossel dado ao devido contexto. Outra característica que piora tudo é o caráter pedagógico de outras interações, em que vários momentos o roteiro força explicações que destoam total do contexto das personagens, soando quase como um Telecurso 2000. Escrito com tanta desnaturalização das falas que parece que toda a narrativa é pausada às vezes por segundos para que a personagem de Márcio possa contextualizar e ensinar o público da gravidade da situação e reforçar sua inteligência e importância de se encontrar naquele momento específico. A salvação está no núcleo das vítimas, em que tudo soa mais natural e menos forçado, carregando muito dos momentos nesse primeiro episódio e nos embalando em seus arcos dramáticos nos episódios posteriores.
Por mais simbólico e importante que seja retomar esse episódio histórico, colocando os holofotes em um momento que poderia facilmente ser diluído na memória coletiva nacional, a série, quando resolve entrar no parâmetro investigação/político dos eventos reais — encontrar os culpados pelo episódio e descaso —, toma o rumo mais seguro possível: não se comprometer com absolutamente nada. A delegada em nenhum momento sai em campo ou tem reações significativas com os convocados a testemunhar sobre seu envolvimento com a clínica e equipamentos abandonados. Ela é uma mesa rasa superficial que está ali só para você ver suas expressões. Realmente, o papel de uma investigação é não falar nada, somente ouvir e inquerir superficialmente aqueles presentes. O roteiro convencionalmente evita adentrar em qualquer denúncia, descaso e as contradições complexas que envolveram o episódio real, abandonando toda a gravidade em níveis da esfera política pública e social que é levantado, ainda mais quando envolvem poderes relacionais entre os interesses públicos e privados. A série acaba sem você entender quem é o culpado, quem são os responsáveis e pouco toca nas complexas questões até os dias presentes no que envolve a assistência das vítimas e o descaso com suas condições. A série busca essa posição isentona somente tocando da maneira mais confortável que lhe convém nos paralelos com a realidade. Era tão difícil assim dedicar um episódio ou mais momentos de tela para o elemento investigativo do caso? Ou na famosa cena de encerramento comentar melhor sobre todas as contradições da realidade? A desculpa e maneira de fugir desses apontamentos está na abertura do primeiro episódio — “INSPIRADO em fatos reais” — isso dá abertura para escapar pela tangente e evitar essas críticas, através do argumento de que foi inspirado e adaptado para a narrativa da minissérie. Talvez seja a característica mais sofrível da série, que tinha tanto potencial em gerar mobilizações políticas e sociais para melhora das condições de vida das vítimas reais e resoluções mais concretas sobre os culpados pela quase catástrofe na capital goiana.
Por mais que haja certa denúncia ao apontar conflitos entre as estratégias tomada pelo núcleo de personagens cientistas para solucionarem toda essa crise e o governador do estado, percebe-se que o governante está focado nas sequelas do episódio no seu currículo e popularidade política, fomentando possíveis crimes ambientais e repassando a responsabilidade do lixo tóxico para outros estados — mas nada disso é aprofundado. Até mesmo o preconceito sofrido pelas vítimas, que carregam toda a carga emocional da população julgando-as, pelo medo generalizado de suas presenças, acaba com pouco peso no tempo de tela. Não há interações na esfera política macro, não observamos esse lado político contraditório, hipócrita, manipulador e interessereiro. É o caminho seguro, comenta-se rápido e superficialmente sem comprometer nada no âmbito de posicionamentos e denúncias.
Então, vamos lá, se você superar a barreira péssima do primeiro episódio, a série melhora substancialmente a cada nova sequência, imergindo em sua narrativa e abandonando os textos tão terrivelmente escritos. O melhor movimento é testemunhar a série e, caso gere real interesse, buscar fontes mais confiáveis e documentários sobre o episódio real, evitando a desinformação para entender com mais precisão essa tragédia ocorrida. O mais importante é manter viva a memória disso e fazer as novas gerações se conscientizarem para que nunca mais algo dessa natureza ocorra. Que a Netflix ajuste seus erros no futuro e produza narrativas de melhor qualidade, pois é um frescor dentro de tantas mesmices que surgem a cada novo dia.
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Filme: Emergência Radioativa Elenco: Johny Massaro, Paulo Gorgulho, Bukassa Kabengele, Tuca Andrada, Ana Costa, Marina Merlino, Clarissa Kiste, Antonio Saboia, Leandra Leal, William Costa, Victor Salomão, Emílio de Melo Direção: Fernando Coimbra, Iberê Carvalho Roteiro: Fernando Coimbra, Gustavo Lipsztein, Joe Peracchio, Stephanie Degras Nacionalidade: Brasil Ano: 2026 Gênero: Drama, Docudrama, Tragédia, História, Suspense Sinopse: Uma catástrofe se inicia quando uma máquina de radioterapia é aberta em um ferro-velho, espalhando o material radioativo Césio-137 por Goiânia. Classificação: 16 anos Distribuidor: Netflix Streaming: Netflix Nota: 6,0 |

