Filha de dois gênios do cinema brasileiro, o catarinense Rogério Sganzerla e a baiana Helena Ignez, Djin Sganzerla vem trilhando um caminho muito próprio em sua carreira como cineasta. Após estrear na direção com o ótimo Mulher Oceano, em 2020, ela retoma esse lugar atrás das câmeras com o seu segundo longa-metragem, Eclipse, que chega às salas de cinema do Brasil após boa repercussão junto ao público e à crítica durante a 49° Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.
Grávida, a astrônoma Cleo (Djin Sganzerla) vivencia crescente reconhecimento profissional e um casamento aparentemente dos sonhos com o advogado Tony (Sergio Guizé), homem atencioso às suas necessidades e de alma filógina, isto é, alguém que aprecia, admira, respeita e/ou se comporta com empatia frente ao feminino. No entanto, essa doce realidade — digna de causar inveja aos casais de comerciais de margarina – começa a colapsar quando sua meia-irmã de origem indígena, Nalu (Lian Gaia), a procura para fazer, em tom expurgatório, uma revelação bombástica sobre o passado do pai de ambas.
Não bastasse o choque emocional trazido por esse encontro, Cleo intuitivamente passa a suspeitar do esposo, que, assim como o pai dela, talvez esconda segredos execráveis nos porões do mundo virtual. A perspicácia de seu olhar, sempre atento aos mínimos detalhes dos registros feitos do espaço sideral, serve como ponto de partida da virada narrativa que transforma Eclipse num instigante thriller psicológico feminista. É bonito ver como o roteiro, escrito a quatro mãos pela própria Djin e por Vana Medeiros, é estruturado orgânica e tacitamente segundo princípios caros à sororidade. Fugindo ao panfletarismo de obras que verbalizam desnecessariamente as ações de suas personagens, a relação construída por Nalu e Cleo dá as costas a qualquer resíduo comportamental derivativo do Complexo de Electra, optando pela união dos esforços entre duas mulheres em momentos críticos de suas vidas, juntas a despeito do contexto de espelhamento vivido por elas, quase que de maneira mística.
É verdade, todavia, que essa junção, ao final, haverá de reforçar a assimetria de benesses gozadas pela mulher branca de inegável êxito profissional, em detrimento da outra, cujas marcas étnicas estão indissociavelmente inscritas em seu corpo e sua identidade enquanto indígena. Ainda acerca dessa dimensão identitária comportada pela trama, com direito à evocação da onça-pintada como símbolo da feminilidade indomável — vide o contraste entre a sua presença no zoológico e, posteriormente, a nadar livre na natureza—, é preciso salientar que os acontecimentos envolvendo Nalu, por mais representativos que sejam das diversas manifestações de violência de gênero praticadas todos os dias contra as mulheres, terminam não tendo o mesmo peso narrativo. Não que isso afete de modo considerável o filme, mas, simbolicamente, seria importante que houvesse um equilíbrio quanto ao desenvolvimento dos arcos particulares de cada uma das protagonistas.
Ainda que não seja perceptível, neste trabalho, uma assinatura autoral inequívoca da parte de Djin Sganzerla, capaz de conferir a esta um lugar destacado no panteão das cineastas brasileiras, Eclipse evidencia que a diretora carioca continua a seguir uma trajetória consistente em sua proposta de cinema intimista, assumidamente voltada a um mergulho na psique de suas personagens femininas, as quais não têm vergonha da sua condição de independência e protagonismo social. Ao contrário de seu longa anterior, no qual o contexto ao redor delas servia como mero pano de fundo da história, vemos, aqui, um avanço significativo quanto à capacidade de a narrativa relacionar trajetórias individuais a temáticas tidas como fundamentais no ordenamento das sociedades contemporâneas (ao menos no Ocidente), a exemplo da violência contra a mulher e da autonomia das mulheres.
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Filme: Eclipse Elenco: Djin Sganzerla, Sergio Guizé, Lian Gaia, Luís Melo, Gilda Nomacce, Helena Ignez Direção: Djin Sganzerla Roteiro: Djin Sganzerla, Vana Medeiros Produção: Brasil Ano: 2025 Gênero: Drama, Suspense Sinopse: Uma astrônoma de 43 anos, grávida e emocionalmente fragilizada, é surpreendida pela visita de sua meia-irmã de origem indígena. O encontro revela segredos sombrios e desperta memórias fragmentadas, levando as duas a investigações obscuras. Classificação: 16 anos Distribuidor: Pandora Filmes Streaming: Indisponível Nota: 7,0 |

