Nem tão natalino, nem tão amargo quanto o título sugere, “Amarga Navidad” é um agridoce retorno ao cinema de Pedro Almodóvar, confeitado por algumas peculiaridades, mas recheado pelo mesmo núcleo temático que o cineasta espanhol tanto excita ao trabalhar. Dessa vez, vai ainda mais além ao tentar se comunicar com o espectador — em especial àquele que há muito tempo se envolve pelas películas e assuntos abordados pelo dramaturgo. Na realidade, seu mais novo filme, que teve estreia no Festival de Cannes de 2026, não está muito distante de uma pseudo autobiografia do autor.
A trama, dividida em núcleos, persegue as escritas de Raúl, escritor retornando de longo hiato, vivido pelo ótimo Leonardo Sbaraglia. Nessas imersões, que predominam boa parte da metragem da obra, acompanhamos Elsa, uma cineasta que também enfrenta hiato por conta de seu trabalho com publicidade — interpretada pela maravilhosa Bárbara Lennie. Mas muito há de semelhanças entre Raúl e Elsa. Consequentemente, uma metalinguagem em quatro camadas se instaura, já que parece proposital constar o próprio Almodóvar como personagem invisível na estrutura deste filme. Almodóvar escreve Raúl — que escreve Elsa. E tudo deságua nesta última que, por sua vez, passa a escrever seu novo filme.
A arte, como algo impossível de se descolar da realidade, não apenas se assemelha com a vida real, mas a transmite, a expande, e a faz palatável de reflexão — já que muitas vezes precisamos passar por atos falhos, projeções e, em alguns casos, criar ficções em nossas mentes (com aqueles personagens que nos cercam no dia a dia disfarçados de outros o tanto similares), para podermos nos tocar daquilo que nos aflige e impacta diretamente. Logo, o movimento artístico inconsciente se torna tanto uma sublimação de angústias internalizadas, como na criação de um campo espelhado que se possibilita, ironicamente, ver a vida como ela é — ainda que conte com situações ou figuras reais que trocam de nome ou aparência no campo imaginário, mas que simbolizam a mesma coisa.
Portanto, não é enorme mistério que Almodóvar sabiamente transmita a angústia que seu Eu artístico enfrenta por meio dos julgamentos sofridos por Raúl — por exemplo, no momento em que sua ex-parceira o ataca por saber que ele acabou pondo a morte precoce do filho de sua amiga em uma personagem de seu novo livro; ou seja, na história de Elsa — que também será julgada posteriormente. Isso nada mais é do que Almodóvar desabafando acerca dos limites hipotéticos que separam a inspiração na vida real da criação artística. Afinal, qual é o limite que marca a separação entre espelhamento e imitação absoluta? A resposta parece ser bem radical: seja lá qual for, não ouse castrar o artista de sua associação livre e de sua geração artística orgânica — deixe-o colocar para fora!
Tudo bem que Raúl enfrenta sérios travamentos, mas, ainda assim, o sufocamento que ele vive parece ser o ponto principal de análise por aqui. Ainda que sufocado, nós nos imergimos em seu conto — conto este que curiosamente remonta uma dinâmica dramatúrgica criada por um agente que também é personagem (tanto quanto aqueles que escreve) e que perpassa o mesmo conteúdo, bifurcando-o em outras complexidades. E poucos cineastas atualmente têm a disposição de abranger tão bem uma rede caótica como esta, que nem Almodóvar, e de estar consciente desse lugar de crítica que ocupa: um homem por décadas contando histórias em perspectivas femininas, despertando debates sobre lugar de fala; mas se mantendo coeso e com íntegra confiança no poder da arte, que fala mais alto que o entorno.
Fato é que o filme se eleva bastante quando está investigando Elsa, e suas enigmáticas dores de cabeça, e de alma — além dos ótimos personagens, como o namorado carismático de Elsa, o bombeiro stripper vivido por Patrick Criado, e a misteriosa amiga vivida por Milena Smit, que surgem e deixam uma pulga atrás da orelha. Ainda que inigualavelmente interligadas, o ritmo da camada de Elsa é bem mais fluido e instigante do que os iniciais estagnados momentos da camada de Raúl — que não tem pressa para engatilhar. A verdade é que Raúl é uma figura ambígua, sujeita à incongruência: ora genuinamente interessado pela dor humana, ora um egoísta que adota a fragilidade para servir a sua própria obra. E é bravo que Almodóvar nos leve a vê-lo decifrando seus próprios quebra-cabeças e os respaldos que isso causa, enquanto, inevitavelmente, se identifica com seu personagem.
Felizmente, com uma música exuberantemente arrepiante de Alberto Iglesias, costumeiro colaborador musical de Almodóvar, sabe-se que a construção constante de um clímax simultâneo entre as realidades está sendo elaborada. A fotografia de Pau Esteve Birba, adotando a tradicional paleta de cores almodovariana, capricha acima da média em uma bela mise-en-scène, com direito a paisagens de tirar o fôlego, em especial em uma casa de praia desfrutada pelas personagens por volta da metade da fita.
Natal Amargo, no fim das contas, une realidade e ficção em uma obra que é uma síntese de como é impossível separar as duas coisas. E não apenas cercado por personagens interessantes que se manifestam como significantes desse labirinto metalinguístico acerca de criação artística, distorções da vida real, deslocamentos emocionais, luto — mas também de reafirmar a si mesmo. E não que Almodóvar ainda precise se provar para o mundo. Mas ele mostra a importância da valentia em continuar defendendo e reacendendo sua chama, seja criando, seja roubando (da vida real) como um artista.
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Filme: Amarga Navidad (Natal Amargo) Elenco: Leonardo Sbaraglia, Bárbara Lennie, Aitana Sánchez-Gijón, Victoria Luengo, Patrick Criado, Milena Smit Direção: Pedro Almodóvar Roteiro: Pedro Almodóvar Produção: Espanha Ano: 2026 Gênero: Drama Sinopse: Um conto de várias camadas envolvendo artistas que usam dos problemas da vida real para criar suas artes. Classificação: 12 anos Distribuidor: El Deseo, Mubi Streaming: Indisponível Nota: 8,0 |

