CRÍTICA – HARRY POTTER E A PEDRA FILOSOFAL

CRÍTICA – HARRY POTTER E A PEDRA FILOSOFAL

Mais uma vez estou mudando o eixo temático das minhas críticas. É isso leitores, graças a coincidências e estímulos de outras mídias retornei para essa franquia.  Uma situação quase anual que sempre me leva a no mínimo reassistir aos filmes e quando há tempo disponível reler todos os livros. Uma paixão que carrego desde criança que sempre fui fascinado em muitas esferas pelo universo ficcional de Harry Potter.

Porém, o gatilho foi lembrar que ao final do ano (2026) haverá o lançamento da série. Todos os tipos de expectativas já foram implantados no público: positivas e negativas e, claro uma dosagem de debates complexos, intrincados e difíceis de lidar. Mas, não é sobre a série que vamos discutir aqui. Vamos é preparar o terreno. O que é melhor do que falar de filmes que já podem ser considerados grandes clássicos do cinema e uma das franquias mais rentáveis da história no eixo da cultura popular. Sim, vamos passar filme por filme, buscando contemplar um bom número de aspectos, sejam eles bons ou negativos. Espero conseguir agregar algo de novo nessa imensidão de comentários, críticas, observações e reações com uma obra tão vastamente explorada pelos meios virtuais de comunicação. Aqui começa uma jornada que espero concluir a tempo.

Chega de introduções. Vamos ao que importa!

Se passaram seus 25 anos do lançamento do primeiro título aos cinemas, conquistando gerações e fomentando o imaginário mágico dos bruxos a nível mundial. Eu tentei ao máximo assistir buscando me afastar de todo elemento nostálgico, saudosista e carinhoso pelo longa-metragem, visando contemplar uma maior neutralidade (impossível de atingir em sua plenitude), mas fui desarmado imediatamente em seus primeiros minutos iniciais. De quem é a culpa? Do talentosíssimo e genial John Williams, compositor e maestro de diversas trilhas sonoras icônicas da 7° arte – Tubarão (1975); Jurassic Park (1993); Star Wars Episódio IV (1977). A trilha sonora de Harry Potter – que é composta por John Williams nos três primeiros títulos – é impecável e um dos personagens centrais para imersão nesse universo ficcional.

Graças a escolha dos instrumentos, o público é automaticamente jogado em um universo sonoro mágico, recheado de uma riqueza de temas e momentos que acompanham a contemplação, alegria, tensão e tristezas da narrativa conforme as personagens. Isso gera uma sincronia entre aquilo que assistimos e o que ouvimos, formando aquilo que chamamos de leitmotif, que é o motivo condutor, uma associação temática sonora entre uma personagem, objeto, ambiente e até mesmo ideias ou sentimentos, que repetem com certas constâncias, variando em torno da composição com instrumentos e tonalidades. É possível assim através da trilha sonora assistir o filme inteiro. Ouso dizer que – pessoalmente – é o melhor trabalho de composição de John Williams. A todo momento me pegava embasbacado com as músicas, o quão bem a montagem, edição, roteiro e cena trabalhavam em sintonia com aquilo que está sendo tocado. Deixo a provocação: talvez seja um dos maiores desafios para a série que está por vir em comparações.

São tantas músicas para serem citadas que prefiro elogiar o todo essa composição. Esse primeiro longa-metragem possui tantos temas que imprimem em sua alma uma identidade que torna a franquia do garoto que sobreviveu única na memória dos indivíduos que ousaram acompanhar essa jornada. Se fosse citar uma única música para você ouvir com fones de ouvidos ao máximo e simplesmente fechar os olhos, deixarei ela aqui:

 

 

Nosso elenco é formado tanto por rostos já familiares e com uma grande história no cinema – principalmente no eixo britânico – Alan Rickman (Severo Snape); Robbie Coltrane (Rubéo Hagrid); Richard Harris (Albus Dumbledore); Maggie Smith (Minerva McGonagall); John Hurt (Olivaras); Richard Griffiths (Valter); David Bradley (Argo Filch); Warwick Davis (Prof. Flint) e etc. que ironicamente em sua grande maioria já partiram e deixaram sua marca na nossa memória trazendo a vida para essas personagens. A outra é o elenco de crianças que viriam a ter sua identidade de carreira eternamente associada aos seus papéis na franquia: Daniel Radcliffe (Harry Potter); Emma Watson (Hermione); Rupert Grint (Ron Weasley); Tom Felton (Draco Malfoy) James e Oliver Phelps (Fred e George Weasley); Matthew Lewis (Neville Longbottom) para citar somente alguns de um vasto elenco que somente aumenta conforme a série avança em seus lançamentos. Poucos conseguiram – ou melhor tentaram – se distanciar dessas personagens em suas carreiras (no sentido de buscar um marco tão icônico quanto), mas esse é o problema de trabalhar em uma franquia que durou tanto tempo e com tamanha fama a nível mundial.

Em específico do elenco criança, primeiro é admirável o trabalho de direção de Christopher Colombus lidando com um elenco praticamente desconhecido com delicadeza a ponto de nunca esquecer que são crianças. É uma linha muito bem desenhada que mantém você dentro da narrativa, mantendo-nos convencidos de suas atuações e abraçando muitas vezes as reações quase caricatas, porém, por se tratar de crianças é mais convincente, sendo uma opção mais viável do que visar um realismo de suas partes. São poucas as partes que envelheceram mal ou que beiram ao cômico – por exemplo, a reação de Hermione quando Harry lê a notícia de jornal sobre a tentativa de roubo ao banco Gringotes. O maior destaque é a personagem de Draco Malfoy – que mesmo com pouca participação nesse primeiro título cria impressões do menino mimado, provocativo, metido e preconceituoso com exímio, ainda em uma estrutura que reflete as estruturas de seu núcleo familiar. Talvez seja a personagem do núcleo de alunos com a narrativa mais elaborada, complexa e construída – desculpa aos defensores de Neville, porém a personagem tem seu arco narrativo sacrificado em grande parcela (quando comparado ao livro) infelizmente. Até mesmo quando comparamos Draco Malfoy em relação ao protagonista Harry Potter, ele ganha mais destaque pelos conflitos internos que serão desencadeados ao longo dos oitos títulos, principalmente pela linha de uma jornada do vilão/anti-herói tênue e complicada, sem abandonar em cativar o ranço e posterior quase empatia do público.

Já no elenco adulto, focando naqueles que ganham bastante tempo de tela, eu amo a construção da personagem de Dumbledore por Richard Harris – ouso dizer que talvez eu prefira esse trabalho ao seu futuro substituto Michael Gambon. Richard Harris traz um quê de velho bobo, com um ar etéreo e sonhador, de reações simplistas (nada de gritaria ou reações espalhafatosas) e um quê lúdico que é esquecido em sua personagem futuramente. É uma figura de vestimentas exageradas, coloridas, grandiosas, a figura de um bruxo quase próxima de desenhos animados ou contos-de-fadas para crianças. É interessante esse equilíbrio entre suas expressões etéreas, que reforçam alguém que entende dos contextos além daquilo que o próprio público sabe, sua seriedade em momentos relevantes e os alívios que são transmitidos pelas suas brincadeiras, trocadilhos, olhares e piscadelas que causam segurança tanto para as personagens quando ao público. Agora o que falar da presença magnética e ultrajante em sua qualidade de Alan Rickman interpretando Severo Snape. Desde a primeira cena se destaca, conseguindo conquistar a antipatia do público em um estalo de dedos, com poucos olhares e falas. Um carisma singular que é levado por toda a saga. Um desejo pessoal era mais tempo de tela para a professora Minerva, pois mesmo em seus singelos minutos de tela Maggie Smith também nos convence e conquista, porém com pouco brilhantismo pelo pouco tempo de desenvolvimento de sua personagem (com raras exceções nos oito filmes).

A construção desse universo ficcional e suas localidades: Beco Diagonal, Caldeirão Furado, Estação 9 ¾, Floresta Negra e a arquitetura principal, a Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts saltam aos olhos. A priorização de efeitos práticos e jogos de câmera – ângulos, enquadramentos e cortes – auxiliados com um impecável trabalho de montagem de cenários – cabível a todos os ambientes previamente citados – é impressionante e envelheceu igual a vinho. O Beco Diagonal (primeiro ambiente que adentramos nesse universo mágico em ampla visão) é de uma riqueza de detalhes que se pode pausar cena em cena visando encontrar minúcias na montagem. Escritos, anúncios, produtos, estéticas que embalam qualquer um que esteja imerso narrativamente. Há uma identidade visual que captura os olhos, comunicando tudo aquilo que precisamos saber sobre muitas coisas sem a necessidade expositiva constante, deixando aos pequenos detalhes compreender cada espaço. A riqueza de cada espaço em específico de Hogwarts: as salas de aula, salão principal, os andares das escadas que se movem, a sala comunal etc., convencem.  Gostaria de ter tido a experiência de leitura primeiro dos livros em que os filmes adaptam para contrastar com aquilo que imaginava e o que foi imaginado na estruturação do longa-metragem. Se alguém teve essa singular experiência, comenta aqui sua visão sobre. Digo isso, porque mesmo no processo posterior de leitura, é impossível desvincular uma coisa da outra (a menos que as descrições fossem absurdamente contrastantes), mas o filme a meu ver engrandece aquilo que não é lá muito bem descrito – afinal, a autora foca bem mais no ritmo de ação da narrativa, descrevendo somente o necessário -, assim o universo de Harry Potter é reforçado e ganha mais força constituinte através dessa manifestação visual/imagética da imaginação coletiva.

A mesma coisa não pode se falar quando se trata dos efeitos visuais digitais, que deixam a clara marca de envelhecimento para o lado negativo. Apesar de não serem constantes, quando aparecem por um tempo maior do que poucos segundos, é notável o quanto datado ficou. Por exemplo: a cena de Neville perdendo o controle da vassoura na aula de voo e o jogo de quadribol. O problema é em específico na digitalização das personagens reais (humanas), que fazem jus as cutscenes dos antigos jogos de Playstation 2 e ouso dizer que nos jogos eletrônicos são mais polidos do que aqui. Vale a observação contrastante que quando envolve figuras não reais (monstros e animais fantásticos), não gera a mesma sensação esquisita e olha que elas são destaques nessa narrativa – Fofo, o cachorro de três cabeças, o dragão filhote de Hagrid ou até mesmo Trasgo das Masmorras. Selar o pacto de imersão é mais fácil com essas figuras por não se tratar de algo real que pode cair no famoso uncanny valley (Vale da Estranheza). Já o nosso vilão final, o famoso Quirrel Voldemort, com dois rostos em uma mesma cabeça, adentra no uncanny valley, porém aqui quase (não sei se de propósito, pois hoje em dia é claramente datado) parece proposital a escolha dos efeitos especiais. É esquisito, nojento, repugnante – tal qual deveria ser para qualquer um testemunhando esse humano/criatura possuído pelo Lorde das Trevas.

Em termos da narrativa, é uma posição difícil falar sobre, pois, além de ter muitas estruturas de interpretação e opiniões consolidadas sobre Harry Potter – tanto as positivas quanto as negativas – também existe a dificuldade de acabar “chovendo no molhado” e ficar de repetindo aquilo que já foi explorado massivamente em vídeos ensaios, artigos, textos, críticas e conversas. É formado uma espécie de “cânone” de interpretação generalizado entre aqueles que tem contato com a obra. Então, o que posso dizer sem ficar exaustivo e evitando cair no campo de elaborar minuciosamente sobre a adaptação do primeiro livro?

A nível de adaptação, Christopher Colombus é direto, existem os recortes daquilo que pode ser considerado “gordura” extra narrativa – por exemplo a diminuição no número dos desafios finais para chegar à Pedra Filosofal – mas, toda a estrutura base da narrativa está no filme, nada mais e nada menos em âmbitos narrativos, muitas vezes espelhando em minúcia os diálogos. Então, há um respeito considerável ao material original, seguindo quase que na literalidade a ação do livro, agregando e preenchendo as lacunas, principalmente naquilo que envolvem os ambientes e cenários. Aproveitando do gancho sobre os cenários, no âmbito da conexão geoespacial da narrativa, é completamente ignorado (alguns já sabem se estão familiarizados com a saga na onde isso é “corrigido”). Então a noção de conexão entre os espaços narrativos é ignorada ou muitas vezes fragmentada em um ponto que é impossível localizar a onde da em qual lugar. É notável a diferença nos futuros títulos da franquia, havendo sim uma repetição imagética dos corredores, salas de aula e outros espaços. As soluções são bem diretas: a casa de Hagrid aqui é literalmente após a saída do portão. Os closes fechados, estáticos e paralisados têm seu charme e nada contra uma montagem tradicional, mas dentro de um filme recheado de magia, as câmeras promovem tão pouco dentro do potencial de exploração que o cinema possui.

Esse processo de abertura estabeleceria padrões que iriam refletir em toda a indústria, criando modos de produção narrativas que se espelham até os dias atuais no modelo que Harry Potter foi para a cultura pop e para o capital cultural. Christopher Colombus constrói um terreno bem demarcado, recheado de qualidades e quando comparadas aos defeitos, são mínimos e quase irrisórios. É sempre bom olhar com carinho para o ponto de partida… Resta-nos pensar como será pelo restante da jornada. Quais contrastes e expectativas são construídas e descontruídas?

Nesse título… Bom. É mágico. Um portal para o passado do cinema, da infância, da cultura pop e de outro modo de fazer cinema e de imaginar cinema. Harry Potter seria uma porta de abertura para todo um modo de literatura infanto-juvenil que vem a ser publicada e suas respectivas adaptações. Vamos aproveitar enquanto tudo ainda e mágico e com uma qualidade assustadora de positiva…


Filme: Harry Potter and the Philosopher’s Stone (Harry Potter e a Pedra Filosofal)
Elenco: Daniel Radcliffe, Emma Watson, Rupert Grint, Alan Rickman, Richard Harris, Robbie Coltrane, Tom Felton, Bonnie Wright, Matthew Lewis, Fiona Shaw, Maggie Smith, John Hurt, Richard Griffiths, Warwick Davis, Oliver Phelps, James Phelps, David Bradley
Direção: Christopher Colombus
Roteiro: Steve Kovles
País: Reino Unido
Ano: 2001
Gênero: Infantil, Fantasia
Sinopse: Harry Potter é um garoto órfão que vive infeliz com seus tios, os Dursleys. Ele recebe uma carta contendo um convite para ingressar em Hogwarts, uma famosa escola especializada em formar jovens bruxos. Inicialmente, Harry é impedido de ler a carta por seu tio, mas logo recebe a visita de Hagrid, o guarda-caça de Hogwarts, que chega para levá-lo até a escola. Harry adentra um mundo mágico que jamais imaginara, vivendo diversas aventuras com seus novos amigos, Rony Weasley e Hermione Granger.
Classificação: 10 anos
Distribuidor: Warner Bros. Pictures
Streaming: HBO Max, PrimeVideo
Nota: 9,5

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