CRÍTICA – MUITO PRAZER

CRÍTICA – MUITO PRAZER

Muito Prazer, o novo filme de Jorge Furtado (Saneamento Básico: O Filme, Meu Tio Matou um Cara e O Homem Que Copiava), deixa no espectador um sentimento antagônico ao que suscita o próprio título. Embora Furtado seja conhecido por utilizar suas obras para a crítica social — conduzida, principalmente, por uma fina ironia —, a fórmula aqui não funciona. Seu novo longa-metragem mostra-se incapaz de discutir até mesmo o prazer, apesar de ter um motel como ambientação e diversas cenas de sexo como conteúdo da trama.

O personagem Rubem (Daniel de Oliveira) é formado em administração, já passou por diversos empregos e, atualmente, trabalha como motorista de aplicativo quando herda um motel abandonado. Embora esse pano de fundo seja suficiente para levantar uma discussão sobre a precarização do trabalho, a cena em que a situação é exposta passa de forma tão rápida quanto a leitura das duas primeiras linhas deste parágrafo. Essa, infelizmente, é a tônica de todo o filme. Não existe sequer a tentativa de aprofundar os debates sobre sexualidade, o comportamento social em torno da pornografia ou sobre quem lucra com esse mercado — justamente as temáticas centrais da produção. Tudo é jogado em cena sem o menor compromisso. A cada nova sequência surgem diversos questionamentos, mas, ao fim, tudo é respondido com a mesma máxima simplista: “Nós não estamos prejudicando ninguém”.

Nem mesmo o romance entre Rubem e Grace (Luisa Arraes) é capaz de transmitir sentimentos. O flerte entre eles ocorre de forma abrupta e precoce. O filme não dá tempo para que mature a relação entre dois estranhos que, por conta da crise financeira mútua, tornam-se sócios na empreitada de reabrir o Motel Pérola. Chega a ser infantil a maneira como Furtado insere certos olhares entre eles, além de diálogos que oscilam entre a resistência mecânica de Grace e o tom meloso de Rubem.

Embora o protagonismo fique por conta de Daniel de Oliveira e Luisa Arraes, o brilho da produção — se é que se pode utilizar esse termo para um filme tão opaco e careta — pertence à atriz Samantha Jones, que interpreta Nalva. Seu tom cômico destoa positivamente do resto do elenco e entrega o que o longa tem de melhor. É essa personagem que consegue, inclusive, potencializar as cenas em que contracena com Luisa Arraes, sobretudo no momento em que ambas estão em um dos quartos do motel com Arlindo (Felipe Velozo), este vestindo apenas uma cueca vermelha.

Muito Prazer é um filme sem clímax — e existiria defeito maior em uma obra com esse título? Personagens são inseridos e a trama avança sem que haja qualquer obstáculo enfrentado de forma razoável. Qualquer barreira que ameaça aparecer é superada da maneira mais simplificada possível. Quando o motel é assaltado e todo o dinheiro é levado, Rubem misteriosamente consegue fundos para comprar diversas câmeras de segurança. Ao começar a gravar os hóspedes escondido para produzir conteúdos e vendê-los na internet, ele precisa de um profissional para editar os vídeos e desfocar os rostos. Sem dinheiro para o serviço, a solução é simplesmente transformar a vendedora de câmeras, Nalva, em sócia do negócio. E quando o dilema moral e legal sobre o crime se estabelece, o mantra “Nós não estamos prejudicando ninguém” ressurge para colocar um ponto final na questão.

Entendo que esta seja a ironia que Furtado pretendia aplicar. Mas essa ironia é usada para chegar a qual lugar? Não parece haver clareza nesse destino; soa mais como a ironia pela ironia. Esse sentimento de vazio se estende por todo o filme, reforçado pela forma superficial com que temas como redes sociais, algoritmos e inteligência artificial são jogados no roteiro. É a mera citação pela citação. Não há reflexão e sequer responsabilidade no tratamento desses assuntos, principalmente quando ligados à sexualidade e à pornografia.

Muito Prazer é um filme pobre — muito aquém da filmografia do diretor — e totalmente impotente. Nem as cenas de sexo têm sexo. A obra parece ter se vendido ao puritanismo a tal ponto que até o orgasmo é filmado da forma mais artificial possível, simulando um roteiro gerado por inteligências artificiais como o ChatGPT. O diretor parece fazer um esforço imenso para debater tabus relevantes que, a esta altura, já deveriam ser superados ou abordados de forma mais naturalizada. No entanto, prefere manter toda a discussão sob um véu de falso pudor.


Filme: Muito Prazer
Elenco: Daniel de Oliveira, Luisa Arraes, Samantha Jones, Felipe Velozo, Drica Moraes
Direção: Jorge Furtado
Roteiro: Jorge Furtado
País: Brasil
Ano: 2026
Gênero: Comédia
Sinopse: Rubem, um motorista de aplicativo sem perspectivas, recebe uma herança inesperada: o Motel Pérola, que logo descobre ser um prédio em ruínas. Lá ele conhece Grace, ex-funcionária que ficou morando numa das suítes quando o motel fechou. Sem conseguir vender o imóvel e atolados em dívidas, Grace e Rubem unem-se para reativar o motel.
Classificação: 14 anos
Distribuidor: Elo Studios
Streaming: Indisponível
Nota: 3,0

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