CRÍTICA – O CONVITE

CRÍTICA – O CONVITE

Sabe aquele tipo de filme que você decide assistir como um mero entretenimento despretensioso, e surpreendentemente acaba se deparando com algo que vai mais além? O Convite, novo filme de Olivia Wilde, certamente se encaixou nessa situação para muita gente. Após o divisivo terror psicológico Não se Preocupe, Querida, a atriz e diretora voltou com todo o vapor (dessa vez, tanto na atuação, quanto na direção), com um delicioso filme caótico que veio para revigorar o gênero da comédia atual, ao nos convidar a fazer um brinde ao cinema da vergonha alheia e do caos.

O Convite, entretanto, não se sustenta apenas com esses dois fatores, por mais que eles sejam a cereja e o recheio desse bolo. Há um vasto passeio por vários gêneros e camadas emocionais. O texto se mostra inteligentíssimo e perspicaz desde os primeiros minutos, no pouco tempo de tela em que há uma exploração do mundo externo e, sobretudo, a partir do momento em que Joe (personagem de Seth Rogen) entra em seu apartamento, que é quando nos damos conta de que veremos um filme de um ambiente só. Somos ‘sufocados’ junto a eles naquele espaço, numa espiral de emoções.

Ao nos vermos ‘presos’ ali, testemunhando as intermináveis DRs do casal anfitrião, que vão se atropelando e se empilhando, juntamente ao fato de que eles irão receber em seu lar um casal de vizinhos misteriosos em meio a esse transbordamento de emoções negativas, nos tornamos mais que meros espectadores; passamos a ser voyeurs daquela situação, uma vez que tal sequência de eventos tão turbulentos acaba nos suscitando uma amálgama de sentimentos tão conflitantes que acabam confluindo para o prazer/empolgação de estarmos vendo algo tão bem escrito, dirigido, atuado.

Ao longo daquela ideia de “resenha”, de noite de comidinhas e bebidas, o álcool vai subindo à cabeça e verdades começam a ser cuspidas. A lavação de roupa suja vira um espetáculo da melhor qualidade. As constantes tentativas de contenção – seja de palavras ou de sentimentos –, mais tarde, são inteiramente e comicamente abandonadas. O balde é chutado por todas aquelas quatro pessoas naquele apartamento quase claustrofóbico. E não é nem sobre questão de espaço; é sobre como as situações embaraçosas vão escalonando a ponto de os personagens quererem sair correndo dali (e também quem os assiste).

A cereja do bolo (ou da torta de climão) é justamente o contraste das personalidades do casal. Um é 8, o outro é 80; um é cheio de tensão, o outro, cheio de tesão. Joe e Angela são um casal instável, fadado ao fracasso, já Piña e Hawk, aparentemente estão no auge de seu relacionamento. Seja pelos motivos do casal anfitrião ou do casal convidado, é fato que a ideia daquela reunião desde o início evidencia que seria como tentar misturar água com óleo. Quando a natureza de cada um deles, individualmente e como par, se revela gradualmente, são tantos os ‘chás revelação’ que fica impossível não refletir e querer debater sobre cada camada que esse filme aborda com todo aquele caos.

Nesse sentido, há inúmeros dispositivos inseridos na narrativa que oferecem não somente um estudo de personagens, mas um estudo sobre a natureza humana. A sexualidade vem ser um dos principais tópicos – ora sendo tratado como um tabu, ora virando um livro aberto – e inclusive se revela como cerne do roteiro; a nível de, surpreendentemente, subverter inclusive o subtexto por trás do título do filme, tornando-o ambíguo (ou até mesmo revelando-o como um plot twist). O que inicialmente parecia uma mera comédia sem muitas ambições, acaba nos entregando praticamente uma sessão gratuita de terapia (a personagem maravilhosa da Penélope Cruz que o diga).

Mesmo sendo um filme cuja proposta se concentre quase que unicamente nos diálogos, ele jamais se permite cair no marasmo. O ritmo é perfeito, a montagem fluida, não somente por mérito do texto, que é um primor, mas por toda a competência geral da direção de Wilde, e sobretudo por conta do elenco selecionado a dedo. Está todo mundo tão bem e convincente em seus respectivos papéis, que a naturalidade das ações e comportamentos nos soam palpáveis, por tal nível de química cênica entre os atores.

Todas as decisões criativas são maduras, decisões que elevam a qualidade do longa. A direção é sempre consciente na forma de articular os momentos de tensão emocional e de tensão sexual, enquanto embala um humor ácido que nos faz rir de nervoso. O uso da ambientação única é excepcional, já que esse senso de encurralamento está sempre presente, entre planos fechados e closes que são perfeitamente utilizados a fim de sustentar a ansiedade da cena presente e da posterior.

O Convite é um passeio delicioso no íntimo da vida alheia, e consequentemente, um convite para que nos permitamos perscrutar nossas próprias vontades, limites emocionais e hipocrisias. Um filme sagaz, autêntico, sobre como certas vontades reprimidas e o comodismo podem se tornar uma bomba-relógio num relacionamento. Diálogos afiadíssimos, atuações extraordinárias, direção consciente… se esse filme fosse uma comida, certamente seria um delicioso flan.


Filme: The Invite (O Convite)
Elenco: Seth Rogen, Olivia Wilde, Penélope Cruz, Edward Norton
Direção: Olivia Wilde
Roteiro: Rashida Jones, Will McCormack, Cesc Gay
Produção: Estados Unidos
Ano: 2026
Gênero: Comédia, Drama
Sinopse: O casamento de Joe e Angela está à beira do colapso. Quando convidam seus enigmáticos vizinhos do andar de cima para um jantar, a noite toma rumos inesperados, colocando o relacionamento do casal à prova.
Classificação: 16 anos
Distribuidor: O2 Play
Streaming: Indisponível
Nota: 9,0

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