Howard Hawks, cineasta americano, certa vez disse: “para um filme ser bom, ele precisa ter 3 cenas boas e nenhuma ruim”. Ainda que experiente, Ridley Scott, aos seus 88 anos, parece ter seguido à risca essa teoria, já que seu novo filme, Ponto Sem Retorno, é um ótimo exemplar da frase de Hawks.
Ainda que essa alusão seja apenas uma referência lúdica, fato é que Ridley Scott está longe de seus melhores dias como visionário. Mesmo tendo no currículo obras intocáveis, Ridley é uma lenda do cinema que parece nunca ter se reinventado de fato; apenas viveu de devaneios que pincelam fragmentos da qualidade de suas obras-primas, Alien: O Oitavo Passageiro (1979) e Blade Runner (1982). Se outrora era conhecido por criações de mundo marcantes e ambientações intensas, o impacto de assistir a um novo filme de Ridley Scott já não é o mesmo. Existe ainda a assinatura, mas já não existe o mesmo deslumbramento.
Inconsistente, o diretor britânico vive uma fase pouco criativa, na qual vem fazendo sequências de alguns de seus filmes antigos, como Alien: Covenant (2017) e Gladiador II (2024), e cinebiografias enlatadas como Casa Gucci (2021) e o filho de inteligência artificial Napoleão (2023) — projetos que, comumente, puderam ao menos contar com elencos estrelados. Ponto Sem Retorno segue essa lógica ao reunir alguns dos nomes mais em alta do momento, como Jacob Elordi e Margaret Qualley, além do sólido elenco de apoio formado por Josh Brolin e Guy Pearce.
Fato é que Ponto Sem Retorno consegue, logo de início, imergir o espectador em sua atmosfera pós apocalíptica e mantê-la de forma consistente. Na bela cena de abertura, conhecemos Hig (Jacob Elordi), um ex-mecânico que sobrevive pilotando seu pequeno avião monomotor ao lado de seu cão, um pastor alemão. Ao som dos suaves acordes do compositor Harry Gregson-Williams, uma melancolia auto nostálgica é instalada e define o clima do filme, que mistura um ar estranhamente relaxante ao peso de dolorosas memórias de um mundo perdido após uma transformação irreversível e devastadora experimentada pelo planeta.
Baseado no romance de Peter Heller, o roteiro adaptado por Mark L. Smith se concentra mais na ideia de perda e de memória do que em revelar detalhadamente o que aconteceu para levar o mundo ao apocalipse. Não existe interesse do filme em sequer sugerir quais circunstâncias levaram à parcial extinção da população humana e início da devastação. A decisão é inicialmente interessante, pois abre espaço para desenvolvimento emocional sem a necessidade de dividir a atenção com os aspectos burocráticos de um filme catástrofe. Todavia, o eixo dramático e romântico não é interessante nem fluido o bastante para compensar a incógnita que persiste até o fim do longa.
Justamente por isso, em diversos momentos o longa parece sem rumo, numa experiência quase gameficada, na pegada de um jogo de mundo aberto, em que missões esporádicas surgem pelo caminho, mas existe um anseio constante por uma narrativa central que conduza a experiência para uma rota mais direta – e esta não está presente aqui. Pelo contrário, a primeira metade é monótona, e a contemplação que inicialmente funciona como força atmosférica leva a certa estagnação. O diretor, inclusive, repete acertos prévios, banalizando-os e reiterando falta de direcionamento e montagem pouco furtiva – desta última, para além de alguns cortes secos e da edição convencional da dupla Claire Simpson e Sam Restivo.
O visual também fica bastante a desejar, infelizmente. Ainda que não chegue a quebrar a imersão, é extremamente perceptível a quantidade limitada de ambientes reais e o excesso de CGI para criação do cenário. Certamente, no papel, a ideia de um vasto campo aberto espalhado por carcaças de aviões seria, além de belíssimo, instigante e original. Contudo, as aeronaves computadorizadas e o horizonte processado não possibilitam a verossimilhança, afastando a identificação com imagens reais e sensorialidade – quando o granulado da película é substituído por uma imagem excessivamente limpa e que até lembra as geradas por IA. O fotógrafo Erik Messerchmidt, recente vencedor do Oscar, inclusive, consegue elaborar uma cinematografia consistente e com uma iluminação noturna interessante, mas não sai ilesa quando os efeitos visuais predominam e nada pode ser feito quanto a preservação de uma imagem mais natural.
Ponto Sem Retorno também possui uma séria questão com seus personagens, ainda que carismáticos, mas que são unidimensionais e fazem, essencialmente, a mesma representação ao longo de todo filme. E todos estão ótimos, vale ressaltar. Jacob Elordi faz um protagonista sério, confiável, envolvente, mas com o genérico background da esposa falecida. O problema mesmo surge com Cima, a personagem de Margaret Qualley. Desnecessariamente sexualizada ao longo do filme, é irônico pensar que essa mesma atriz também interpretou uma personagem sexualizada em Era Uma Vez em Hollywood (2019), de Quentin Tarantino, quando ela entra em clima de tensão sexual durante uma carona dada por Brad Pitt. Naquele contexto, entretanto, percebe-se uma energia deliberadamente cômico-estimulante que serve também para representar um contexto histórico (movimento hippie, contracultura nos anos 60, família Mason). Já no filme de Ridley Scott, sequer parece consciente a passividade e desleixo com o figurino de Cima – uma personagem abordada de forma subaproveitada e machista. Vale pontuar também o quão genérica é a tentativa de romance: com direito a conversa sobre constelações e discussões sobre os falecidos ex’s de cada um.
Guy Pearce (protagonista de Amnésia, de Christopher Nolan) se diverte no papel de pai protetor e sogro rígido, enquanto Josh Brolin se diverte mais ainda como um fanático exterminador. Inclusive, a primeira das 3 ótimas cenas é totalmente dele; com um fantástico uso de visão noturna e ação frenética – salvando o filme de insípidos minutos que a antecederam. Mesmo sem uma grande direção ou deslumbre estético diferenciado, uma segunda memorável cena envolvendo uma tentativa de decolagem de avião surge em seguida, ajudando a evocar o melhor do filme: quando o controle entra em caos e o imprevisível toma conta. E por falar em imprevisível, uma terceira ótima e louca cena se instaura com a chegada de Darlene, personagem de Allison Janney, enriquecendo o filme com doses energéticas de nonsense.
No fim das contas, Howard Hawks estava certo. Em meio à um conjunto geral insosso, um elenco dedicado e três bons momentos (quem sabe, os três momentos em que Ridley Scott não tenha se autossabotado e de fato sido Ridley Scott) foram o bastante para uma obra que, mesmo que não se sobressaia, é eficaz. . O problema é que, entre esses raros picos, existe um filme que parece perdido dentro de si mesmo: visualmente artificial, dramaticamente pouco desenvolvido e incapaz de fazer seus personagens ou sua história alcançarem a mesma potência de suas melhores sequências. Ponto Sem Retorno não é um desastre. É, talvez, algo mais frustrante. Também é extremamente questionável o fato de os antagonistas serem essencialmente povos originários e tatuados – questão que fica mais inquieta pela mencionada escolha deliberada em não adentrar em nenhuma explicação. Mas para um fim tão raso, quem sabe nem mereça que se entre nesse mérito.
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Filme: The Dog Stars (Ponto Sem Retorno) Elenco: Jacob Elordi, Margaret Qualley, Josh Brolin, Guy Pearce, Allison Janney Direção: Ridley Scott Roteiro: Mark L. Smith País: Estados Unidos Ano: 2026 Gênero: Suspense, Drama, Aventura Sinopse: Ambientado num mundo pós apocalíptico, o filme acompanha Hig, um ex-mecânico que sobrevive por terras devastadas voando seu pequeno avião monomotor com seu cão, enquanto enfrenta ameaças e precisa fazer alianças para sobreviver. Classificação: 16 anos Distribuidor: Walt Disney Studios Streaming: Indisponível Nota: 6,5 |

