CRÍTICA – O SORVETEIRO

CRÍTICA – O SORVETEIRO

O famoso estilo de filmes de horror nos quais uma figura adulta aterroriza crianças não é recente. Dessa forma, a primeira vista, O Sorveteiro (2026), novo terror de Eli Roth, parece ser apenas mais um desses filmes. Entretanto, essa ideia superficial do que a obra vai tratar se torna a ponta de um iceberg muito mais potente. Com uma mensagem intrínseca na sua trama, visuais positivamente grotescos e um antagonista de dar calafrios, Roth é capaz de continuar sua jornada nesse universo do horror que não somente assusta, mas também diverte.

Em primeiro lugar, não se pode deixar de reconhecer a atuação de Ari Millen como a figura central do filme: o sorveteiro. Mesmo com poucas falas, sua linguagem corporal e o modo em que preenche as cenas o tornam essa figura que mesmo à luz do dia traz um ar sombrio. Um olhar penetrante, focado e sem hesitação faz com que o espectador acredite desde o início que não há salvação para as crianças. Além dele, o trio principal composto por Jared (Charlie Zeltzer), Mia (Kiori Mirza Waldman) e Tommy (Shiloh O’Reilly) também corroboram com o fator infantil da trama. Com reações, pensamentos e julgamentos sobre a situação de modo que apenas crianças conseguiriam ter de forma compreensível, a obra consegue não apelar pelo absurdo para certas soluções de roteiro.

E não só o elenco infantil ajuda com a criação da atmosfera, mas também a direção de arte e caracterização. Os detalhes dos sorvetes nos rostos dos personagens acometidos, o uso de objetos e cenários de cores vibrantes mesmo nas cenas mais violentas e até a maneira criativa das mortes que conseguem unir o gore característico de Eli Roth com o contexto infantojuvenil que os protagonistas se encontram no início de tudo. Ao mesmo tempo que brinca com o fantasioso da trama, traz aspectos que fazem com que qualquer pessoa assistindo consiga ter a ideia de que sim, são crianças cometendo atrocidades.

Não podemos deixar de mencionar também a trilha sonora e a fotografia, que com melodias dignas de propagandas para crianças e cores vibrantes em uma montagem dinâmica, conseguem criar um ambiente sonoro aterrorizante juntamente de uma visualidade perturbadora, nos quais a música característica do carro de sorvete traz uma sensação inquietante, e as cores vibrantes fortalecem o teor surrealista da trama. A intensidade de ambas, música e imagem, possuem uma mensagem clara desde o início de que algo não está certo, e que a qualquer momento Jared entrará numa fria.

Porém, mesmo com ideias, reflexões e detalhes muito bem elaborados, o filme também há pontos que deixam a desejar. Apesar de um teor cômico no contexto gore da obra, seu diálogo expositivo e supostamente engraçado não funciona tão bem quanto as próprias cenas sangrentas. Em uma tentativa de trazer mais comédia para uma obra de terror que sabe de seu potencial e de seu público, certas piadas aparentam ser sem nexo e mal encaixadas durante o longa. Felizmente, não chega a ser algo que afete a narrativa como um todo, essa que sabe se manter e em momento algum fica batida.

Por último, mas nem por isso menos relevante, é impossível não perceber a mensagem que o filme busca transmitir. Na sociedade atual, as crianças estão se tornando cada vez mais reféns da tecnologia de forma nociva. Com a negligência dos adultos de modo geral, eles só percebem o comportamento genocida dos mais novos quando é tarde demais. A falta de atenção, junto de uma banalização das crianças como indivíduos, é no fundo a grande causa de toda a narrativa. Essa que mesmo com esse plot completamente absurdo de controle mental através do sorvete, carrega uma reflexão realista e condizente com a sociedade atual. Até quando os mais jovens serão tratados como extensões de seus responsáveis e não como pessoas individuais? Eli Roth traz nesse filme uma perspectiva macabra: de que eles só receberão atenção quando se voltarem contra figuras de autoridade de seu convívio, afinal, não parece haver outra forma de serem ouvidos se não for devido a algo que afeta diretamente essas pessoas.

Portanto, O Sorveteiro é mais um acerto de Eli Roth. O que parece ser uma continuidade desse universo criado por ele, no qual mistura bem o irreal do horror com um humor ácido através de sangue jorrando e cabeças rolando, traz um significado contundente para uma crítica acerca da sociedade atual. Conhecendo bem seu público, o leva a uma jornada a qual se sai com uma reflexão em comum: mesmo sem o delicioso sabor de sorvete, uma mentalidade congelada de uma geração pode trazer o fim dela própria.


Filme: Ice Cream Man (O Sorveteiro)
Elenco: Charlie Zeltzer, Eli Roth, Ryan Allen, Ari Millen, Sarah Abbott, Benjamin Byron Davis, Karen Cliche, Carina Battrick, Dylan Hawco, Kiori Mirza Waldman, Luke Dietz, Charlie Storey, Shiloh O’Reilly
Direção: Eli Roth
Roteiro: Noah Belson, Eli Roth
País: Estados Unidos
Ano: 2026
Gênero: Terror
Sinopse: Um sorveteiro misterioso distribui um doce amaldiçoado que transforma crianças em assassinas, sedentas por sangue e sem piedade com os adultos. Enquanto o massacre toma conta das ruas, três jovens que escaparam por pouco da maldição correm contra o tempo para descobrir a origem desse homem e impedir que a matança se espalhe, antes que não sobre ninguém vivo.
Classificação: 18 anos
Distribuidor: Diamond Films
Streaming: Indisponível
Nota: 8,0

 

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