Michael Sarnoski é um dos diretores da contemporaneidade cuja marca artística já está consolidada, mesmo tendo dirigido, até então, somente três longas. Tal marca consistiria em duas características: o foco em jornadas de descobrimento e amadurecimento de seus personagens (mesmo sem se tratar de comings of age), e uma melancolia inata, que geralmente se apresenta desde os primeiros minutos de seus filmes. A Morte de Robin Hood, seu mais recente projeto, mergulha tanto nesse segundo fator, que quase não sobra nada além de tédio e alheamento.
A ideia de nos fazer acompanhar um Robin Hood escarmentado, ressentido, já na fase final de sua vida e carregando o peso de suas ações, até poderia ter funcionado – isso se houvesse algo para além do óbvio, mas o filme não consegue se reinventar além de sua premissa. Premissa essa, aliás, que talvez condizeria mais com uma adaptação da obra A Morte de Ivan Ilitch do que qualquer coisa relacionada a Robin Hood. Esse teor tão frívolo e apático de nada possui compatibilidade ou até coerência com o mito acerca desse personagem tão emblemático; além de lento-quase-parando.
A primeira metade até é promissora. Há certos diálogos e acontecimentos que conseguem fisgar a atenção justamente pela promessa da culminância em algo maior, mas o texto não se permite catapultar. Os diálogos extensos e rasos confirmam essa falta de profundidade. A fotografia fria condiz muito com a proposta empedernida da narrativa, e também toda a ambientação e estética medieval, que é muito bem trabalhada; quanto ao texto, soa tão engessado em seu cânone que não consegue triunfar, nem no âmbito emocional, tampouco no dramático. O filme é sobre ele, mas o foco se volta tanto ao Robin Hood que todos os demais personagens da trama ficam apagados, claramente servindo apenas de muleta narrativa para que a jornada do anti-herói siga em frente.
A pincelada de ação e até de aventura que se apresenta inicialmente é logo abandonado para abraçar uma outra construção de atmosfera. O drama embala a narrativa a ponto de sufocá-la. Não que não condiga com a proposta, muito pelo contrário, mas enquanto a direção de Sarnoski se concentra tanto em Robin Hood, com planos e closes que contemplam sua face combalida, o roteiro se revela cada vez mais perdido no que quer trazer. Esse apelo constante por emoção não soa orgânico, tornando o filme uma reimaginação que se recusa a imaginar.
A verdade é que chega um ponto da trama (que não demora a dar as caras) onde não há muito mais o que ser mostrado, explorado, abstraído. Quando surge a personagem interpretada pela Jodie Comer, a Irmã Brigid, uma placidez exacerbada envolve a história de uma forma que converte praticamente todas as próximas cenas num puro marasmo vazio. E isso nem é culpa da inserção da personagem, mas justamente do mau uso dela na trama; uma vez que, repito, é notório que só foi inserida para tentar agregar ainda mais camadas psicológicas a Robin Hood – e nem isso funciona.
Toda a brutalidade, violência e impulsos abordados inicialmente são preteridos para que haja um melodrama tão insistente que se incrusta. E nem se trata de querer que o filme seja frenético o tempo todo mesmo sem propósito. Essa escolha criativa da contemplação da jornada poderia ter dado certo de algum modo, porém, assim como Hood, a narrativa se extenua cada vez mais, gerando um aborrecimento através da estagnação. É como se o filme não tivesse mais o que dizer, e ainda assim estivesse tentando tirar leite de pedra com algo “a mais” que, vale dizer, nunca se revela.
Há uma tentativa de trazer reflexões acerca de justiça, vingança, arrependimento, peso das escolhas, entre tantos outros temas que poderiam alavancar a trama, mas são mal explorados. Quando a história ameaça deixar de andar em círculos, o fastio e vazio atmosférico voltam a dominar tudo. Parece um cinema de fluxo da Shopee. Hugh Jackman está bem no papel, com uma interpretação que não é fora do comum, mas que entende e transpõe bem as angústias de seu personagem, mas infelizmente somente isso não basta para fazer o espectador se engajar emocionalmente.
A impressão que fica é que talvez essas reciclagens e desconstruções de personagens icônicos já deram o que tinha que dar. Nem mesmo se tratando de um longa produzido e distribuído pela querida produtora A24 – cuja visão e curadoria geralmente mais acerta do que erra, ao trabalhar e investir em inúmeros filmes mais fora da caixa que mudaram os rumos da indústria cinematográfica – fez com que o projeto tivesse um diferencial ou um brilho que justificasse sua existência. A Morte de Robin Hood é apenas mais uma adaptação morna que, no fim das contas, ninguém pediu.
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Filme: The Death of Robin Hood (A Morte de Robin Hood) Elenco: Hugh Jackman, Jodie Comer, Bill Skarsgård, Murray Bartlett, Noah Jupe Direção: Michael Sarnoski Roteiro: Michael Sarnoski Produção: Estados Unidos Ano: 2026 Gênero: Ação, Aventura, Drama e Suspense Sinopse: Após uma vida marcada por crimes e assassinatos, Robin Hood parte para uma jornada de sobrevivência e redenção. Classificação: 18 anos Distribuidor: A24 Streaming: Indisponível Nota: 4,0 |

