Antártida conta com um elenco consagrado, mas ainda assim se mostra um filme medíocre, aquém do que poderia oferecer. Seria uma ideia boa e inusitada para um filme brasileiro o fato de se passar na Antártida e de ter uma estrutura whodunit (estilo “Quem matou Odete Roitman?”). Mas estragou tudo ao misturar assuntos demais e deixar o espectador perdido, não no sentido de confundi-lo para haver dúvida sobre a identidade do perpetrador, mas no sentido de que, bom, nada parece fazer sentido.
Na história, em uma instalação militar de pesquisa baseada na Antártida, uma das integrantes da equipe sofre violência sexual enquanto desacordada e não consegue identificar seu agressor. Começaria aí um jogo de detetive angustiante, pois o algoz só poderia ser uma das pessoas ali confinadas.
Podendo beber na fonte de Hercule Poirot, dentre outros grandes clássicos do whodunit, o filme vai na contramão e se perde completamente. Na intenção de elaborar um mistério, mistura violência sexual, violência doméstica, bullying, luta de gênero, tumor terminal, alcoolismo, privilégio político, El Niño, explosões e até questões de sexualidade transformadas em pistas falsas, e nada disso contribui para conduzir ou despistar o espectador até a revelação final de quem é o culpado.
Temos Andréa Beltrão interpretando uma personagem que não sabe se é forte e durona ou frágil e insegura, Antônio Calloni totalmente dispensável, Leandra Leal apagada, porém boa, como sempre, e Lázaro Ramos, o melhor no quesito atuação, sem surpresas por aqui. Os demais atuaram conforme foi possível de acordo com seus papéis limitados e pouco desenvolvidos.
Marina Ruy Barbosa merece atenção especial por ser a vítima da história. Sua interpretação não traduz a experiência emocional que a situação da sua personagem exigiria, a de alguém que sofreu uma agressão sexual e está confinada no mesmo ambiente em que a pessoa que a violentou está, sem ao menos saber sua identidade. Uma situação que precisava ser explorada de forma mais minuciosa e complexa, tanto para uma trama mais fidedigna quanto para captar a atenção e a emoção do espectador em um mistério mais estruturado e interessante.
Nada disso acontece, e temos cenas fraquíssimas, como quando a personagem entra em surto e corta o próprio cabelo. Aqui, tem-se que fazer uma pausa para a peruca ridícula de cabelo de boneca velha que colocaram na atriz e que seguirá em sua cabeça até o final do filme. Um pouco menos de orçamento para a neve e um pouco mais para a peruca resolveriam essa grandiosa questão.
O final vira uma enorme bagunça de mulheres unidas contra o mundo, que poderia até ser o tema principal, mas o filme não se desenvolveu o suficiente para isso, com tantos outros aspectos misturados, que não agregaram nada à narrativa. A questão da luta de gênero ficou rasa, sem sentido e até risível, um despropósito para a pauta. E ver Marina Ruy Barbosa dando um grito de dor e sofrimento aos ares foi o prego no caixão.
Antártida não é apenas um filme ruim. É um filme que desperdiça a oportunidade de ser diferente do que se vê no cenário cinematográfico brasileiro atual e que poderia ser interessante, cativante e, por que não, tratar de temáticas sérias e importantes, mas prova que uma boa ideia e um bom elenco não salvam um filme sem um roteiro bem estruturado.
E ainda termina como final de capítulo da novela Avenida Brasil, mais preguiçoso que isso, não fica.
![]() |
Filme: Antártida Elenco: Andréa Beltrão, Leandra Leal, Marina Ruy Barbosa, Lázaro Ramos, Antonio Calloni, Mariana Sena, Renan Monteiro, Henrique Barreira, Tatiana Tibúrcio, Gero Camilo, João Vitor Silva, Adélio Lima e Marcos de Andrade. Direção: Bruno Safadi Roteiro: Cláudia Jouvin País: Brasil Ano: 2026 Gênero: Drama, Suspense Sinopse: Durante uma missão científica brasileira na Antártida, um grupo de pesquisadores e militares se vê diante de acontecimentos que colocam à prova seus limites físicos e psicológicos, em meio ao isolamento extremo do continente gelado. Classificação: 16 anos Distribuição: Paris Filmes Streaming: Indisponível Nota: 2,0 O filme estreia nos cinemas brasileiros em 17 de setembro de 2026 |

