“Digger” é um filme que pode ser mal interpretado, mas sua mensagem não poderia ser mais clara. Entendo que é caricato e bem diferente das expectativas criadas. Entretanto, para mim, essa surpresa foi uma grande virtude e o formato me conquistou. Falando da parte cinematográfica, considero a fotografia, a cenografia, a trilha sonora e a construção dos personagens irretocáveis. O elemento surpresa não tira o mérito do filme e o torna ainda mais interessante.
Temos Tom Cruise, que, no começo, me deixou em dúvida quanto à sua caracterização (por que não usar um ator já parecido com a intenção buscada?). Contudo, sua interpretação e caracterização, apesar de ótimas, são ofuscadas pelo trabalho maravilhoso e, arrisco dizer, perfeito dos figurantes, que nem sei se devem receber essa alcunha. Não há um personagem principal, pois todos se tornam protagonistas assim que aparecem na tela.
Atualmente, a indústria cinematográfica vem tratando de temas cada vez mais próximos do que poderia estar acontecendo hoje ou em um futuro não tão distante. É aqui que “Digger” tem o seu trunfo: a verdade. Digger, o personagem que dá título ao filme, é um grande, influente e excêntrico ricaço (acho que não tem outro tipo), que fez fortuna com a extração de petróleo, principal combustível para quase tudo no mundo, cuja plataforma petrolífera explode (previsivelmente) e desloca uma geleira que acabará com parte da Europa (algo bem tranquilinho).
Começa aí a verdade: quem somos como sociedade, quem escreve a história, quem manda no mundo, a forma como o fazem e como nós não somos meros e ingênuos submetidos ao que definem para as nossas vidas, somos cúmplices. Antes de Digger, seus antecessores cavaram até encontrar o petróleo que lhes deu o poder. Podemos atribuir esse fato à sorte, ao esforço e à resiliência. Mas, a partir daí, cada um de nós continua cavando uma pá de terra atrás da outra, nos revezando, mantendo o poder nas mãos de quem o detém. O Digger de hoje não chegou lá sozinho. Ele se mantém lá com o nosso consentimento.
Apontar o dedo para os líderes que escolhemos, não só políticos, mas também os donos de tudo o que significa poder nesse mundo (que, bem sabemos, estão acima dos líderes das nações) parece ser nosso único, simples e inocente papel. Mas esquecemos que o que estes determinam serve às nossas reais vontades e à vida que escolhemos viver cegamente, pois não suportaríamos acreditar que as mazelas da nossa sociedade estão sob nosso controle. A verdade é que precisamos que alguém suje as mãos de sangue para dormirmos com a nossa consciência tranquila.
E no ápice do filme, no púlpito de um conselho para determinar o resultado de suas ações, rodeado de pessoas representantes da sociedade, padronizadas, como se desbotadas de suas individualidades, manifestando-se em coro, sem nenhuma originalidade ou dissidência, Digger escancara as verdades de como o mundo funciona, que nunca foram na verdade escondidas, mas, incrivelmente, chocam e revoltam, apesar de ter sido uma escolha de todos ignorá-las. Neste ponto, o exagero dos personagens principais e a descaracterização do que representa a sociedade mostram, sem palavras, onde a vida acontece e onde é simplesmente vivida, sem perguntas, porque não queremos saber as respostas.
Estamos prontos para viver sem os “vilões” da história? Renunciaríamos à nossa vida como ela é, aos avanços alcançados, às nossas regalias, às tecnologias, à inteligência artificial, às encomendas que chegam à sua porta, às “brusinhas”, que todos sabem serem fabricadas de forma desumana (mas ninguém liga), para proteger aqueles que se sacrificaram para tornar isso tudo possível? Digger, em suas palavras, responde: “conformidade é liberdade”.
E vivemos conformados. E satisfeitos. Sabemos que não renunciaremos às nossas “conquistas”. Você sabe que não. É melhor fechar os olhos e deixar que façam o que tem de ser feito (desde que possamos culpar alguém), indignando-nos quando os horrores vêm à tona. Somos todos responsáveis, ganhando dinheiro com isso ou não. É clichê, mas não só somos parte do sistema que consideramos podre, somos o próprio sistema. O filme expõe isso da forma mais didática possível, fazendo rir e fingindo que tudo é apenas uma história megalomaníaca, um roteiro de peça de teatro, até a peça acabar e percebermos que a ficção é realidade.
O que acontece no mundo deriva de nós. Digger é a personificação do que nos representa: o poder sem limites, a manipulação, as ações inconsequentes. É isso que aceitamos diariamente nos noticiários, sem prestar muita atenção, enquanto preparamos nosso café da manhã, atrasados para o trabalho, e enquanto tomamos nosso expresso, cultivado por um grande latifundiário que apoia financeiramente um político qualquer, fechamos nosso carrinho de compras de coisas inúteis no site chinês, que chegarão uma a uma em caixas diferentes. E uma geleira se desloca em um lugar remoto. “O corpo é o mundo”. Mas o que isso tudo tem a ver com o fim do mundo? Vamos fingir que nada.
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Filme: Digger Elenco: Tom Cruise, Riz Ahmed, John Goodman, Sandra Hüller, Jesse Plemons, Sophie Wilde, Emma D’Arcy, Michael Stuhlbarg, Robert John Burke, Burn Gorman, Pip Torrens. Direção: Alejandro González Iñárritu. Roteiro: Alejandro González Iñárritu, Alexander Dinelaris, Nicolás Giacobone, Sabina Berman, Jez Butterworth. País: Reino Unido, México, Estados Unidos Ano: 2026 Gênero: Comédia, drama Sinopse: Digger Rockwell, um dos homens mais poderosos do mundo e magnata do petróleo, parte em uma missão frenética para provar que é o salvador da humanidade depois que um desastre causado por suas próprias ações ameaça destruir tudo. Classificação: 14 anos Distribuição: Warner Bros. Pictures. Streaming: Indisponível O filme estreia nos cinemas brasileiros em 01 de outubro de 2026 |

