Verity (2026) possui pelo menos três dimensões pouco alinhadas e que, por isso, alcançam níveis diferentes de êxito. O suspense, a primeira delas, embora soe muito pouco original, tem os seus bons momentos. A segunda é o erótico, que nunca chega a funcionar muito bem, imbuída de certa sensibilidade até mesmo infanto-juvenil. A terceira e (talvez) última dimensão é a literária, mas seu desenvolvimento é tão raso que isenta de estabelecer um comentário. Se há o que se falar em uma quarta dimensão — a da metalinguagem —, em que suspense, erótico e literatura são utilizados para refletir sobre eles mesmos, sobre seus respectivos históricos na sétima arte, é aí mesmo que essa estrutura desmorona por completo.
Uma das dinâmicas da narrativa consiste em tentar “brincar” com as crenças do espectador, colocando diversas perspectivas em xeque. Isto é, não sabemos quem está contando a verdade, quem está mentindo ou quem está delirando. Nesse sentido, remete-se muito a Bunny Lake Despareceu (1965), de Preminger, um dos primeiros grandes filmes — e talvez o melhor deles — a se debruçar sobre esse modelo por meio de uma abordagem psicológica densa. Também, o contexto envolvendo um suposto crime e um duplo jogo de obsessão carrega a herança de Hitchcock, especialmente Um Corpo que Cai (1958). Além disso, chama-se atenção ao fato de que Lowen, a protagonista, é uma escritora, e seu isolamento serve como ponto de fissura na fronteira entre a ficção e a realidade, assim como o de Jack Torrance em O Iluminado (1980), de Kubrick.
Diante disso, Verity possui um continente simbólico imenso, mas a impressão é que aquilo que funciona melhor é produto da reprodução automática de certos modelos narrativos já explorados e consolidados. Michael Showalter, diretor do filme, não tem uma carreira marcante como cineasta nem as habilidades cênicas dos autores anteriormente citados. Compará-los já seria injusto, mas a vitalidade de Verity é comprometida pela ausência de uma visão autoral mais definida sobre a obra, de um pulso que orienta o espectador ao longo da narrativa. O espectador não tem uma nova experiência, mas revive uma antiga, piorada, porém sob um verniz de suposta modernidade.
Na ausência desse pulso condutor, o texto assume o protagonismo e é exposto sob relativa neutralidade. Suas forças e fraquezas tornam-se decisivas para a narrativa — e para a experiência como um todo. Além disso, há uma clara limitação de ordem estético-sensorial que impede o espectador de considerar as hipóteses colocadas pelo filme. Por exemplo, a fotografia e a montagem não adotam estratégias para transmitir o estado de confusão e paranoia de Lowen (quase descartando antecipadamente essa possibilidade). Na maior parte do tempo, tudo é excessivamente objetivo e linear, sem distorções imagéticas, temporais, espaciais ou rítmicas. Isso é consequência direta da assepsia e do revestimento de modernidade, que limita um contorno mais expressivo e subjetivo, no qual o espectador poderia depositar suas convicções.
Um detalhe que é entregue pela narrativa com poucas nuances é o fato de que Jeremy (Josh Hartnett) esconde algo. Na cena do restaurante, seu diálogo com Lowen é fortemente marcado pelo chiaroscuro, uma iluminação dramática que divide o rosto em luz e sombra — destacando a existência de um segredo obscuro. Por outro lado, isso não anula o fato de que Josh tem de longe a melhor performance do elenco. Mesmo com pouca margem para provocar dúvidas no espectador, ele ainda consegue transmitir bem a ambiguidade do personagem. Apesar do lado sombrio e obsessivo, ele transparece um luto genuíno e uma paternidade afetuosa com Drew — seu drama remete a Teddy Daniels, de Ilha do Medo (2010), reproduzindo alguns dos mesmos elementos.
Diante disso, Verity é um thriller que está mais preocupado com as revelações e possíveis reviravoltas do que com a encenação das funções e percepções que cada personagem deve assumir dentro da narrativa. Nesse processo, há um desperdício de potenciais expressivos e simbólicos, inclusive referente à dose de erotismo no filme. A própria relação entre Jeremy e Lowen, marcada pelo desejo e pela obsessão, soa inorgânica, como se o diretor não tivesse uma ideia de como lidar com esse aspecto da obra, exceto para satisfazer aos anseios de um determinado grupo de espectadores.
Michael Showalter certamente buscou inspirações em Hitchcock para encenar essa dupla obsessão de Jeremy por Verity e Lowen. O homem se apaixona rapidamente por Lowen e tenta moldá-la de maneira ainda mais similar a Verity. Quando Jeremy veste Lowen com as roupas de Verity, percebemos que a protagonista foi selecionada, não por acaso, para substituí-la não só como escritora, mas também como esposa. Suas características físicas (pele branca, magra e cabelos escuros) conferem mais facilidade a essa manipulação por parte de Jeremy — assim como John faz com Judy e Madeleine, em Um Corpo que Cai, mas com a diferença de que ambas são a mesma mulher e de que John é a vítima.
Mas essa busca por referências em Hitchcock se limita a elementos isolados e não ajuda a criar uma abordagem que concilie o suspense e o erótico de maneira orgânica. Mesmo com a possibilidade de lidar de maneira mais explícita, as cenas são vazias e não contribuem para a narrativa. As cenas de sexo parecem somente pausas estilísticas e não aprofundam a tensão, criando sequências artificiais.
Por todas essas limitações de ordem estética, o espectador deixa de ser guiado por experiências completas. Ainda que a narrativa não sofra de problemas estruturais significativos, acompanhá-la é aceitar os seus rumos independente de sua construção. No final, ainda há um apelo verbalizado de Verity para que o espectador “não se apegue à verdade”, tentando instigar a dúvida sobre o que é real ou não. A fronteira entre a ficção e a realidade, que poderia ter sido melhor trabalhada, tenta ser ressignificada de uma maneira direta, quase que imposta por esse diálogo.
Um aspecto positivo é que, exceto para quem tenha lido o livro, o final consegue ser surpreendente (sem tentar “ser espertinho”), mesmo com todas as pistas entregues e perspectivas descartadas pela cinematografia. Porém, isso não compensou a neutralidade da experiência. A vivência sensorial deveria ocupar o lugar central de um modelo estético-narrativo que se nutre do suspense e do erótico. Ainda assim, é curioso ver um produto audiovisual que se distancie das fórmulas de novelas verticais e filmes publicitários, e busque referências não só em Hitchcock, mas também em Brian De Palma, Paul Verhoeven e Claire Denis — ainda que suas limitações sejam evidentes.
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Filme: Verity Elenco: Josh Hartnett, Dakota Johnson, Anne Hathaway Direção: Michael Showalter Roteiro: Nick Antosca País: Estados Unidos Ano: 2026 Gênero: Suspense, Erótico Sinopse: A escritora em dificuldades financeiras Lowen Ashleigh aceita o desafio de se tornar ghostwriter da renomada autora Verity Crawford, após esta sofrer um grave acidente que a deixa incapacitada. Classificação: 16 anos Distribuidor: Sony Pictures Streaming: indisponível Nota: 4,5 |

