Para falar sobre “Dentro da Baleia” (o nome em inglês, Whalefall, é muito mais poético), tem-se que ultrapassar o fato de que o protagonista foi, de fato, engolido por uma baleia. O filme tem potencial a partir do momento em que você deixa de racionalizar a situação. Então, a sugestão é ignorar o Google: Jay, nosso protagonista, foi engolido pelo majestoso animal e vai, sim, quer queira, quer não, sair de lá.
Jay tinha um pai durão, amante do mar, que insistia que seu filho seguisse seus passos. Como a relação entre os dois não era das melhores, Jay fez de tudo para se afastar, física e psicologicamente. Tudo piora quando o pai, com câncer terminal, tira sua própria vida se afogando no mar. Para provar ao fantasma do pai (ou seria ao fantasma de si mesmo?) que ele era capaz de fazer algo corajoso e encarar o mar e a vida que tanto evitou, segue sozinho em um mergulho, buscando encontrar as respostas para o caixão vazio do pai.
Aí, SPOILER, ele é engolido por uma baleia. Nesse momento, o filme poderia triunfar ou fracassar. O que poderia ser um exemplar tosco de alguém dentro de uma baleia tentando escapar com a força da vontade, um clipe de papel e um chiclete (ou falando baleiês) foi, acertadamente, focado na profundidade da reconstrução da relação entre pai e filho, no luto, na dor e na evolução pessoal. Claro que ele acha coisas dentro da baleia para ajudá-lo a escapar: um bico de lula, uma esponja de aço e uma água-viva, usada como lanterna e como companheira de aventuras. Tudo soa terrível, mas acredite, neste filme, faz sentido.
E assim, temos duas histórias paralelas: Jay, dentro da baleia e buscando fisicamente escapar; e Jay com suas memórias, conversando com o pai outrora incompreendido e deixando aflorar seus anseios, seus sentimentos e o que a relação entre ambos significou e significa para ele. Em vez de antagonizar-se com o animal da forma esperada, este serve à redenção de ambos, pai e filho, simbolicamente. Para Jay, a baleia é sua própria provação e a compreensão do pai em sua complexidade.
O filme é sensível, engraçado no ponto certo, tem ótimas atuações (John Ortiz merece destaque. Apesar de aparecer pouco, comove), ótima produção e cenas bonitas e intrigantes ao mesmo tempo; principalmente no começo do mergulho, quando sabemos que algo terrível vai acontecer, mas o oceano, apesar de turvo e misterioso, encanta justamente pela beleza de ser assim.
Outro ponto forte e bem resolvido foi a sensibilidade de a baleia não ser morta por mãos humanas. É óbvio que, para escapar, Jay teria que causar algum tipo de dano ao animal, mas sua morte acontece antes, derivada de causas naturais. Uma escolha sensata considerando a importância que o animal teve para a jornada dos personagens, não apenas como o meio pelo qual a trama é contada, mas como um personagem em si.
Essa sensibilidade se solidifica ao entrelaçar vida e morte como partes contínuas da existência da baleia, fazendo referência ao fenômeno que ocorre quando uma baleia morre, chamado whale fall: seu corpo afunda no oceano, tornando-se uma fonte de nutrientes e alimento para diversas espécies marinhas, sustentando outras formas de vida por décadas. E com essa perspectiva, o filme ganha força, pois mostra que não se trata de ser engolido por uma baleia. Trata-se dos efeitos de cada um de nós sobre os nossos “ecossistemas”. E assim, Jay vive e seu pai, ao morrer, transforma-se em sua whale fall.
![]() |
Filme: Whalefall (Dentro da Baleia) Elenco: Austin Abrams, Josh Brolin, Elisabeth Shue, Jane Levy, Emily Rudd e John Ortiz Direção: Brian Duffield Roteiro: Brian Duffield, Daniel Kraus País: Estados Unidos Ano: 2026 Gênero: Suspense, Drama Sinopse: Jay Gardiner, um jovem mergulhador, parte em busca dos restos mortais do pai no fundo do mar, mas acaba sendo engolido por uma baleia cachalote. Com apenas uma hora de oxigênio, precisa lutar para sobreviver enquanto enfrenta questões emocionais relacionadas ao luto e à sua relação com o pai. Classificação: 14 anos Distribuição: Walt Disney Studios Streaming: Indisponível Nota: 7,0 |

