O cinema ensinou a gente a amar. Ou melhor: ensinou a gente a acreditar que amor de verdade é aquele que vem com trilha sonora, choro na chuva, longos silêncios de telefone e declarações desesperadas em aeroportos. E quem cresceu assistindo Titanic, Ghost: Do Outro Lado da Vida, Diário de Uma Paixão, Uma Linda Mulher, aprendeu que o amor só é legítimo se for trágico, se houver sofrimento, se alguém se anular, se alguém esperar.
Só que o problema não está só no roteiro de amor hétero idealizado. O problema é que esse modelo se espalhou pra todas as formas de amor. E quando o cinema se arrisca a falar de amor queer, o que historicamente fez menos, e muitas vezes de maneira caricata ou trágica, ele repete a mesma lógica destrutiva: amor bom é amor impossível, amor marginal, amor clandestino, amor que morre antes de viver. De O Segredo de Brokeback Mountain à Me Chame Pelo Seu Nome, passando por Azul é a Cor Mais Quente, os romances queer quase sempre habitam o território do desejo proibido e da perda.
Acontece que esse amor das telas é um amor pedagógico. Ele molda, mais do que representa. Como diria bell hooks, a cultura de massa nos ensinou a desejar formas disfuncionais de afeto e a chamar isso de amor. Roland Barthes, em Fragmentos de um Discurso Amoroso (2022), descreve o apaixonado como alguém que vive à espera do colapso: ou o outro recusa ou não corresponde, mas a estrutura da paixão se organiza sempre em torno de um pequeno desastre. E Byung-Chul Han completa a tragédia: numa sociedade que transformou tudo em mercadoria, até o amor virou espetáculo de si mesmo.
Amor Romântico: O Modelo Tóxico que Virou Regra
Se você for rever qualquer grande clássico romântico, vai encontrar o mesmo roteiro afetivo: duas pessoas se conhecem, se apaixonam rapidamente, enfrentam um obstáculo insuperável (quase sempre externo ou social), passam boa parte da narrativa separados, ou em desentendimentos dolorosos, e, só então, depois de muita dor, se entregam.
O amor, no cinema, só é legítimo se for difícil. Em Titanic, por exemplo, Jack e Rose vivem uma paixão proibida pela diferença de classe e pelas convenções sociais. No fim, o único jeito dela existir plenamente é através da morte. Em Diário de Uma Paixão, o casal precisa passar anos separado, sofrer com outros relacionamentos, desafiar as famílias, para, enfim, se encontrar. Até em comédias românticas mais leves, como Uma Linda Mulher, a relação é entre um homem rico e poderoso e uma mulher prostituta, numa dinâmica de resgate e domesticação.
Essa pedagogia emocional ensina, desde cedo, que amar de verdade é sofrer. Que só vale a pena se houver renúncia, humilhação, espera. Que quem demonstra mais, perde. Que quem ama primeiro, sofre mais.
O Amor Queer no Cinema: da Marginalidade à Tragédia
Se o amor hétero no cinema é pedagógico, o amor queer é punitivo. Durante décadas, personagens LGBTQIA+ só tiveram duas opções nos romances ficcionais: ou a relação era escondida, clandestina, marginal, ou terminava em tragédia.
O Segredo de Brokeback Mountain, considerado um marco na representação de afetos gays, conta a história de dois homens que só podem viver sua paixão às escondidas, em encontros isolados nas montanhas, enquanto tentam sustentar vidas heteronormativas que não desejam. E, claro, a única resolução possível é a morte. Me Chame Pelo Seu Nome vendeu-se como romance delicado e sensível, mas no fundo repete a lógica do amor inviável. Elio e Oliver vivem um verão de descoberta e desejo, mas sem futuro. A partida, o silêncio e o sofrimento são inevitáveis. Mesmo romances lésbicos como Azul é a Cor Mais Quente seguem esse roteiro: o amor é arrebatador, intenso, possessivo, e termina em ruptura, traição, perda de si.
Em resumo: se o amor hétero é trágico, o amor queer é mortal. E se não mata o corpo, mata a possibilidade. O cinema, por muito tempo, falhou em contar histórias nas quais pessoas LGBTQIA+ pudessem amar e ficar.
Por Que Isso Acontece?
Porque, como explica Bell Hooks (2023), a cultura do amor no Ocidente se construiu mais como controle do que como cuidado. O amor romântico, vendido como o ideal máximo de felicidade, serve pra manter as pessoas no lugar, seja ele social, afetivo ou emocional. Ele é uma promessa que nunca se cumpre, mas que mantém todo mundo desejando. Roland Barthes chama isso de “espera apaixonada”. No cinema, o apaixonado nunca tem a posse do amor, somente a promessa, o talvez, o quase. E é nisso que ele se agarra.
Byung-Chul Han, em A Agonia do Eros (2023), denuncia que, numa sociedade de consumo e performance, até o amor foi transformado em mercadoria. O cinema vende o amor como um produto de desejo inalcançável e o público compra, mesmo sabendo que aquilo não existe fora da tela. Afinal, dificilmente as relações são tão avassaladoras ou as pessoas se entregam com tanta intensidade. Entregar-se dá medo. Porque se entregar significa ameaçar a imagem de sujeito forte, autônomo e produtivo. É abrir mão do controle da narrativa da própria vida. É admitir que se precisa do outro, expor a própria vulnerabilidade e, com isso, desorganizar a lógica social do capital emocional.
Cria-se, então, um amor impossível para que ele permaneça exatamente onde interessa ao sistema: no campo do desejo. Um ideal inalcançável que alimenta a frustração permanente e mantém a máquina girando. E quando falamos de amor queer, esse controle se intensifica. Porque o cinema mainstream, historicamente, nunca soube lidar com afetos dissidentes; ou marginaliza, ou patologiza, ou mata. Porque o amor queer é, por natureza, uma desobediência afetiva ao sistema. Ele recusa os roteiros prontos, desobedece as normas de gênero e as hierarquias do afeto, desorganizando não só o capital emocional, mas também as fantasias de poder e controle social baseadas na heteronormatividade.
Conclusão: Como Mudar Esse Cinema?
A primeira saída está no que bell hooks propõe: tratar o amor não como desejo incontrolável, mas como prática ética e política. Um amor que não se baseia na posse, na espera pelo colapso ou na tragédia anunciada, mas na construção cuidadosa do afeto.
Roland Barthes nos ensina que o apaixonado vive sempre na espera pela correspondência, pela rejeição, pelo colapso. O cinema, porém, poderia começar a contar histórias em que a espera não fosse regra, nas quais as personagens pudessem simplesmente escolher ficar, se cuidar, desejar sem implodir. Eu me pergunto se, desse jeito, ainda haveria narrativa. Mas acredito que sim. O cinema já provou que é capaz de contar boas histórias de mil maneiras diferentes. Só falta querer contar essas.
Byung-Chul Han já apontou que numa cultura da performance, até o amor virou espetáculo. E quem melhor pra encenar isso do que o cinema, que vive de plateia suspirando, trilha crescendo e beijo sob chuva artificial? O amor que a tela vende é sempre performático, cheio de cenas memoráveis pra gente replicar mentalmente antes de dormir. Na verdade, a gente já não ama mais. A gente atua um amor. Posta, legenda, manda playlist, organiza textão de aniversário. Tudo pensado para a plateia invisível que valida nossas pequenas tragédias sentimentais.
Talvez, então, esteja na hora do cinema largar um pouco essas firulas e apostar nas histórias mais despretensiosas, honestas, menos pirotécnicas. Porque amar também é acordar de mau humor, pedir comida ruim e não saber o que dizer depois de uma briga. Amar também é não saber. Talvez o cinema precise abandonar o espetáculo para descobrir que a melhor cena romântica pode ser só duas pessoas em silêncio, dividindo um sofá torto enquanto comem pizza fria do dia anterior. É sobre viver o afeto como experiência, não como promessa.
O amor queer também precisa deixar de habitar o território da tragédia. Já passou da hora dos filmes pararem de reduzir afetos dissidentes a símbolos de sofrimento e exclusão como se a existência queer fosse apenas um drama para emocionar a audiência. É preciso que essas histórias ganhem o espaço legítimo de uma vida plena: alegre, complexa, contraditória, feita de afetos reais e cotidianos. Que o amor queer seja celebrado em sua potência subversiva, na sua capacidade de desestabilizar normas, mas também na sua beleza mundana, porque existir queer é resistir, mas também é rir, gozar, dançar, errar e amar sem pedir permissão.
Amar é bom. Amar também é possível. Só não é, e nunca foi, como no cinema. E talvez esteja na hora do cinema admitir isso.
Referências
BARTHES, Roland. Fragmentos de um discurso amoroso. Trad. Márcia Valéria Zakir. 5. ed. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2022.
HAN, Byung-Chul. A agonia do eros. Trad. Nilo Assis. 4. ed. Petrópolis: Vozes, 2023.
HOOKS, Bell. Tudo sobre o amor: novas perspectivas. Trad. Ana Carolina Mesquita. 2. ed. São Paulo: Elefante, 2023.
