Entrevistas com Daniel Nolasco (Diretor de Apenas Coisas Boas) e com os atores Lucas Drummond e Liev Carlos.

Entrevista com os atores:
– O cinema do Daniel Nolasco trabalha o erotismo como forma, não como escândalo. O desejo é um dispositivo narrativo, quase uma coreografia. Para vocês, como foi habitar esses corpos e essa intensidade sem cair no lugar comum do choque ou da fetichização? Como vocês encontraram a naturalidade dessas cenas explícitas, e o que elas significam dentro da jornada emocional dos personagens?
Lucas: Bom, vamos lá. São muitas perguntas dentro de uma pergunta só, né? Eu acho que você usa duas palavras ao formular a sua pergunta que eu gostaria de retomar aqui, porque são fundamentais para essa resposta. A primeira delas é desejo. Sem dúvida nenhuma, o cinema do Nolasco trabalha muito essa questão do desejo, e Apenas Coisas Boas não poderia ser diferente. É um dos principais temas do filme. O desejo é o que norteia o arco, a jornada do Antônio. Desde a primeira leitura do roteiro, quando percebi que era um filme com pouquíssimos diálogos, um filme de silêncios. E o silêncio, aliás, é praticamente um personagem. Eu entendi que esses silêncios precisariam transmitir para o público tudo o que esses personagens estivessem sentindo, pensando, desejando. Seja pela respiração, pelo olhar… A respiração, o olhar e a atuação precisavam preencher esses silêncios e carregar esses sentimentos para o espectador. A segunda palavra que você traz é naturalidade. A construção dos personagens aconteceu de forma muito colaborativa entre a direção, o elenco e o Alan Jacinto Santana, nosso preparador de elenco. A gente trabalha com um estilo de atuação muito naturalista, quase documental. E foi da mesma forma que a cena de sexo no banheiro foi construída: ela acontece de maneira muito natural. Foi totalmente coreografada e, ao mesmo tempo, os movimentos vão fluindo, um gesto leva ao outro. Os movimentos de câmera também potencializam essa naturalidade, para que a cena pudesse transmitir justamente essa espontaneidade que você apontou. Tenho até uma curiosidade sobre essa cena, ainda respondendo à sua primeira pergunta: ela foi a última cena da nossa parte a ser rodada. E eu acho que o Daniel foi muito inteligente, muito sábio nessa decisão, porque até ali já tínhamos passado por todas as outras cenas. Já estávamos convivendo há bastante tempo. Então tivemos um período suficiente não só para nos preparar, mas para construir uma relação de intimidade e de amizade, o Liev e eu, que, acredito, foi essencial para que a cena realmente transmitisse essa naturalidade ao espectador. E, como você mesmo pontua, essa cena tem um significado enorme na jornada do Antônio. Ela é transformadora. Ele começa de um jeito; passa por essa cena e, na cena seguinte, já está completamente diferente, com outra energia. Eu costumo dizer que essa cena é praticamente um portal na vida desse personagem. É uma cena totalmente transformadora e libertadora para ele, que, até a chegada do Marcelo, tinha uma vida completamente solitária, talvez nunca tivesse vivido um romance, talvez nunca tivesse transado com um homem. Então, sem dúvida nenhuma, essa cena tem um significado imenso na trajetória desse personagem. E, para mim, esse significado é o da libertação.
Liev: Creio que essa pergunta possa ser melhor respondida pela direção. O Daniel é extremamente preciso, até sintético, ao expor aquilo que deseja abordar com cada cena. Assim, durante a minha preparação, havia sempre uma preocupação em tornar Marcelo minimamente interessante, de modo que ele honrasse a história do filme, especialmente por ser uma personagem com poucos momentos de atividade cênica. Meu caminho foi apoiar-me em graus de verdade emocional e construir nele uma dor interna, quase invisível, capaz de gerar uma espécie de gravidade misteriosa. Quanto ao erótico como forma, isso também é mérito da direção. Os filmes do Daniel são instigantes porque evidenciam algo que nossa cultura social frequentemente opta por reprimir e esconder: o corpo. Esse corpo que porta significados, que deseja e é desejado. No universo queer, essa repressão e esse alijamento forçado são ainda mais intensos. Ao mesmo tempo, toda repressão ou proibição invariavelmente produz forças contrárias que respondem com um “não” ao “não”. Uma dessas forças é justamente o cinema do Daniel: um cinema de rebeldes. Pessoalmente, acredito que todas aquelas personagens têm seus fetiches particulares. Esses fetiches não são escandalizados porque não são escandalosos; são parte da vida. Não a Vida, como alguns autores tentaram ou tentam forçar. Por isso, estão diluídos no filme como estariam diluídos na própria experiência cotidiana. E há beleza nisso. Uma estética. Nas cenas de intimidade sexual, tanto o Lucas quanto eu somos atores profundamente sérios e comprometidos com o ofício. Queríamos entregar o melhor resultado possível dentro das condições existentes. Para mim, tudo se resume à disposição de fazer um bom trabalho. As personagens precisavam se desejar, então nos desejamos. De algum modo, criamos uma atmosfera muito particular. Foi o processo mais bonito que já vivi no cinema, e sou profundamente grato por isso. O sexo é apenas um dos muitos caminhos que formam e evidenciam o amor entre as personagens. Há outra cena, lindíssima, que revela esse amor: quando Antônio serve café a Marcelo. Considero essa sequência belamente filmada; há ali algo extremamente íntimo, mesmo com as personagens vestidas. E isso é tão bonito.
– Antônio e Marcelo são personagens que existem num universo que não é inteiramente realista, um espaço que mistura iconografias queer, melodrama, fetichismos do imaginário americano e um cinema goiano de contorno próprio. Como vocês compreenderam esses homens dentro desse mundo híbrido? O que vocês acham que o filme diz sobre masculinidade, vulnerabilidade e desejo através deles?
Lucas: Eu acho que os personagens de Apenas Coisas Boas exalam masculinidade, vulnerabilidade e desejo. Em especial o Antônio, que é um personagem que trabalha muito com esse imaginário do fetiche, dessa figura do Tom of Finland, desse homem do campo. Mas, ao mesmo tempo, eu busquei trazer para ele uma sensibilidade que, talvez, numa primeira leitura, passasse despercebida. Ele tem uma vulnerabilidade, uma delicadeza, uma fragilidade que considero muito interessantes e que só potencializam a história dele. Essas nuances só ampliam o desejo que ele sente e a paixão que ele passa a viver com a chegada do Marcelo.
Liev: Minha personagem é um estrangeiro, um viajante por natureza e por necessidade. Por isso, busquei me comportar como alguém que é, essencialmente, um estranho naquele universo. Eu simplesmente não pertencia àquele lugar, embora estivesse presente nele. O único domínio que Marcelo possui é sobre si mesmo: sua liberdade em relação à própria sexualidade. Para contrabalançar essa autonomia, construí na personagem uma força oposta, um desejo secreto: a nostalgia por algo que ele ainda não vivenciou. Esperava que esse desejo lhe conferisse o peso necessário para torná-lo real, e não apenas um modelo ou uma representação idealizada de um amor livre e desimpedido. A vida não se constitui de felicidade, mas de faltas, e em Marcelo, faltavam muitas coisas. Sobre a segunda parte da sua pergunta, não saberia responder o que é masculinidade. Reconheço que se trata de uma construção majoritariamente social e, em alguma medida, a que mais importa, pessoal. Mas não sei defini-la. Em certos momentos da minha vida, não me percebo masculino em nada. Em outros, sim. Há também ocasiões em que me sinto bastante feminino, especialmente quando estou namorando. Então devolvo a questão: o que é masculinidade? Desejo e vulnerabilidade são mais fáceis de abordar, porque são mais concretos. Desejo é estar vivo. Vulnerabilidade é permitir-se viver.
– Grande parte da força do filme nasce da relação entre vocês: do cuidado, do toque, da espera, dessa intimidade construída no detalhe. Como foi o processo de encontrar essa química? Houve ensaios, conversas, improvisos… ou ela foi sendo descoberta pela própria gramática do set?
Lucas: O processo de preparação foi bastante rico e intenso. Eu costumo dividir essa preparação em três etapas. A primeira foi a pré-preparação, desde o convite até o momento em que fui, de fato, para Goiânia iniciar o trabalho. Nessa fase, o Dani me enviou várias referências, filmes, materiais, textos, que ele queria que eu visse e lesse. Entre elas, destaco God’s Own Country, que não sei se você já assistiu, mas que tem muitas similaridades com Apenas Coisas Boas, tanto do ponto de vista do universo quanto da construção dos personagens. E também A Palavra que Resta, do Stênio Gardel, que dialoga muito com o filme. As duas obras conversam bastante, e algumas cenas de Apenas Coisas Boas fazem referências diretas à literatura do Gardel, especialmente a esse livro. A segunda etapa foi a sala de ensaios, já em Goiânia. Ficamos cerca de uma semana nesse processo, construindo o personagem, entendendo seu corpo, seu olhar, e também trabalhando a química e as relações dele com os outros. Tive muitos ensaios com o Liev, mas também com o Gui e com o Norval, que interpreta o pai. Nesse período, trabalhamos de forma muito colaborativa: direção, elenco e o Alan Jacinto Santana, nosso preparador de elenco. O Dani dava o direcionamento do que desejava para cada cena. Ele é um diretor que sabe muito bem o que quer e marca tudo, o que, para nós, é ótimo, porque já chegamos ao set muito seguros do que vamos fazer. No final desse processo, trabalhamos mais diretamente as cenas para achar o tom exato de cada uma delas. A terceira etapa foi a imersão na fazenda onde filmaríamos. Passamos sete dias no local, vivendo literalmente o dia a dia do Antônio. Eu acordava às cinco e meia da manhã, ordenhava a vaca às seis, colocava o leite para coalhar, tomava o leite fresco, fazia queijo, almoçava, cavalgava e também tive treinamento de tiro para as cenas de ação. Foi uma imersão muito rica, cheia de detalhes e de aprendizado. O Liev participou comigo das etapas dois e três. Nesse período, convivemos diariamente, construímos uma relação muito forte e nos tornamos grandes amigos. E isso é importante de dizer porque, de algum modo, essa intimidade real que criamos se reflete na tela. Tudo o que você vê ali entre os personagens nasce, também, desse processo de convivência e construção conjunta.
Liev: É curioso. Eu não tive nenhuma química com Lucas durante o teste, que aconteceu por chamada de vídeo. Entretanto, assim que ele chegou à sala de ensaio em Goiânia, senti imediatamente uma forte conexão com ele. Acredito que a recíproca tenha sido verdadeira, porque nos entendemos muito bem desde o primeiro momento. Ele é uma pessoa genuinamente legal e comprometida. A convivência não foi apenas fácil, foi prazerosa. Tivemos, se não me engano, uma semana de preparação com Alan Santana, que trabalhou com Daniel em Vento Seco, e passamos mais uma semana em Soledade, na fazenda. Esses dias ficaram marcados em mim, repletos de risadas, cafés mal preparados por alguém cujo nome vou preservar aqui, e noites estreladas. A cena da moto foi praticamente toda improvisada. Aquele beijo inicial, que marca a partida deles rumo ao horizonte, não estava no roteiro. Pareceu a escolha certa durante o set, então Daniel pediu para repetir, o que acabou sendo ótimo porque permitiu cortar uma cena de Marcelo consertando a moto, habilidade que infelizmente eu ainda não tenho. Quem sabe um dia. Também houve improviso no banheiro. As ações não aparecem na câmera, mas se tornam visíveis nas expressões das personagens. O set era impressionantemente tranquilo e organizado dentro do que é possível em uma produção cinematográfica independente que faz milagres com poucos recursos. Tudo era muito seguro e acolhedor. A palavra mais adequada é fértil. Eu me sentia muito bem e confortável ao lado de toda a equipe. Guardo um carinho enorme por todos. Sempre que a vida proporciona um reencontro com alguém do time, é uma celebração.
– Embora vocês não estejam fisicamente na segunda parte do filme, toda a atmosfera dela, o mistério, o desgaste, a ausência, nasce da relação que vocês constroem na primeira metade. Como foi criar uma química e uma intensidade tão fortes que ainda ecoam quando os personagens já não estão mais em cena? Vocês pensaram essa primeira parte imaginando como ela afetaria o ‘futuro’ da narrativa? O que significa, como atores, atuar para um tempo que vocês não viverão dentro do próprio filme mesmo fazendo-se presentes?
Lucas: A quarta pergunta é uma ótima pergunta. Aliás, ótimas perguntas. Sem dúvida. A gente pensou a construção dessa primeira parte já visando potencializar o filme como um todo e, consequentemente, também a segunda parte. Acho que o que mais choca algumas pessoas quando assistem ao filme é justamente esse contraste grande entre o romance da primeira parte e essa libertação, ou essa ausência, na segunda parte. Isso, sem dúvida. Mas, assim, a gente tinha um roteiro, né? Então, nós já sabíamos o caminho que os personagens deveriam tomar. Isso foi um norte muito grande pra gente nesse processo de construção. E, como você pode perceber, no final da primeira parte tem aquele momento de conversa do Antônio com o Marcelo, quando o Marcelo diz: ‘Ah, a gente vai ficar junto pra sempre, eu morreria com você’. E ali já existe uma certa desconfiança do Antônio. Ele responde: ‘Ah, eu não sei se ele morreria comigo pra sempre’. Aí o Marcelo insiste: ‘Mas eu passaria trinta anos ao seu lado’. E o Antônio devolve: ‘A gente não vai viver tanto tempo’. Então, já existe ali um prelúdio do que virá na segunda parte. Eu acho que o roteiro do Daniel é muito bem construído nesse sentido. Porque, embora as duas partes tenham tons completamente diferentes, e algumas pessoas até considerem como dois filmes distintos, existem elementos muito bem plantados no roteiro que vão dando pistas do que acontecerá mais adiante.
Liev: É uma bênção quando conseguimos construir algo, enquanto atores, que realmente toca as pessoas. De vez em quando recebo mensagens do público, e os comentários são sempre muito comoventes. Falam da primeira parte do filme e da química entre as personagens com enorme carinho. Há elementos em Marcelo que fazem parte da minha construção pessoal e que não estavam no roteiro, portanto não existem materialmente no filme, mas continuam presentes através de mim. A personagem tem uma história que antecede o romance com Antônio, tem sonhos e desejos que vão além da figura de Antônio. Essa subjetividade precisa se manifestar, de algum modo, no corpo. Durante o processo de filmagem, eu nunca assisto às gravações e me mantenho o mais distante possível do monitor. Só espero conseguir transmitir essa vida que pulsa por baixo da pele, que quer gritar e não pode. Respondendo de forma mais objetiva à pergunta sobre a química, para mim é simples. Basta enxergar verdadeiramente o outro e agir com sinceridade. Não é muito diferente da minha disposição diante da vida. Amar é fácil. Sobre o salto temporal e a quase completa desaparição de Marcelo na segunda parte da narrativa, acredito que, paradoxalmente, ele foi muito favorecido. Antônio é o protagonista. Ainda assim, talvez a presença de Marcelo e o romance entre os dois na primeira parte sejam tão fortes que criam um vácuo possivelmente cruel para a audiência. Isso é uma das razões pelas quais admiro tanto o Daniel e amo tanto esse roteiro. Ele é honesto e verdadeiro, gostem ou não. Essa disposição em assumir que não vai atender às expectativas do outro, correndo o risco de desagradar, é extremamente corajosa, ainda mais quando se é artista e dependente da aprovação alheia. Ao mesmo tempo, revela respeito por si próprio e pelo público. É uma das razões da minha afinidade com o Daniel. A presença de Marcelo na segunda parte se manifesta negativamente, por meio desse vácuo. Pessoalmente, eu não pensei nas implicações da minha personagem na segunda metade do filme enquanto filmava. Minha ética de trabalho é confiar plenamente no diretor, porque o filme, em última instância, é dele. Minha função é entregar o melhor trabalho possível para servir à visão dele. Não tenho a tendência de querer destacar a minha personagem no quadro. Minha única preocupação é funcionar dentro daquele universo particular. Mas lembro de algo que o Daniel disse durante os ensaios e que eu guardei com muita força, e acredito que o Lucas também. Ele falou que, para a segunda parte funcionar, era preciso acreditar no romance daqueles dois garotos. Esse pedaço de direção é simplesmente genial. Eu amo.

Entrevista com o diretor:
– Nos seus filmes, o erotismo nunca aparece como provocação gratuita: ele é forma, é organização do olhar, é um modo de narrar. Em Apenas Coisas Boas, essa naturalidade do explícito atinge talvez o seu estágio mais depurado. O que significa, para você, trabalhar o desejo como dispositivo estético e não como escândalo? Como você negocia a ética dessa exposição com a equipe e com os atores?
Daniel Nolasco: O erotismo e o sexo sempre estiveram presentes na arte ocidental desde a Grécia antiga. É uma forma de representação, uma estética consolidada, presente na arte nos mais diversos formatos: esculturas, pinturas, literatura, cinema, etc. Diante disso, utilizar o erotismo apenas como provocação, esperando escandalizar o espectador é ignorar a história da arte. O meu interesse é utilizar os códigos e as imagens do erotismo como recurso dramático e narrativo, como um elemento que ajuda a construir a história e o discurso do filme. Em Apenas Coisas Boas existe a intenção de mostrar o desejo dissidente como uma forma de narrar uma história de amor. Filmar o sexo dissidente como uma possibilidade de representar o amor e o afeto. Isso só foi possível graças ao trabalho e a dedicação dos atores que acreditaram na proposta estética do filme. Desde o começo do processo, na primeira conversa com o elenco, a estética, as intenções de cada cena e as formas como elas seriam gravadas começaram a ser discutidas com os atores. É sempre um processo de troca com o elenco e a equipe sobre como fazer e gravar essas imagens. Esse processo tem continuidade na sala de ensaio, durante a preparação para as filmagens, e o mesmo acontece durante as gravações.
– O filme parece cristalizar muitos elementos da sua trajetória, como o homoerotismo explícito, o diálogo com fetiches e arquétipos queer, e ao mesmo tempo uma busca por atmosferas novas, como o suspense e o mistério. Onde você sente que Apenas Coisas Boas se inscreve dentro da sua própria filmografia? Ele representa um avanço, uma inflexão, um risco?
Daniel Nolasco: Acredito que o Apenas Coisas Boas vem de encontro com duas investigações que estão presentes em outros filmes que realizei – uma estética, as possibilidades de representação do homoerotismo em diálogo com as estéticas fetichistas; e a outra narrativa, a busca por contar histórias de pessoas queers que vivem em regiões longe dos centros urbanos. Existe nesse filme essa intenção de mostrar a pluralidade de vivências e desejos de pessoas LGBTs que vivem em pequenas cidades do interior do Brasil, mais especificamente no centro-oeste. Há também uma vontade de filmar a região em que eu nasci e as transformações que as paisagens desse lugar vem sofrendo ao longo das últimas décadas. É uma região em que a natureza vem sendo transformada significativamente com a construção de uma barragem e com o avanço do agronegócio. Desde os meus curtas procuro registrar como esse lugar muda a cada ano que passa.
– Você trabalha com símbolos muito fortes: o cowboy, o motociclista, o fazendeiro. Figuras que carregam um imaginário de virilidade hegemônica. O filme desmonta esses códigos e reinscreve esses corpos em outra gramática: sensorial, vulnerável, desejante. O que te interessa nessas masculinidades? O que você acha que esse filme acrescenta ao debate sobre o corpo masculino e suas iconografias?
Daniel Nolasco: Todos esses personagens e símbolos que você cita pertencem ao imaginário das estéticas fetichistas, principalmente, do universo do leather. O cowboy e o motociclista, por exemplo, são figuras recorrentes dentro do trabalho do Tom of Finland. A estética fetichista tem esse movimento de apropriação e ressignificação desses personagens e códigos que são reconhecidos usualmente como símbolos de uma masculidade heterosseuxal. É um processo de antropofagia mesmo, de se apropriar dessas imagens e códigos e pensá-las dentro do universo gay do interior do país, colocá-los a partir de uma perspectiva queer.
– A obra se divide de maneira radical entre uma primeira parte sensorial e pastoral e uma segunda que se aproxima do thriller. O que te levou a apostar nessa ruptura tão marcada? O que você buscava tensionar no público, na narrativa, e até nos próprios personagens, ao deslocá-los desse idílio erótico para um espaço urbano mais cínico e instável?
Daniel Nolasco: A narrativa do filme é dividida em dois momentos diferentes na vida do Antônio — o primeiro é a chegada de Marcelo e o segundo é quando este desaparece. O começo e o fim de um relacionamento. No filme existe um interesse em trabalhar com diferentes gêneros cinematográficos para cada momento da vida do protagonista. O primeiro há um diálogo com o western, principalmente, na forma como é filmada as paisagens, como é mostrada a violência e a solidão masculina. E o segundo, o filme se aproxima do thriller policial, com o mistério em torno do desaparecimento do Marcelo e com uma certa dubiedade nas intenções e na moralidade de quase todos os personagens. Uma primeira parte rural, uma segunda urbana. O começo e o fim de uma história de amor. O filme também deixa de narrar quarenta anos da vida dos dois, há uma lacuna, as quatro décadas em que o protagonista muda bastante, se torna quase outra pessoa. A intenção nessa quebra tão marcada entre os dois momentos era fazer o espectador perceber essa mudança – se Antônio quarenta anos depois é outra pessoa, o filme também é outro. O filme, como forma, também muda junto com o personagem.
Com essas respostas, fica ainda mais evidente a delicadeza e a ousadia que atravessam Apenas Coisas Boas, tanto na construção dos personagens quanto na ética estética que orienta o filme. A obra, que teve sua estreia nacional em junho de 2025 no 14º Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba, chegou a salas selecionadas a partir do dia 17 de junho e seguirá seu caminho pelo circuito. Com direção e roteiro de Daniel Nolasco, o drama homoerótico rural segue expandindo seu público e consolidando seu lugar no cinema brasileiro contemporâneo. O lançamento nacional mais amplo está previsto para 2026, quando o filme deve alcançar novas plateias e continuar provocando diálogos sobre desejo, masculinidade, imaginação queer e a potência do afeto no campo.
