CRÍTICA – A LONGA MARCHA: CAMINHE OU MORRA

CRÍTICA – A LONGA MARCHA: CAMINHE OU MORRA

Construir uma amizade genuína no cinema requer algo muito além de um bom roteiro e bons atores. Dá para dizer que é um processo complexo que deve transcender os próprios limites da câmera. Daniel Radcliffe, Emma Watson e Rupert Grint protagonizaram algo muito único quanto a isso. A dinâmica do icônico trio em Harry Potter bebia de uma amizade verdadeira que era não apenas simbólica como orgânica, rendendo momentos espontâneos provenientes de uma química, não ironicamente, mágica, fruto de uma parceria que percorreu todo seu desenvolvimento juvenil.

Podemos dizer que o lançamento A Longa Marcha (2025) alcança algo parecido (claro, dentro de sua respectiva escala). O carismático Cooper Hoffman, que emergiu em Licorice Pizza nas mãos do mesmo Paul Thomas Anderson que ergueu a carreira de seu pai, está aqui para provar que seu talento não foi episódico no icônico romance juvenil de 2021. Cooper, numa completude sentimental densa e carregada, estabelece laços com o personagem do talentoso David Jonsson. E o resultado é esse: construção extremamente refinada que por si só já garante a ida ao cinema.

Mas não faltam mais chamarizes: baseado no primeiríssimo livro de Stephen King – que, por sinal, já foi alvo de tentativas de adaptação por ninguém mais ninguém menos que George Romero e Frank Darabount – coube às mãos do conhecido, e estabelecido nos estúdios de Hollywood, Francis Lawrence a tarefa de tirar do papel o cobiçado projeto. Auxiliado pelo inteligente e coeso roteiro adaptado de J.T. Mollner, A Longa Marcha é uma produção refinada, que pode até não surpreender absurdamente, mas se estabelece como um belo e justo projeto de estúdio, promovendo um vínculo de amizade descomunal.

Situado num pós-terceira guerra mundial, em um EUA (como se houvesse surpresa) rachado e autoritário, o programa estabelecido pelo exército, chamado de A Longa Marcha, visa uma seleção de jovens do sexo masculino que passarão por uma caminhada árdua e interminável. O objetivo, supostamente, é matar a preguiça “que assola o país” e instigar um instinto de valentia que foi perdido pela nova geração. Quem desistir morre alvejado na hora.

Habilidoso em gerir o esquema de sobreviventes e de múltiplos personagens tal qual em suas quatro colaborações na franquia Jogos Vorazes, mas não tão competente em gerar atmosfera de perda da civilização tal qual no seu Eu Sou a Lenda (2007), o diretor Francis Lawrence foca em nos inserir dentro daquele grupo de jovens e tem o domínio de transitar suavemente entre os núcleos, dando sempre um constante espaço ao desenvolvimento daqueles que logo temos como importantes afetivamente.

Afeto é uma palavra que não é dispensada aqui, uma vez que é um valor insubstituível e que abastece os laços entre a dupla que protagoniza a obra. Focado na nossa inserção naquela prova e na sensação gradual de cansaço, Lawrence centraliza seu filme numa vertical aguda (geograficamente, o filme nunca para) que põe o mundo externo como menos impactante. Não é uma falha, mas sim uma decisão de onde focar. E não há problemas, uma vez que a econômica 1h48min de duração é bem preenchida com personagens fascinantes (dispensa comentários a genialidade de King aqui) e cenas intrigantes e impactantes visualmente.

Existe uma maturidade significativa, tanto por parte de nos convencer que precisamos aproveitar as coisas boas de quem conhecemos hoje, tanto em sabermos que eles irão ficar pelo caminho. Esse fantasma, da noção de que os laços que estão sendo criados têm a validade que pode durar apenas alguns segundos, assola esses jovens que têm o conceito da própria juventude tomado de si. Um monitoramento que tem a violência como entretenimento (a prova de morte é filmado ao vivo a todo momento) e a própria perda de processos naturais de descobrimento de quem ser no mundo – uma vez que sua existência é belicamente financiada pelo fascismo como um produto militar.

Lawrence é sóbrio em manter essas nuances nas entrelinhas e eficaz na montagem que por si só era um risco, uma vez que não existem planos estáticos e os blocos poderiam entrar em repetição. Por sorte, há neste jogo uma organização psicossocial fundamental que deixa a corda firme integralmente. Ainda que não opere sua mise-en-scène para além da normalidade (por exemplo: o diretor não sabe integrar um plano de algo à beira da estrada com o plano da reação dos caminhadores sem que haja corte, não deixa de filmar sempre o óbvio e é incapaz de fazer com que um mesmo plano dure mais de 5 segundos), ele conta com aspectos técnicos trabalhados de forma rígida, como o excelente design de som atento aos passos e ao engatilhar das armas ajudando a construir uma imersão de perigo eminente num desafio literalmente em absoluta constância rítmica. A música do compositor iniciante Jeremiah Fraites é talentosa em não entrar na obviedade e por criar ao menos um tema memorável que é o que cerca a delicada cena final.

Pecando apenas por não gerar uma dimensão externa tão enriquecida daquela sociedade utópica – o que levaria a uma motivação que poderia ser melhor compreendida e sentida pela plateia –, A Longa Marcha é um filme que não se rende ao óbvio e que, além de um suspense íntegro e refinado, triunfa em nos apresentar uma amizade genuína e apaixonante. Portanto, acima de tudo, é um filme sobre amizade e, claro, sobre amor.


Pôster do filme A Longa Marcha Filme: A Longa Marcha: Caminhe ou Morra
Elenco: Cooper Hoffman, David Jonsson, Garrett Wareing, Tut Nyuot, Charlie Plummer, Ben Wang, Jordan Gonzalez
Direção: Francis Lawrence
Roteiro: JT Mollner
Produção: EUA
Ano: 2025
Gênero: Suspense, Terror
Sinopse: Um grupo de adolescentes compete em uma competição anual conhecida como “The Long Walk”, onde eles devem manter uma certa velocidade de caminhada ou levar um tiro.
Classificação: 18 anos
Distribuidor: Paris Filmes
Streaming: Indisponível
Nota: 8,5

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