Anna Muylaert é uma diretora que possui um olhar muito sensível quando o assunto é seio familiar. Notamos seu tato em lidar com essa temática ao assistirmos a Durval Discos, Que Horas Ela Volta?, Mãe Só Há Uma, e também agora, no seu mais recente longa, A Melhor Mãe do Mundo. Esse, inclusive, talvez seja o filme em que ela mais opta por explorar os aspectos mais intimistas das relações familiares, sobretudo entre mãe e filhos.
Logo de início, o filme já busca evidenciar o fato de Gal ser uma mulher guerreira, que “faz os seus corres” para manter o sustento: trabalha na banca reciclando lixo, justamente no lado inverso do capitalismo. Com isso, o longa aproveita para desmistificar essa visão de que os catadores são equivalentes a mendigos, já que esta é uma profissão como qualquer outra, digna, com salário. O transformar do material não mais utilizável em algo rentável, já sugere uma baita metáfora para o que virá em diante: a facilidade de Gal em fazer do limão uma limonada.
Isso porque, antes mesmo de conhecermos o ambiente de trabalho de Gal, a cena de abertura é justamente da mesma na delegacia, com o olho roxo, denunciando seu marido por agressão (coisa que, vale ressaltar, não havia sido a primeira vez). Tendo o estalo de realidade em ir buscar algum tipo de proteção da lei – e não recebendo o devido amparo – ela percebe que terá de seguir em frente numa jornada com seus filhos da maneira mais leve possível: fazendo com que eles enxerguem que aquilo é uma aventura, não um perrengue. Fica quase impossível não remeter à ideia do filme A Vida é Bela, pela ideia de querer proteger seus filhos da dureza de certas realidades.
Ainda que sob um motivo triste, a jornada de Gal com seus filhos, carregando-os nas costas (metaforicamente e literalmente), de fato acaba se tornando algo admirável. Mas, vejam bem: admirável não significa aceitável. Ela ainda busca ir transformando, tijolo por tijolo, sua realidade; almejando conforto, não sufoco – ainda mais quando se tem duas crianças. Vale puxar o gancho para ressaltar o brilho que os dois pequenos trazem para o filme de forma geral: com sua ótima atuação, eles emanam graça, espontaneidade, inocência, sempre positivos e sorridentes, trazendo alguns dos diálogos mais jocosos e momentos que deixam o nosso coração quentinho.
A Melhor Mãe do Mundo, entretanto, derrapa em alguns momentos. Talvez por querer explanar demais o teor dramático ou emocional que já teria sua devida força sem muita necessidade de exposição, seja por alguns diálogos que não soam muito orgânicos, ou com certos momentos um tanto ábsonos. Um exemplo disso é a cena onde um suposto grande amigo dela oferece dinheiro como forma de ajudá-la, porém, logo em seguida, sugere interesse numa relação sexual, ofendendo-a pela malícia abrupta, enquanto ela o via como um pai. Essa cena, além do fator desconforto, fica “solta”, com um intuito confuso, tornando-a dispensável. Às vezes, a sugestão, a sutileza, poderiam ser bem-vindas para potencializar ainda mais os altos e baixos da vida de Gal.
Já tendo se passado mais de uma hora de filme, finalmente temos o desgosto de conhecer seu ex-marido que, inclusive, retorna trazendo um buquê de rosas, todo “fofo”, com ar de redenção. Não demora muito para ele retornar à estaca zero e logo fazer o espectador entender, com ainda mais clareza, o porquê dela ter decidido se separar. Extremamente hostil, ele a humilha, a agride verbalmente (e fisicamente). O desgosto de Gal é palpável, ainda mais pelo fato de conhecermos tantas mulheres que passam por essa mesma situação diariamente. É o infeliz retrato da realidade de muitas.
Suas recaídas em relação ao ex-marido tóxico e abusivo são até revoltantes: como poderia, em sã consciência, ainda nutrir algum tipo de sentimento bom ou esperança para com um indivíduo desse nível de caráter? Mas logo, entendemos que são muitas as problemáticas envolvidas. Dependência emocional, financeira, questões internas não resolvidas, e principalmente questões sociais, da padronização e repetição de um machismo estrutural enraizado, da perpetuação da normalização do sofrimento e resignação feminina – como no diálogo entre Gal e sua prima Valdete, por exemplo, onde a segunda fala absurdos, como: “homem é assim mesmo”, ou que “uma hora a mulher acostuma”, entre outras frases, inclusive a ideia de voltar-se contra a suposta amante do marido (manutenção da rivalidade feminina)… em suma, todo tipo de “conselho” possível, exceto o que seria primordial: de incentivar a separação definitiva de alguém tão nocivo.
Em suma, A Melhor Mãe do Mundo é um filme que, ainda que tenha certos tropeços, é consciente e feliz na escolha em querer apresentar a história de uma mulher preta, mãe de dois filhos, que faz o possível e o impossível para assegurar o bem-estar deles, mesmo em meio à turbulência no processo de escolher se libertar de um relacionamento abusivo. O roteiro de Muylaert cuida muito para que sua abordagem não caia no terreno da romantização, mas sim, de uma intimista e retração realista da jornada tantas mães por aí. Não é sobre aplaudir e dizer frases de efeito como: “aí, está vendo? Mesmo tendo tão pouco, eles são felizes!”. São felizes, de fato. Mas sempre olhando para o dia de amanhã querendo enxergar a possibilidade de um melhor recomeço, assim como final esperançoso sugere. Afinal, nada como um dia após o outro para quem abraça a resiliência.
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Filme: A Melhor Mãe do Mundo Elenco: Shirley Cruz, Seu Jorge, Rihanna Barbosa, Benin Ayo, Katiuscia Canoro, Lourenço Martinelli, Luedji Luna, Rejane Faria Direção: Anna Muylaert Roteiro: Anna Muylaert Produção: Biônica Filmes Ano: 2025 Gênero: Drama Sinopse: Gal é uma catadora de materiais recicláveis que decide prestar queixa em uma delegacia da mulher após sofrer abusos do marido Leandro, mas não encontra lá a proteção e ajuda que procura. Determinada a dar uma nova vida e um lar seguro para seus dois filhos, ela decide abandonar a sua casa, levando as crianças na sua carroça. Classificação: 14 anos Distribuidor: Galeria Distribuidora Streaming: Indisponível Nota: 7 |

