CRÍTICA – FRANKENSTEIN

CRÍTICA – FRANKENSTEIN

É estranha minha relação com a trajetória cinematográfica de Del Toro, pois há um entusiasmo considerável de expectativas pessoais quando ele está no mínimo participando de algum projeto. Possui filmes que eu considero excelentes naquilo que se propõem, e o predomínio de uma estética gótica quase caricata e muito embasada em visões mais fantasiosas do que um foco no realismo me seduzem. Cronos (1992), A Espinha do Diabo (2001), Blade 2 (2002) e claro, O Labirinto do Fauno (2006) são obras que carrego no coração — apesar de ter outros marcos em sua carreira além do legado de projetos cancelados ou que foram retirados da produção. Considerava A Colina Escarlate (2015) seu projeto mais fraco… Considerava.

E já adianto: não é tão ruim. É longe de ser péssimo. É medíocre. É frouxo. É… Desencantador. Não entrarei no mérito enquanto adaptação, isso seria um tópico que conseguiria me estender por um bom bocado de parágrafos até perceber que já estava em produção um artigo! Seria impossível sem traçar paralelos com outras adaptações e desembaralhar todas as minúcias que envolvem essa temática, além de explorar o próprio gótico. Isso adentraremos para ressaltar certos incômodos que, quando somados, se tornam uma enxurrada de tristeza e frustração — e talvez reflitam a maneira da nova geração enquanto público.

Quando pensamos em ambientação, é impossível não afirmar que Del Toro construiu uma identidade no gótico fantástico misturando sempre elementos do clássico imaginário da fantasia com estéticas da ficção científica gótica. É único e bem inspirado em visuais retrôs bem estabelecidos na indústria — o que ironicamente é difícil de encontrar nas produções contemporâneas pós-2020. Então, imageticamente, Frankenstein (2025) adapta muitíssimo bem seus cenários e ambientes, estruturando uma visão interessante por absorver referências visuais não somente do livro, mas também da longa cinematografia que existe ao redor do primeiro grande romance que estreia o termo Sci-Fi e promove uma popularização do gótico em si.

Ver o famoso castelo de Victor Frankenstein é um esplendor em todos seus exageros e compreensão do modus operandi gótico, pois as sombras predominam — muitos podem até mesmo ressaltar ser um exagero; mas o gótico é exagerado em sua essência, os sentimentos mais sombrios serão expostos e o mundo reflete o estado de espírito perturbado do elenco de personagens. É interessante adentrar nessa realidade, que beira ao caricato, por ser muito mais participante do imaginário coletivo estético do respectivo período em alternativa de uma representação realista. Assim, é mais uma visão romantizada que conquista corações e promove uma tendência — já percebida através de toda a trajetória cinematografia de Del Toro — desse realismo fantástico estético lindo e sedutor.

As atuações são mais do que competentes, afinal é um elenco de peso (Christoph Waltz, Oscar Isaac, Charles Dance, David Bradley) e, simultaneamente, com figuras bem famosas no âmbito da nova geração (Mia Goth e Jacob Elordi) — o que já denota para nós essa busca por emplacar uma narrativa de Frankenstein que chegue nesse público mais jovem. Um ponto válido é que Jacob Elordi, que entra na longa trajetória de atores que interpretaram a criatura, consegue de uma maneira muito eficiente te convencer de sua atuação, com trejeitos e delicadezas que trazem o lado conflituoso entre ingenuidade, fúria e inocências corrompidas. Talvez o menor brilhantismo em sua participação seja de Christoph Waltz, a qual sinceramente utilizarei de certa informalidade para descrevê-la: xoxa e mixuruca. Com tantos papéis marcantes em sua carreira, esse é um daqueles que é lembrado mais pelo nome do ator do que pelo seu personagem em si.

Agora… Quando Christoph Waltz não tem um papel marcante, já é um sintoma de que o texto, em primeiro lugar, possui um baixo aproveitamento do potencial de atuação de seu elenco e, em segundo,… De que talvez o roteiro não tenha uma qualidade textual marcante no mínimo — e no máximo medíocre. Irei optar pelo medíocre, pois daí vem o maior defeito no longa-metragem: a obviedade dos diálogos, que tratam seu público enquanto imbecis incapazes de reconhecer qualquer metáfora visual ou subtextual. Precisa falar diretamente para o público que o verdadeiro monstro é o Dr. Victor e não a criatura; precisa sempre avisar a personagem — cuidado para não se tornar o Prometheu moderno! Isso gera um desconforto ainda maior quando se tem uma memória em relação ao texto original do livro do qual o longa foi adaptado. Tudo aquilo que pode ser considerado como nuances do texto original são abandonadas em prol de uma estratégia da completa exposição para o público. Logo, o público ou é considerado burro ou estamos realmente em uma época que é necessário deixar óbvio para que o público consiga assistir ao filme sem assisti-lo… O famoso hábito da tela secundária.

Por fim… Algo rápido e breve: já deu na temática de “o verdadeiro monstro é o ser humano e não a criatura”. Testemunhamos isso em diversos filmes do diretor; então, o que há de novo em sua proposta? Nada. É uma jogada segura. No livro original isso também é colocado, mas não isenta a criatura de seus crimes, da loucura e fúria que acometem quando abandona por inteiro sua humanidade. Ambos possuem sua parcela de culpa e sua parcela de vítimas, daí advém uma nuance, uma linha delicadamente composta para estabelecer essa ambiguidade. Frankenstein abandona isso, impondo inclusive quase uma moral cristã de que a Criatura é a vítima; e Victor ainda possui um arco de redenção em relação a sua criação e seu próprio comportamento ao longo de toda vida. É um pouco triste e espero que seja um momento isolado de suas produções. Que o futuro nos diga qual foi o resultado…


Pôster do filme Frankenstein Filme: Frankenstein
Elenco: Oscar Isaac, Christoph Waltz, Mia Goth, Jacob Elordi, Felix Kammerer, Charles Dance, David Bradley
Direção: Guillermo del Toro
Roteiro: Guillermo del Toro
Produção: EUA
Ano: 2025
Gênero: Ação, Suspense, Terror
Sinopse: Um cientista brilhante, mas egoísta, traz uma criatura monstruosa à vida em um experimento ousado que, em última análise, leva à ruína tanto do criador quanto de sua trágica criação.
Classificação: 18 anos
Distribuidor: Netflix
Streaming: Netflix
Nota: 5,0

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