CRÍTICA – LADRÕES

CRÍTICA – LADRÕES

Assumir que o Cinema é uma arte em crise é, além de uma constatação óbvia, uma postura crucial para que se desenvolvam os processos de ressignificação necessários à sua renovação. Nesse sentido, a produção contemporânea em Hollywood revela nuances dessa situação de esgotamento: Onde está o autor? O que aconteceu com os gêneros cinematográficos? Qual o lugar do espectador nesse cenário? Será que as inovações técnicas estão sufocando as de ordem artística? A resposta para todas essas perguntas, de alguma maneira, convergem e induzem à noção de que os novos paradigmas já estão consolidados — e tendem a ser impostos a toda e qualquer produção. Entretanto, ao mesmo tempo, condicionam a busca por novos valores, sejam estéticos, ideológicos ou de consumo. Isto é, ressignificam a experiência cinematográfica como um todo!

Darren Aronofsky é um cineasta que, embora não seja amplamente reconhecido pela coesão de sua obra como autor, possui diversos títulos conhecidos pelo público: A Baleia (2022), Mãe! (2017), Cisne Negro (2010) e O Lutador (2008). Mas seu primeiro filme relevante — status conferido não pela bilheteria ou presença em premiações, e sim pela crítica especializada (não confundir com a jornalística ou de consumo) — foi Pi (1998). Esse é diferente em muitos aspectos do que Darren viria a produzir futuramente, a começar pela sua fotografia em preto e branco — uma escolha que reflete mais uma ordem estética marcada pela fragmentação, incompletude e desorientação, do que uma imposição de ordem técnica. Requiém para um Sonho (2000), que custou pelo menos sessenta vezes mais, apresenta uma versão mais higienizada, menos radical, da mesma inquietação formal. Além disso, essa transição também foi marcada pela reafirmação de elementos, como a obsessão como espécie de motor narrativo, reforçado por uma montagem acelerada e cortes rápidos, em que os eventos avançam rapidamente e conduzem os personagens à ruína.

O filme Cisne Negro (2010) — que custou três vezes mais que Requiém — se dá em torno do mesmo modelo (higienização versus reafirmação). Os temas da obsessão, do desgaste físico e psicológico — que são frequentemente levados ao extremo do sacrifício —, a exploração da vulnerabilidade do corpo e da mente se repetem. Mas entre Pi e Requiém, e também de Requiém para Cisne, há uma progressão na sofisticação da técnica, resultado sim de um orçamento mais robusto e, mais ainda, de um processo de domesticação das imagens pelos padrões industriais, tornando-as cada vez menos “sujas”, mais aceitáveis. Entretanto, embora as demarcações visuais mais evidentes de Darren Aronofsky tenham se diluído, seu autorismo se preservou, deslocando-se do imediatismo das imagens para se instalar de maneira marginal. O Lutador (2008) ilustra, mesmo com uma estética mais naturalista e linear, a obsessão de Aronofsky pelo limite físico do ser humano. Em Mãe! (2017), por outro lado, o cineasta explora a subversão dos gêneros cinematográficos como gatilhos para o estranhamento e o desconforto. Dessa forma, o autor buscou reafirmar a sua visão diante das limitações impostas por uma lógica que restringe os impulsos das formas de expressão da sua arte.

Em Ladrões (2025), o novo filme do diretor, acompanhamos Hank Thompson (Austin Butler), um ex-promissor fenômeno de beisebol que precisou abandonar a sua carreira após um acidente de carro. Trabalhando como um barman em Nova York, vive uma rotina relativamente tranquila. Tudo muda quando seu vizinho Russ pede para ele cuidar de seu gato por um tempo. Certo dia, Hank é atacado e, sem compreender o que está acontecendo, é forçado a lutar pela sua sobrevivência em meio a uma dinâmica que envolve uma dívida ao tráfico, gângsteres russos e uma policial corrupta. Ladrões é um filme que suscita novamente duas das perguntas feitas no primeiro parágrafo — “onde está o autor?” e “o que aconteceu com os gêneros cinematográficos?”. Se nos filmes anteriores, a presença de Aronofsky já se situava à margem, aqui, ela se torna ainda mais difusa. Além disso, ao combinar humor, violência e suspense, também reconfigura a experiência baseada em gêneros, tensionando as convenções e as expectativas do público.

Diante de uma presença cada vez mais difusa do autor — que se observa na maior parte do mainstream cinematográfico —, qual seria o novo papel atribuído ao espectador? Esgotar seus esforços tentando procurar as marcas de um suposto autorismo, para assim atribuir valores, ideias e sentidos próprios? Ou simplesmente se deixar impactar por elas, uma vez que se subordinam meramente à narrativa? Por exemplo, a forma como a violência é encenada em Ladrões — que em muito se difere de uma ação marcada por coreografias estilizadas, efeitos especiais e uma consequência simbólica quase nula — poderia ser diluída na estrutura de um thriller policial como mero recurso narrativo? Fui levado a me questionar sobre isso ao olhar para as mais diferentes reações das pessoas durante a sessão de cinema — sugerindo um impacto que se prolongará mesmo após o término da sessão.

Em relação aos gêneros cinematográficos, Ladrões é bem-sucedido conforme consegue combiná-los de maneira fluida e orgânica, em oposição a uma maioria contemporânea marcada por hibridizações mal sucedidas. Darren Aronofsky utiliza o trauma do protagonista, relacionado ao acidente e à perda, como reforço narrativo, o que dá uma dimensão psicológica à narrativa — estabelecendo a potência do thriller, assim como em Cisne Negro. A montagem acelerada e a trilha sonora contribuem simultaneamente com o ritmo e a atmosfera, elementos fundamentais para consolidação do eixo estruturante da narrativa. Em certa parte do filme, quando Hank para de fugir e decide finalmente encarar seus inimigos — e também seus traumas —, há uma inflexão de ordem sensorial (de um turbilhão psicológico para uma fisicalidade crua), tornando a experiência ainda mais visceral e entregando um final genuinamente empolgante.

Mas, de longe, o maior mérito do filme é a representação da dor. Hank, como ex-promissor fenômeno do beisebol, sofre de uma que é física e simbólica: as sequelas do acidente que interromperam o seu sonho. E Darren Aronofsky se utiliza de diversos recursos para fazer ecoar essa dor, como a repetição — direta e indireta — das imagens do acidente, ou uma nova perda decorrente da primeira — o trauma gera um vício, que gera uma nova perda. A persistente exposição da dor de Hank, crua, se manifesta como um procedimento invasivo, que não respeita nem a integridade de seu corpo — literalmente, já que em decorrência de uma violência, ele tem um rim arrancado —, nem de sua alma. E é nessa capacidade de penetrar no interior do protagonista que Ladrões se destaca, removendo uma espécie de lacre invisível que costuma blindar os personagens – uma blindagem formada por camadas de artifício que suprimem o conflito, a fragilidade e a dor -, e impondo uma honestidade que é brutal, sem filtros e sem refúgios. 

Em Ladrões (2025), Darren Aronofsky demonstra no cinema mainstream valores que são caros até mesmo ao cinema mais autoral. Em meio a tantas temáticas desimportantes, propostas estéticas vazias e uma crescente comoditização do espectador como mero consumidor, o cineasta traz uma obra que nem precisa ser complexa para ser um diferencial. Aronofsky, ao mostrar que ainda existe espaço para o autor em Hollywood, mesmo que à margem, ressignifica a experiência cinematográfica, tanto do ponto de vista de quem cria quanto de quem recebe. Em tempos em que Christopher Nolan e Denis Villeneuve são celebrados como autores, é muito importante oxigenar o debate sobre o que isso realmente significa.

Pôster do filme Ladrões Filme: Ladrões 
Elenco: Austin Butler, Regina King, Zoë Kravitz, Matt Smith, Liev Schreiber
Direção: Darren Aronofsky
Roteiro: Charlie Huston
Produção: EUA
Ano: 2025
Gênero: Suspense Policial, Comédia
Sinopse: Hank Thompson é um ex-promissor fenômeno de beisebol que precisou abandonar a sua carreira após um acidente de carro. Certo dia, Hank é atacado e, sem compreender o que está acontecendo, é forçado a lutar pela sua sobrevivência em meio a uma dinâmica que envolve uma dívida ao tráfico, gângsteres russos e uma policial corrupta.
Classificação: 16 anos
Distribuidor: Sony Pictures
Streaming: Indisponível
Nota: 8,0

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