CRÍTICA – QUARTETO FANTÁSTICO: PRIMEIROS PASSOS

CRÍTICA – QUARTETO FANTÁSTICO: PRIMEIROS PASSOS

Quarteto Fantástico: Primeiros Passos (2025), dirigido por Matt Shakman, traz ao Universo Cinematográfico Marvel (UCM) o frescor da simplicidade cartunesca que alegra e, como os super-heróis fazem, inspira. A proposta retrofuturista carrega consigo, além do design de produção charmoso por si só, uma narrativa objetiva e romântica que é basilar de muitos desenhos animados: o apelo ao ideal da família e a impressionabilidade inerente aos super-heróis, tanto em um sentido emocional, relacionado ao sacrifício e à coragem, quanto em um sentido mais direto e pictórico, os superpoderes e as “super-situações” — ou seja, uma mescla contemporânea de Os Jetsons (1962-1963) com os Super Amigos (1973-1974). Esse retorno às narrativas dos desenhos dos anos 1960-1970 faz com que a trama em si seja bastante familiar, mas o carisma dos atores torna toda a experiência divertida, a roupagem grandiosa possibilitada pelas possibilidades de efeitos visuais contemporâneos impressiona e há uma ludicidade interessante nos pequenos detalhes, algo em falta nos filmes recentes do estúdio.

No filme, Reed Richards (Pedro Pascal), Sue Storm (Vanessa Kirby), Johnny Storm (Joseph Quinn) e Ben Grimm (Ebon-Moss Bachrach), quatro anos após ganharem seus poderes e serem reconhecidos mundialmente como o Quarteto Fantástico, precisam defender a Terra de Galactus (Ralph Ineson), uma entidade cósmica que decidiu devorar o planeta, e de sua arauta, a Surfista Prateada (Julia Garner). No entanto, Sue Storm está grávida — e uma parte fundamental do filme gira em torno da proteção do bebê. Não à toa, o subtítulo é “Primeiros Passos”, pois a chegada do novo membro da família é o ponto de partida dessa história e prenúncio de um futuro misterioso. O início, que gira em torno do anúncio da gravidez, tem proximidades com sitcom, gênero que o diretor já demonstrou conhecimento com seu trabalho prévio na Marvel, Wandavision (2021). A dinâmica familiar entre os personagens é rapidamente assimilada pelo carisma dos atores, e os diálogos leves e cômicos garantem o convencimento de um lar unido.

Aliás, um detalhe que acrescenta muito à leveza do início é a trilha musical de Michael Giacchino, que traz uma boa presença de coro feminino em stacatto, como se fossem notas pulando de alegria ao ver o quarteto indo salvar o dia. A própria música tema é construída a partir das sílabas “Fan-tas-tic Four”; mais simples que isso impossível, mas há beleza no singelo. Quanto à instrumentação, as trompas pomposas anunciam os heróis, os floreios dos flautins dão aquela pitada de sonoridade sci-fi, o conjunto de cordas traz um crescendo épico e ainda tem uma pitada de sintetizadores para a ambientação retrofuturista. Dentre o rol de temas musicais do UCM, certamente é uma das mais memoráveis.

Na sequência, chega a Surfista Prateada anunciando a vinda de Galactus. O mundo fica em alerta e, quando a arauta vai embora, o Quarteto Fantástico decide fazer uma viagem hiper espacial atrás dela. A admiração da população ganha mais foco aqui, junto com os sorrisos das crianças e dos adultos e a exímia cooperação internacional, o que reitera o teor esperançoso, cândido e utópico do filme. Curioso o lançamento de dois filmes hopecore de super-heróis neste mês de julho, Quarteto Fantástico e Superman (2025), de James Gunn, sinal de uma necessidade em dar um passo para trás e se atentar ao que vem sendo perdido na contemporaneidade. Superman toca na ferida, aponta o dedo aos problemas inerentemente atuais e defende a postura de esperança como espada e escudo, já Quarteto é um retorno à poderosíssima força primordial do amor de mãe (sugiro, após assistirem o filme, escutarem a última música do álbum do Quarteto Fantástico para abrirem um belo de um sorriso de criança) — um filme que te permite sonhar com o mundo altivo pela frente.

Voltando à viagem hiper espacial atrás de Galactus, as referências aos anos 1960 e 1970 continuam; Shakman exibe sua nítida mescla de 2001: Uma Odisseia no Espaço (1968), de Stanley Kubrick, com o aceno ao encaixe da nave no propulsor hiper espacial, e Star Wars (1977), de George Lucas, com os interiores da nave, o que já diferencia drasticamente dos demais filmes espaciais da Marvel, como Guardiões da Galáxia (2014), de James Gunn, e suas continuações. Não só a construção da espaçonave do Quarteto é menos “realista” para esse que se tornou padrão da Marvel, mas a representação do espaço se aproxima mais de “filmes de ficção científica” propriamente ditos. Até porque, em teoria, quase todos os filmes do UCM são de ficção científica, mas na prática quase nenhum deles realmente traz um fascínio da imensidão do espaço e de suas anomalias; o próprio Vingadores: Guerra Infinita (2018), que tem sequências no espaço, aproxima-se muito mais de um terreno mágico e fantasioso que espacial. Quarteto, portanto, ao aludir à essas ficções científicas antigas, se destaca pela representação do espaço.

A partir desse momento da trama, ocorrem revelações relevantes e não exibidas nos trailers, então não entrarei nisso. Basta dizer, para concluir o destaque da seção espacial do filme, que a cena de ação que ali ocorre é das mais caprichadas visualmente e narrativamente, pois a grande magnitude da escala impressiona e a tensão é elevadíssima por uma determinada situação. A decupagem de Matt Shakman é clean, com planos que valorizam mais a composição particular de uma cena do que movimentos de câmera, e a fotografia de Jess Hall também merece destaque nisso. A sensação que passa é a de que é uma fotografia de fora do UCM, mais próxima de contemporâneos como Gravidade (2013), de Alfonso Cuarón (tem um plano específico em Quarteto Fantástico que lembra muito a posição fetal da protagonista de Gravidade), e Alien: Romulus (2024), de Fede Álvarez — que tem uma iluminação de cores intensas. Para um estúdio que sempre foi criticado por não ter um alcance de cores muito amplo, Quarteto Fantástico acaba por ajudar a mudar essa maneira de iluminar.

Por fim, a seção final do filme impacta menos. Ainda que a simples questão do bebê eleve todo o perigo que existe, e seja base para uma cena bem bonita, impacta menos que a inventividade do início e do meio — parece que se perdeu aqui. Os poderes dos personagens na batalha são o destaque, mas é como se uma peça tivesse construído muito bem o seu palco, com riqueza de detalhes no cenário e nos objetos cênicos, só para partir para uma briga de rua na garagem do lado de fora. Acredito que essa será a parte do filme que mais receberá críticas, ainda mais considerando a afeição que muitas pessoas têm às histórias do personagem Galactus. Eu, que não conheço, não me importei com a maneira como o filme conclui a batalha, mas sabemos como os fãs de quadrinhos são quando o assunto é fidelidade ao material fonte. Tentando evitar spoilers, a resolução me parece perfeitamente justa se considerarmos como os episódios de séries animadas, como Super Amigos ou, mais da minha época, Liga da Justiça (2001-2004), resolvem seus problemas.

Quarteto Fantástico é um lançamento refrescante para o UCM, com qualidades distintas que o separam do amálgama de desastres que vêm sendo produzidos nessa última fase do estúdio. Estabelece muito bem um grupo de personagens que poderiam muito bem continuar afastados do multiverso Marvel em uma ou duas continuações próprias. Preocupante é o fato de que o próximo filme já é Vingadores: Doomsday (2026), de Joe Russo e Anthony Russo, porque a novidade vai passar a fazer parte de uma bagunça multidimensional que Kevin Feige jura que irá se resolver com os filmes dos irmãos Russo. Poderia esse ser o primeiro filme do MCU, lá em 2008, e, assim, teríamos uma linha do tempo nova e distinta, com visuais criativos e, principalmente, paciência para escalar a dimensão dos problemas, como fez Jon Favreau com seu pontapé inicial em Homem de Ferro (2008). Pena que, com quase duas décadas de franquia, a pressa em emplacar um novo Vingadores: Ultimato faz com que a quantidade seja priorizada em detrimento da qualidade. O simples fato de eu estar escrevendo sobre os próximos filmes da fase da Marvel já é sintoma do problema que o próprio estúdio criou. Só nos resta torcer por algumas mudanças de planos para que deem mais espaço a filmes como esse, que se abrem para a diversão juvenil e, é claro, o fantástico.


Pôster do filme Quarteto Fantástico: Primeiros Passos Filme: Quarteto Fantástico: Primeiros Passos
Elenco: Pedro Pascal, Vanessa Kirby, Joseph Quinn, Ebon Moss-Bachrach, Ralph Ineson, Julia Garner
Direção: Matt Shakman
Roteiro: Josh Friedman, Eric Pearson, Jeff Kaplan, Ian Springer
Produção: EUA
Ano: 2025
Gênero: Aventura, Ficção Científica
Sinopse: A história acompanha um grupo de astronautas que passa por uma tempestade de raios cósmicos durante seu voo experimental. Ao retornar à Terra, os tripulantes descobrem que possuem novas e bizarras habilidades. Ao tentar compreender suas mudanças, eles terão que lidar com novas ameaças que testam seus verdadeiros poderes.
Classificação: 12 anos
Distribuidor: Walt Disney
Streaming: Indisponível
Nota: 7,0

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