PAGTEN

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Em seu primeiro encontro com o poeta Thorkild, Karen Blixen diz: “Todas as pessoas brancas têm um medo dentro dela. O medo de desagradar”. Para ela, que teve uma vida cheia, de constante movimento e audácia, tentativas de bajulação são o sinal de uma alma pequena. No ponto do tempo em que o filme “O Pacto” se passa, Blixen já era uma instituição da literatura dinamarquesa, seu livro “A Fazenda Africana”, publicado em 1937 (cuja adaptação cinematográfica “Entre Dois Amores” (1989) ganhou o Oscar de melhor filme) transformou ela em uma autora mundialmente famosa (outras adaptações de obras delas contam com filmes como  “A Festa de Babette” (1987) e o ótimo e infelizmente pouco assistido “História Imortal” (1968), dirigido por Orson Welles).

Thorkild, que já é publicado, mas não possui recursos financeiros além do salário de sua esposa para se suportar, se excita com a possibilidade da mentoria de uma autora do nível de Blixen. Ela vê potencial no jovem autor, e gradualmente eles se tornam mais próximos, até que em uma ocasião, Blixen lhe faz uma proposta: um pacto de confiança mútua. O que Thorkild acredita que seria apenas uma oportunidade de melhorar suas habilidades como escritor, se torna algo que vai muito além disso.

Blixen diz que fez um acordo com o diabo, com o seu pagamento, sendo que ela tem que transformar tudo que acontece em volta dela em uma história, e logo fica claro que o pacto é um elemento desse aspecto da personalidade de Blixen. Inicialmente, as condições impostas são simples. Após bater sua cabeça em uma queda (que Blixen diz ter causado através do uso acidental de mágica), Thorkild se muda temporariamente para a casa de Blixen para se recuperar e se concentrar em sua escrita.

Porém, com o passar do tempo, as exigências se tornam cada vez mais invasivas, como quando Blixen sugere que um caso extraconjugal lhe faria bem, pelo benefício de parcialmente liberar a mente dele da moralidade de pequena burguesia (“Se eu fosse 25 anos mais jovem… nós iríamos para Veneza para uma lua-de-mel”, ela diz à Thorkild.). As coisas se tornam ainda mais voláteis com a presença da esposa do empresário que patrocina a produção artística de Thorkild.

Tecnicamente, o filme é regular. A fotografia é mais que adequada, nunca tentando distrair dos atores. A direção de Bille August, realizador de “A Casa dos Espíritos” (1993), também é adequada, com um grande foco em permitir que os atores sejam o centro da ação.

Em dramas desse tipo, a performance dos atores pode fazer ou matar a produção, o que é fortuito neste filme, já que os dois atores principais fazem um ótimo trabalho. Simon Bennebjerg, interpretando Thorkild, transmite idealismo e um certo grau de inocência na medida certa, conseguimos perceber como que sua vontade de agradar o seu ídolo e sua vontade própria estão em constante conflito, e toda a dúvida e sofrimento que este conflito gera dentro dele.

A atuação de Birthe Neumann, conhecida por sua participação em “Festa de Família” (1998) como Karen Blixen, no entanto, é o grande elemento do filme. Ela interpreta Blixen como sendo alguém basicamente libertada de toda e qualquer inibição, ela casualmente menciona para Thorkild dizer para a sua esposa que sua sífilis não seria transmissível para o filho do casal quando ela estava interagindo com ele. Mas diante dessa face de alguém que conquistou todas as apreensões de sua vida, há uma pessoa que sente dor por ter tido que ver morrer todos aqueles que ela já amou.

Isso é mostrado com grande habilidade por Neumann em uma cena onde Thorkild diz que um amigo dela, mencionado no livro, que morreu em um acidente de avião, o lembrou de um trecho de um poema de Goethe, o que faz que Blixen pedir para ele proclamar tal trecho. Ao ouvir a proclamação, a sua fachada de frieza é demolida, e ela não consegue evitar chorar.

“O Pacto” é uma interessante exploração de um relacionamento entre dois artistas, mesmo que essa exploração não seja tão profunda quanto suas aspirações. Mas para aqueles que não se importam com um ritmo mais relaxado, há boas recompensas a serem testemunhadas.

 

Filme: Pagten (O Pacto)
Elenco: Birthe Neumann, Simon Bennebjerg, Nanna Skaarup Voss, Asta Kamma August, Anders Heinrichsen, Marie Mondrup, Kurt Dreyer
Direção: Bille August
Roteiro: Christian Torpe, baseado no romance de Thorkild Bjørnvig
Produção: Dinamarca
Ano: 2021
Gênero: Drama, Biografia
Sinopse: A famosa autora Karen Blixen conhece o poeta Thorkild Bjørnvig, os dois criam uma intensa e turbulenta amizade.
Classificação: 14 anos
Distribuidor: A2 Filmes
Streaming: Indisponível
Nota: 7,5

*Estréia dia 7 de abril de 2022 nos cinemas*

 

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