CRÍTICA – CASAMENTO SANGRENTO: A VIÚVA

CRÍTICA – CASAMENTO SANGRENTO: A VIÚVA

Casamento Sangrento (2019) se tornou um marco praticamente instantâneo dos filmes de terror contemporâneos, seja pela icônica identidade visual da protagonista, seja pelo carisma que embala a história, com seus personagens excêntricos e premissa absurda. Pelo modo como encerrou, pensar numa sequência não seria uma ideia tão fora da curva: afinal, como as coisas seguiram após toda aquela sanguinolência? É o que descobrimos ao assistir Casamento Sangrento: A Viúva, que, infelizmente, só trisca na qualidade de seu antecessor.

O filme, ainda dirigido pela mesma dupla de diretores (Matt Bettinelli-Olpin e Tyler Gillett), até consegue emular aquele mesmo teor de humor inusitado do longa de 2019, contudo, peca pelos seus excessos. O problema não está em maximizar os elementos que deram certo outrora, mas sim na perda da essência do que fez Casamento Sangrento ser um marco pop. Isso porque, ao mesmo tempo em que o filme busca ser direto em sua ideia, à medida que a narrativa avança, a tentativa de fazer vingar várias subtramas para tentar camuflar o vazio do roteiro torna-se cada vez mais clara — e ridícula.

Temo soar repetitiva ao escrever, em vários textos, que “o menos é mais”, mas é inevitável: o maior pecado de muitos filmes atuais, sobretudo no gênero do Terror, é justamente querer enfeitar demais, quando o simples já funciona muito bem, sem muita firula, ou moda desnecessária. O próprio Casamento Sangrento (2019) teve um hype mais do que merecido pelo fato de ter êxito em fazer algo grandioso e cativante em meio a uma premissa simples. Outro ótimo exemplo de que o menos é mais é Sick (2022), que, com uma proposta, aliás, bem similar, também consegue cativar muito o espectador (ainda mais por trazer personagens inteligentes em filmes de terror, o que, sabemos, é algo raro).

Ok… Não esqueçamos que estamos falando sobre a sequência de um filme cuja recepção foi muito calorosa pela maior parte dos amantes de cinema. Como não “enfeitar”? Talvez a resposta consistisse em não cingir o filme com tantos arcos — ora desinteressantes, ora cansativos — voltando o foco justamente para o que interessa: ao jogo de gato e rato, à dinâmica de sobrevivência. O filme cresce muito quando explora toda a tensão acerca desse pique-esconde mortal, talvez porque seja o que mais remeta à alma do filme antecessor, e também porque é quando ocorrem as melhores cenas.

A inserção da irmã não agregou muito à história — a verdade é que ela nem faria falta se não estivesse no filme, estando ali somente por conveniência de roteiro bem “da descarada”. Vale dizer que as cenas mais irritantes e enfastiantes são as que trazem alguns longos diálogos entre as duas, numa tentativa fracassada de um melodrama que não vinga; seja pela ausência de uma maior conexão cênica entre as atrizes, cujas atuações estão em níveis absurdamente discrepantes (Samara Weaving, né? Tem que ser páreo, algo que a atriz Kathryn Newton não deu conta), seja pela repetição de frases para explicar mil vezes o que já entendemos, eu juro: já entendemos!

Os demais personagens coadjuvantes têm seu mérito. Vamos de um playboy magnata de roupão que usa até capinha de chuva para se proteger dos próximos banhos de sangues de cabeças explodindo (o que, sim, consegue ser bem engraçado pelo fator da imprevisibilidade), a um moleque que só quer saber de jogar no celular e comer — achamos que ele terá maior relevância em algum momento da trama mas, assim como boa parte dos demais personagens, fica só na promessa. Há até uma ex do falecido marido de Grace, o que acaba culminando numa cena um tanto forçada de um embate físico ao som de “Total Eclipse of The Heart”.

Samara Weaving continua icônica e carismática como Grace: a escolha de mantê-la usando o vestido sujíssimo de sangue foi um acerto e tanto, já para consolidar a marca registrada da personagem (como uma Tiffany de Chucky, cuja roupinha também é inconfundível), mesmo que agora ela não seja mais noiva, e sim viúva. A personagem segue sendo uma referência feminina de força psicológica e física, ao nunca perder o ímpeto de lutar pela sua vida e de sua irmã, e ao escolher seguir incorruptível em meio às propostas esdrúxulas da seita satânica.

Há uma dupla de irmãos, Ursula e Titus, que são canastrões num nível de exaurir. As diversas cenas de diálogos entre eles são bem ruins, deixando a impressão de que o intuito de inseri-los de maneira tão insistente seria para reforçar o quão longe os integrantes daquela seita satânica estariam dispostos a ir para alcançarem e se manterem no poder, passando inclusive por cima dos próprios familiares para conseguir o topo. No entanto, os minutos finais do filme (muito bons, diga-se de passagem), já seriam o suficiente para imprimir essa ideia de maneira sucinta e marcante — realmente, muito marcante.

Casamento Sangrento: A Viúva tem seus bons momentos, ainda que funcionem melhor de maneira isolada. O timing cômico de algumas situações é excelente, enquanto o gore está em maior evidência — se tinha quem reclamasse que o filme de 2019 foi contido nesse sentido, essa sequência serve um prato ainda mais cheio de muito sangue e violência. Lamentavelmente, soa genérico e canastrão num nível descomedido na maior parte do tempo, trazendo personagens com menor imponência em relação ao primeiro filme; e uma expansão de universo até interessante, mas não tão bem explorada. Não é uma sequência odiável, mas também não faria diferença se não tivesse existido.


Filme: Casamento Sangrento: A Viúva
Elenco: Samara Weaving, Kathryn Newton, Sarah Michelle Gellar, Elijah Wood, Shawn Hatosy, David Cronenberg, Néstor Carbonell, Kevin Durand, Olivia Cheng
Direção: Matt Bettinelli-Olpin, Tyler Gillett
Roteiro: Guy Busick, R. Christopher Murphy
Produção: Estados Unidos
Ano: 2026
Gênero: Terror, Comédia
Sinopse: Após sobreviver ao massacre da família de seu marido, Grace se vê novamente envolvida em um jogo mortal, agora sendo caçada por poderosas famílias que precisam sacrificá-la para manter sua riqueza e influência.
Classificação: 18 anos
Distribuidor: Searchlight Pictures
Streaming: Indisponível
Nota: 5

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