CRÍTICA – BACKROOMS: UM NÃO-LUGAR

CRÍTICA – BACKROOMS: UM NÃO-LUGAR

Não fui um dos mais ativos em relação ao universo das Backrooms quando estava ganhando popularidade. A questão do espaço liminal já havia me conquistado pelas imagens, propostas, mas nunca fui ativo das creepypastas. Antes de ir assistir o filme, fiz a lição de casa e assisti um bom número das produções para o YouTube do diretor do filme. É impressionante um jovem de dezesseis anos com tanta criatividade conseguir moldar todo um universo narrativo e com digna qualidade. Não havia me interessado de início, mas dado aos comentários positivos de pessoas próximas, me dei o lazer de ir aos cinemas assistir ao longa-metragem.

Foi uma experiência bem única. Aproveitando-me dos dias nublados, encontrei uma sessão as 22 horas na noite de um domingo no shopping. Clima frio, transitei de uma cidade para outra retornando de um final de semana comemorando o Dia dos Namorados. A ambientação começou tanto na estrada antes quanto na estrada pós filme. Neblina para todos os lados, relembrando até mesmo o universo de Silent Hill. No cinema? Bom, junto de Sonic e Tron, foi uma sessão singular: eu estava sozinho na sessão. Somente eu e o filme. Acabou meia noite. Shopping fechado, somente alguns seguranças pingando aqui e acolá. Estava em meu próprio espaço liminal, absorvendo o que fora uma experiência bem singular.

A proposta aqui é bem simples e direta: Clark (Chiwetel Elijofor) vive uma depressão pessoal por não superar o divórcio, caindo no alcoolismo e simultaneamente vendo a decadência da sua loja de departamento que não recebe nenhum cliente. Busca ajuda com a terapeuta Dr. Mary Kline (Renate Reinsve). Clark investigando quedas e picos de energia aleatórias da loja (pois está morando nela), ao descer no subsolo da loja, encontra uma “falha” nas paredes que o leva as Backrooms, descobrindo um labirinto infinito de espaços familiares, mas simultaneamente estranhos, esquisitos. Empolgado com a descoberta, chama seus dois funcionários Kat (Lukita Maxwell) e Bobby (Finn Bennett) para explorar e filmar esse ambiente novo.

No âmbito mais técnico, as atuações – focando em Chiwetel e Renate que são os atores com mais tempo de tela, estão peculiarmente muito bem em seus papéis. Suas reações ao que envolve o contato com esse elemento “sobrenatural”, ao adentrar e explorar esse espaço liminal e as suas reações envolvendo os textos pessoais de suas personagens – cada um com seus próprios traumas e problemas – convencem. É sempre difícil encontrar a linha tênue de expressão quando as personagens se deparam com algo ficcional no terror, é bem possível haver uma quebra da imersão quando as atuações vão direto ao caricato ou abraçam em demasia a normalização daquilo que é esquisito. Em Backrooms é na dose correta, mantendo-nos fisgados enquanto as personagens exploram os espaços liminais e lidam com suas questões pessoais.

Em uma proposta que teria tudo para sair pela culatra, dado a resultados questionáveis de iniciativas parecidas, como a do próprio Slenderman que nasce do mesmo modelo de produção – fica aqui o link para assistir a série do canal Marble Hornets que deu origem a toda mitologia da criatura – e o filme se afasta por completo da proposta original, Backrooms se garante e se mantém fiel ao que Kane produzia para o YouTube, porém com muito mais orçamento e qualidade de produção. Caso esteja interessado, fica aqui o link também de seu canal para assistir aos conteúdos prévios de Backrooms feitos por ele. É importante o fato de que os filmes é canônico no universo Backrooms narrativamente se conectando as produções anteriores.

O filme, aliás, une a proposta original de filmagens found footage com planos abertos externos as personagens, mesclando as duas estéticas e se mantém canônico aos eventos prévios das produções narrativas anteriores de Kane no YouTube. Daí advém a assertividade do projeto, pois se mantém “fiel” ao que fora criado previamente, além de estar sob direção do próprio principal criador de conteúdo em relação aos Backrooms. Mas, bom, chega de introduções e vamos para o filme de uma vez, não?

“É tipo descrever um cachorro para alguém que nunca viu um. Você pede para desenhá-lo. Pode ficar parecido, mas ao mesmo tempo ficará estranho…”.

Essa é a frase do filme que resume muito a sensação de observar os cenários e ambientes das Backrooms. É familiar, mas esquisito. É a expressão do famoso Uncanny Valley, ou Vale da Estranheza. Seu terror origina-se desse conceito e explora muito bem em seus espaços levemente familiares, mas simultaneamente distantes demais para ser algo confortável. Segue toda uma tradição desses espaços, relembrando até mesmo o charmoso e singular Black Lodge do universo de Twin Peaks, com devaneios, entidades, luzes e ambientes estranhamente esquisitos e familiares. Porém, caminha longe do ambiente onírico, até mesmo se afasta de possíveis interpretações do surrealismo, pois nem é mesmo sua proposta, mas talvez um pouco mais de pitacos surrealistas agregasse ao ambiente em sua imersão.

Pois, Backrooms em sua grande parcela se trata do espaço, ele é a chave. Geralmente não sou muito fã de subtítulos – ainda mais quando são inventados para complementar o título original, mas nesse caso a tradução brasileira escolhera um termo perfeitamente preciso: “não-lugar”. Esse ambiente não fixo, de não consolidação dos indivíduos, esse ambiente que é pura transição entre um espaço e outro. É aterrorizante a sensação ao se encontrar preso em um “não-lugar” e todos em algum momento experienciaram isso em suas vidas: é relembrar do dia em que o carro deu algum problema na rodovia e você ficou lá parado aguardando o resgate para poder chegar em um lugar. Você está entre os espaços, entre os ambientes que são dotados de significados e historicidade, a rodovia é pura transição, um espaço meramente logístico de ir e vir dos indivíduos sociais. A sua paisagem visual é repetitiva, cíclica, ainda mais se for a noite, em que as soluções são mais difíceis e demoradas para acontecer. Em Backrooms é um espaço liminal ficcional, porém ambientado em conceitos concretos, pois é um ambiente de eterna transição que para aterrorizar dobra suas apostas e perigos a cada novo segmento que é explorado por aqueles que ousam conhecer suas vias labirínticas.

Daí, então, advém um dos aspectos mais criativos do longa-metragem narrativamente: o ambiente manifesta entidades que também reforçam o vale da estranheza, figuras humanoides que possuem distorções físicas, faciais e comportamentais que assustam e geram tensão. Mas, essas entidades e/ou monstros – não gosto muito dessa definição de monstro, pois, não exercem a mesma função que o monstro tradicional (Frankenstein, Drácula, Lobisomem etc.). possuindo parâmetros diferentes, não existindo nem mesmo equivalência na relação de perseguição ou ameaça. Agora tanto as entidades quanto o espaço refletem as memórias, sentimentos e percepções daqueles que adentraram ou coexistem próximos das Backrooms. É um espaço que manifesta esses pensamentos/ideias/vontades internas dos indivíduos e aqui reside o brilhantismo, pois o aspecto principal de espelhamento das Backrooms são as memórias, essa é a palavra-chave. É como se o espaço absorvesse as memórias dos indivíduos que transitaram dali e manifesta uma distorção espacial ou corporal.

E a memória muitas vezes é distorcida, rarefeita e comprovadamente imprecisa, ocorrendo falhas, mudanças, alterações, inserções e adaptações dos eventos, momentos, pessoas, rostos, músicas e objetos. Há uma genialidade quando adentramos nas memórias da personagem de Mary e a residência de infância que viveu, observando cada etapa de mudança daquele quarto nesse “não-lugar”, esse ambiente de transição que manifesta essa absorção, até que aquele espaço próprio se anula, eliminando qualquer resquício da “verdade” ou da primeira impressão memorial daquele espaço, restando o nada, o vazio, aquilo que não é fixo, aberto inclusive para manifestar novos espaços e ambientes pela memória estar distante. A memória é, aliás, um espelhamento do “não-lugar”, pois por mais individual que ela seja aos indivíduos, dotada de pessoalidade, ela está sujeita ao distorce-se, pois não é fixada em nossas mentes, recheada de imprecisões e imperfeições, e pela sua pessoalidade, sofre de uma parcialidade da interpretação do indivíduo. Assim, as possibilidades criativas para explorar esses conceitos é singular, única e com um potencial interessantíssimo.

Então, ao se defrontar com as entidades, Clark compreende essa distorção. Em algum lugar dali deve existir a forma “original” daquele indivíduo, daquela entidade, a pessoa “verdadeira” que adentrou as Backrooms, ali é testemunhado um eco, um suspiro macabro e assustador desse ambiente que absorve e manifesta essas distorções.

Daí surge outro aspecto de exímio textual e imagético do longa-metragem que são os delicados detalhes. Esse “não-lugar” reflete as indecisões, as imprecisões e os conflitos até mesmo naquilo externo as Backrooms, pois a própria figura de Clark é confusa e transitória. Não decide sobre a própria identidade de sua loja, pois o personagem “mascote” da loja é um pirata ou um sultão? O próprio nome incorpora esse conflito decisório: Ottoman Empire (Império Otomano), mas a mascote é um pirata aos moldes caribenhos. Esse recurso simbólico dos objetos, dos símbolos e do texto é utilizado para exposições metafóricas, injeções de sugestões que incitam o público a querer saber mais e, manter-nos atentos a esses pequenos lapsos que surgem como mistérios e muitas vezes com insípidas respostas.

Ah, mas, então é um monte de mistérios sem respostas? Sim, e que bom que as respostas não são entregues, pois eliminaria qualquer potencial interpretativo e discussões sobre o assunto, impedindo a frustração do saber e uma resposta que pode ser muito bem insuficiente para a expectativa que é colocada em cima das perguntas. Logo, é um instrumento que reforça a narrativa e toda a mística ao redor esse universo ficcional. Esse controle dos pequenos detalhes mostra a qualidade do diretor Kane Parsons que tem sua estreia aos seus 21 anos de idade e se mostra superconfortável no papel que teve que exercer, ainda mais lidando com atores veteranos e entendendo a construção, cadência e roteiro de uma produção cinematográfica bem distante da “zona de conforto” dos vídeos de YouTube.

A interação entre Clarke e Mary no “jantar” em que se expõe esses conceitos do universo, o aspecto da memória é a chave por desafiar o próprio público, fugindo de explicações expositivas exaustivas, caminhando por uma busca do público incitar perguntas e encontras as próprias respostas e a mesma coisa vale para Mary e a interação com toda a parte dos pesquisadores. Aquilo que antes acabava-se quase como norma hoje surge como inovação, nesse quesito de não cair nas mesmices expositivas ou pegar pelas mãos o público e esmiuçar minúcia por minúcias dos funcionamentos desse universo ficcional. A busca pelo contemplar, questionar e injetar as dúvidas causam uma impressão que promove a busca por mais informações nas redes sociais, vídeos e fóruns de discussão.

O ponto mais fraco do filme é a perseguição que ocorre em suas minutagens finais, caindo na lógica do monstro e sobrevivente. Tem tomadas criativas, cenários curiosos e uma tensão que fica longe de promover qualquer adrenalina pelo destino da personagem em si. É contraditório a lógica da contemplação, em que o horror e o terror se manifestam pelo espaço e sugestão. A criatura é criativa, é impressionante o fato dela ser toda em efeitos práticos, interpretada por Robert Bobroczkyi que também deu vida a criatura perturbadora no final de Alien Romulus (2024). Mas, a meu ver, uma quebra de ritmo que me deixou querendo mais dos mistérios e menos a lógica de correria para lá e para cá da personagem visando sua sobrevivência.

O saldo de pouca expectativa aqui foi muito bom, pois esperando quase nada me foi entregue bastante. Atuações, fotografia, trilha sonora e o texto (seu ponto mais alto) geraram um excelente filme de terror longe das propostas tradicionais que estamos acostumados a ver sair todos os anos massivamente no gênero de terror. Há muito potencial para ser explorado e aguardemos para ver a qualidade de futuros títulos no universo de Backrooms. Vale colocar o nome de Kane Parsons dos diretores para se manter atento a ir assistir no cinema seus futuros títulos e que sua carreira seja de mais sucessos do que falhas. Fico feliz de ver uma nova geração chegando nas telonas para promover mais respiros no gênero de terror e provar que pelo menos em alguma parcela o cinema ainda vive e respira…


Filme: Backrooms (Backrooms: Um Não-Lugar)
Elenco: Chiwetel Ejiofor, Renate Reinsve, Mark Duplass, Finn Bennett, Lukita Maxwell, Robert Bobroczkyi
Direção: Kane Parsons
Roteiro: Kane Parsons, Will Soodik
Produção: Estados Unidos
Ano: 2026
Gênero: Suspense, Terror
Sinopse: Um jovem vê seu grande desejo se realizar abruptamente, mas logo se depara com consequências sombrias.
Classificação: 16 anos
Distribuidor: Imagem Filmes
Streaming: Indisponível
Nota: 9,0

Sobre o Autor

Share

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *