O Poder da Música. Mas não no sentido amplamente genérico no senso comum de vê-la como uma força universal que une as pessoas. Em Michael (2026), o poder da música reside não só em maquiar o vazio, mas em abastecer um filme morto de ideais — e praticamente insignificante quanto ao uso da linguagem cinematográfica — sendo agraciado pelas eletrizantes músicas de um rei que, infelizmente, tem aqui a sua força lançada à uma imagem excessivamente boazinha para alcançar um status de caça-níquel, cuja musicalidade traz emoção aonde não há substância.
Michael é um projeto de cinebiografia que vem sendo especulado desde 2019 — e visaria contar a história do Rei do Pop, desde a infância com os Jackson 5 (banda com seus irmãos gerida pelo pai abusivo), até seu rompimento familiar quando partiu para carreira solo; e o resto é História. Corta para 2026, e definitivamente não há o que falar quanto ao planejamento e organização da Lionsgate e Universal Pictures para confeccionar um produto “redondinho” com uma linguagem abrangente capaz de engajar rapidamente o público médio com um roteiro objetivo e fluido, agraciando uma nação inteira (seja fã, ou não), que foi, e ainda é, encantada pelo GOAT da música pop. O casting, que seria, em tese, o mais difícil para esse projeto, é rapidamente desmitificado quando Jaafar Jackson, sobrinho do próprio Michael, assume com maestria aquela que seria uma atuação das que mais exigiriam parcimônia e respeito para ser encarnada nas telonas. Mas não há com o que se preocupar: Jaafar domina com tranquilidade o papel de experimentar, e ao mesmo tempo celebrar, uma das figuras mais icônicas e específicas da modernidade.
Contudo, a direção de Antoine Fuqua (conhecido por dirigir filmes populares de ação como Dia de Treinamento e O Protetor, ambos com Denzel Washington) adota um uso do convencional levado ao extremo, impossibilitando qualquer profundidade, ao passo que escolhe uma abordagem tão segura que parece até ter medo de correr algum risco comercial — o que, vejamos, se mostraria impossível. O que é frustrante pois seria (e muito) merecido que o Michael tivesse ganhado algo à altura de sua complexidade. O filme de Fuqua é tão polido esteticamente quanto em termos de desenvolvimento de cenas e de história, o que fica nítido em certos momentos semelhantes a cutscenes de videogames, com uso exacerbado e artificial de tela verde, uma fotografia excessivamente clean, que parece ter avulsão à qualquer uso do granulado, e diálogos automatizados e óbvios, guinados a uma progressão à lá ChatGPT. A normatividade amplamente utilizada em todos os aspectos de Michael o torna uma cinebiografia tão rasa que, infelizmente, só pode julgá-lo como um produto enlatado e computadorizado com bênção da Wikipedia.
Um dos motivos da fraqueza leviana do filme reside no fato de que cláusulas e acordos jurídicos entre o estúdio e a família de Michael foram traçados para que se proibisse que certos assuntos fossem abordados. E pode-se dizer que isso caiu como uma luva para os produtores, uma vez que é enormemente mais seguro (financeiramente) esquivar-se de quaisquer polêmicas — logo, não espere em Michael sequer alusão à controvérsias ou discussões minimamente mais aprofundadas. Até mesmo a questão da vitiligo, doença que afetou na pigmentação da pele do cantor, é tratada com uma espécie de sigilo, com olhares pontuais e discretos (que duram segundos) para revelar uma suposta preocupação de Michael ao tentar esconder as manchas. A relação excessiva de Michael com animais — e a enorme “fazenda” com animais silvestres exóticos que ele passa a criar em sua mansão em Holmby Hills, Los Angeles — ilustra bem essa passividade ao tratar das peculiaridades de Michael, com uma aceitação acrítica da própria narrativa que rejeita qualquer problematização em detrimento da preservação da estrela protagonista.
Ora, Michael é sem sombra de dúvidas uma das mais fenomenais figuras a serem analisadas em sua completude, seja com ou sem polêmicas — muitas vezes inevitáveis quando se é uma celebridade estelar genial e única. Ele não era perfeito, como ninguém é. Muito menos merecia uma cinebiografia que o ponderasse ou julgasse, ou até mesmo que mencionasse as acusações de abuso sexual infantil que o cercaram. Contudo, seria muito mais saudável do ponto de vista ético e interpretativo que o uso da linguagem — ou seja, a maneira que o filme usa os elementos cênicos, narrativos e de montagem para dialogar ideias inconscientes ao espectador — partisse de uma ótica menos “comprada”. O projeto até poderia fazer menos dinheiro (prioridade máxima do estúdio), mas certamente ganharia camadas (inexistentes aqui) ao invés de operar em prol de uma limpeza enganadora do imaginário simbólico que se tem do artista. Entretanto, a intenção é realmente essa: com a família Jackson produzindo executivamente o filme e com um diretor competente exercendo o papel de fantoche, cria-se um grande white wash da figura que é uma das maiores vacas de ouro da contemporaneidade.
Às vezes faltam adjetivos, mas Michael Jackson é uma figura fascinante. Quem sabe, fascinante justamente por ser estranho. Isto é: por ser diferente. É muito chato ser “normal”. E Michael possuía o dom de propagar isso, pelo seu jeito de ser e por sua solidariedade. Era um Peter Pan do mundo real, com uma infância privada de muitas coisas e com um pai que o transformou em um workaholic. Sua dança e seus movimentos são irrecriáveis e, agora sim, no sentido genérico e do senso comum da coisa: revelaram como a música pode possuir um dom universal de unir as pessoas, e até nações. É fato que nos anos 1980, Michael adentrou em bairros periféricos e interagiu com membros de gangues para gravar clipes numa ação que visaria conciliar violência através de dança e música. O filme de Fuqua retrata isso da maneira mais limítrofe possível: o cantor entra no estúdio de sua mansão, pretende gravar alguma música, liga a TV e confere uma reportagem sobre violência entre gangues, e, então, “por conta disso”, decide iniciar a campanha. Michael (2026) é tão displicente quanto a compreender seu protagonista como uma figura do social, que tal qual com um filho mimado, o acoberta excessivamente e o põe como um ser de fora-para-dentro, e não o contrário.
Curiosamente, a lógica que o pai de Michael usa com seu filho prodígio (de cultivá-lo como essa mina de diamantes a servir exclusivamente para a família, dando-o pouca liberdade fora daquele ecossistema) parece ser a mesma que a família protecionista do cantor visa no cuidado para que nenhum grão de poeira suje a imagem do personagem-título. Nesse efeito rebote, é interessante perceber que essa é justamente uma ala bem abordada pelo filme: Joe, o pai abusivo de Michael que o obrigava a chamar pelo nome próprio, é vivido excepcionalmente bem pelo extremamente capaz ator já indicado ao Oscar, Colmam Domingo. Viciado em sua posição de gerir poder, Joe passa ar de profundidade ao ser um homem de origem precária numa ascensão econômica astronômica onde é olheiro de seu próprio caçula, vendo-o, por um olho, como filho talentoso, e, no outro, como joia rara que é peça para promover a manutenção de sua ascensão e uma máquina de capital exponencial. Sem sombra de dúvidas, o filme é elevado pela presença de Colmam, ainda que seu personagem sirva para antiquadamente canalizar toda as (supostas) problemáticas do filme, levando a equivocada suposição de que os danos psíquicos causados à Michael foram unilateralmente pela relação paterna. Para contrabalancear do outro lado, o carismático KeiLyn Durrel Jones, que vive o amigável guarda-costas do Michael, traz uma boa presença de camaradagem e confiança.
Mesmo com as sérias limitações do filme, Jaafar também brilha com controle absoluto em um papel que, como falado anteriormente, exigiria muita parcimônia. Ele transmite com efetividade toda a energia reprimida, a doçura e a solidariedade de Michael, demonstrando naturalidade a todo momento e dando firmeza ao insosso projeto que vive de um compilado de melhores momentos do astro, contando com a sorte de ter seu talento singular reprisado de forma segura por seu sobrinho. O talento de Jaafar, inclusive, poderia funcionar igualmente bem em uma cinebiografia menos mercadológica e mais autoral (ou seja, mais aprofundada) — porque claramente se está lidando com um gênio da música que teve uma infância fora do controle e privada de convivências sociais comuns. Isso repercutiu em um adulto com sérios apegos infantis, que preferiu ter cobras e girafas ao invés de meninos de verdade como amigos. A dificuldade de olhar olho no olho e de dizer “não”, principalmente ao pai, e o tanto de coisa que precisou engolir — tudo está lá, sob domínio de Jaafar, mas evidentemente sem nenhuma qualidade por detrás das câmeras, deixando, por sinal, a ótima e frenética cinebiografia Elvis (2022), de Baz Luhrmann, como uma obra-prima comparativamente.
A opção por ignorar qualquer psiquismo do Michael afeta não apenas uma credibilidade maior dos profissionais envolvidos na tentativa de cinebiografia, como desrespeita as próprias vivências reais e a profundidade de seu protagonista. De certo que explorar as ambiguidades de Michael exigiria uma produção que por natureza não fosse de produzida pelo próprio John Branca – o empresário que até hoje toma conta do tesouro interno do nome Michael Jackson (ou seja, que lutará incessantemente por preservar a imagem de seu osso de ouro) e que narcisicamente faz questão de ter a si próprio como personagem mais relevante que Quincy Jones (outro anacronismo insultante), é vivido unidimensionalmente como um assessor descolado e ousado por Miles Teller. Não é surpresa, portanto, dada a natureza protecionista do projeto, que a própria (e amplamente divulgada) deterioração física de Michael seja escanteada — o que seria difícil de crer que fosse ignorado, mas sim, foi. Até que a própria mãe de Michael, vivida pela aqui desmotivada Nia Long, seja tratada de forma tão limítrofe também impressiona: infelizmente, todos os diálogos de sua personagem são genéricos e pífios. O que leva à uma triste reflexão: é possível que um filme de estúdio aborde aspectos minimamente obscuros de uma celebridade? E repare, com “obscuros”, não me refiro a algo “sombrio”, e sim a algo que foi menos investigado anteriormente — senão, por que fazer um filme apenas com detalhes superficiais que todos já conhecem?
Para dar falsa impressão de completude, ou de um “bônus” para os fãs, o filme insere alguns easter-eggs e elementos dos bastidores que visam expandir traços da criatividade do Michael, como na boa cena da gravação do clipe de uma de suas obras-primas, Thriller, inclusive, mostrando a própria ideia dele de realizar curtas-metragens. A má notícia em cima disso é que o filme é montado por um dos piores montadores da indústria atual, aquele mesmo de Bohemian Rhapsody e aqui quase repete o feito. John Ottman (e sua equipe) faz aqui um trabalho precário e abrupto do ponto de vista de transição temporal, com cenas que dão a impressão de vários blocos degringolados revelando sempre o mínimo possível de Michael (e da maneira mais convencional possível), num progresso automatizado que pouco insere o espectador por dentro da progressão artística e financeira daquele núcleo. Mas o que surpreende mesmo é o péssimo trabalho de fotografia de Dion Beebe: impossível acreditar que o responsável pelo visual pouco verossimilhante e artificial de Michael tenha sido a mesma pessoa que fez as espetaculares fotografias de Colateral (2004) e Miami Vice (2006), ambos dirigidos pelo lendário Michael Mann.
Para tirar (acredite) ainda mais a pressão em cima do projeto, e óbvio, gerar mais dinheiro, foi optado por dividir o filme em duas partes. Com menos cobrança para abordar os eventuais declínios da vida de Michael, o filme de Fuqua se dá ao luxo de encerrar em um momento aleatório e anacrônico para empurrar com a barriga a eventual sequência dos fatos. Como a esperança (nesse caso, a esperança do bom cinema) é a última que morre, tomara que a continuação deste não-filme seja menos covarde e adentre mais na figura retratada, que certamente é um potencial único; afinal, não existe até hoje e nem existirá alguém como Michael Jackson.
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Filme: Michael Elenco: Jaafar Jackson, Colmam Domingo, Miles Teller, Keilyn Durrel Jones, Nia Long Direção: Antoine Fuqua Roteiro: John Logan Produção: EUA Ano: 2026 Gênero: Drama, Musical Sinopse: Cinebiografia do Rei do Pop, Michael Jackson, desde sua infância nos Jackson 5 até a carreira solo. Classificação: 12 anos Distribuidor: Lionsgate, Universal Streaming: Indisponível Nota: 4,5 |

