CRÍTICA – YELLOW CAKE (15º OLHAR DE CINEMA)

CRÍTICA – YELLOW CAKE (15º OLHAR DE CINEMA)

Yellow Cake, filme dirigido por Tiago Melo, estreou em fevereiro de 2026 no Festival de Cinema de Roterdã, na Holanda. De lá para cá, o filme rodou pelos Estados Unidos e pela Suíça, e agora chegou ao Brasil. Na noite de 4 de junho, teve sua estreia nacional no 15º Olhar de Cinema – Festival Internacional de Cinema de Curitiba.

Tiago Melo tem em Yellow Cake o seu segundo longa-metragem, sendo Azougue Nazaré (2018) o filme com o qual ele debutou como diretor. Se sua carreira na direção é recente, como produtor ela já é consolidada, tendo em seu currículo filmes como Aquarius (2016), Carro Rei (2021) e Bacurau (2019). Deixei Bacurau por último, quebrando a ordem cronológica da citação, justamente por enxergar em Yellow Cake uma relação muito próxima com o longa de Kleber Mendonça Filho.

Bacurau é um filme de gênero diversificado. Tem no western à brasileira sua principal característica narrativa, mas transita pelo drama, pela ação, pela ficção científica e pelo suspense. Yellow Cake também navega por diversos gêneros. Aquele que se mostra mais aprofundado é a ficção científica, mas também é possível enxergar o drama, o suspense e até a fantasia. Contudo, o que mais chama a atenção em ambos é o profundo carinho no olhar voltado para o nordeste e a força da crítica política que os dois filmes trabalham.

Em Yellow Cake, acompanhamos a cientista Rúbia (Rejane Faria) em busca de uma solução para erradicar o mosquito Aedes Aegypti, que naquele universo tem causado uma epidemia de dengue do norte ao sul do planeta. Tal solução passa pela utilização de urânio, sendo a cidade de Picuí, no interior da Paraíba, a detentora da maior jazida do Brasil. Por conta disso, há um olhar de desejo do estrangeiro para o solo brasileiro e para as nossas riquezas.

Nesse ponto, Tiago Melo se aproxima muito da discussão envolvendo as terras raras do Brasil. O país possui a segunda maior reserva do planeta e, não obstante, tivemos recentemente um presidenciável prometendo entregar tudo aos Estados Unidos em troca de apoio – leia-se intervenção – nas eleições de outubro. No longa, vemos que os personagens estrangeiros estão preocupados somente com a missão, sem demonstrar qualquer empatia pelo povo de Picuí. É interessante notar como a personagem Rúbia pendula entre o foco na missão – que exclui todas as variantes, sendo a sociedade local uma delas – e a assimilação de que aquele povo é parte fundamente para achar a solução de que tanto precisa.

Quando, por um erro de cálculo e arrogância dos personagens estrangeiros, um desastre radioativo acontece, vemos as cenas de isolamento e quarentena do povo de Picuí ressoarem na pandemia de Covid 19 que enfrentamos, na qual quase 700 mil pessoas vieram a óbito. No nosso caso real, o cenário também foi agravado pela negligência e irresponsabilidade dos agentes do Estado, que repetiam o que era dito e feito nos Estados Unidos, onde houve mais de um milhão de mortos.

O diretor Tiago Melo, em vários momentos, dedica tempo para explicações científicas, o que contribui bastante para a ideia de importância do que deve ser feito e para o estabelecimento do grande risco que a manipulação de urânio sugere. Isso fica evidenciado por diversas passagens e personagens que citam o que a história já comprovou: O uso do urânio sempre esteve ligado à construção de bombas, ao ataque a países e à dizimação de populações.

No longa, mesmo com forte o teor político e com a aflição que ronda toda a trama, o diretor consegue encontrar momentos de alívio, e este respiro tem nome: Tânia Maria. Se Rejane Faria faz um trabalho brilhante, dominando a tela – ora falando em inglês, ora em português, com uma atuação muito crível nas cenas de laboratórios –, Tânia Maria é o alivio cômico e dramático do filme. É a ela que o diretor recorre quando precisa dar uma pausa e, por que não, uma boa “tragada” de esperança. Sua personagem, Dona Rita, pode não ser letrada, mas possui a sabedoria do tempo.

O abraço à fantasia se dá pelos sonhos e visões de Rúbia. Nesses delírios, conhecemos o personagem Nozinho (Severino Dadá), uma espécie de guia espiritual da protagonista. Se o filme adota sempre uma coloração amarela, em direta referência ao yellowcake (o concentrado de urânio), quando a fantasia se estabelece é a cor vermelha que predomina, fazendo uma bela rima visual com o nome da protagonista e a cor do Rubi.

O povo de Picuí, personificado de certo modo no personagem Catita (Valmir do Côco) é mostrado, sobretudo no final, como sinônimo de resistência. Sim, há um total desamparo daquelas pessoas por parte dos governantes que, em determinado momento do longa, as deixam à própria sorte. Mas a resposta vem, tal qual em Bacurau, da resiliência e da união daquela comunidade. Yellow Cake é, sem dúvida, mais um filme que demonstra a força pujante do cinema nordestino.


Filme: Yellow Cake
Elenco: Rejane Faria, Valmir do Côco, Tânia Maria, Spencer Callahan, Wolfgang Pannek, Alli Willow, Rosa Malagueta, Galeguinho Zé Matias, Severino Dadá
Direção: Tiago Melo
Roteiro: Amanda Guimarães, Anna Carolina Francisco, Gabriel Domingues, Jeronimo Lemos e Tiago Melo
Produção: Brasil
Ano: 2026
Gênero: Ficção Científica
Sinopse: Na cidade de Picuí, no sertão da Paraíba, um grupo de cientistas tenta erradicar o mortal mosquito Aedes aegypti — transmissor da dengue — por meio de um experimento secreto intitulado Yellow Cake. Utilizando o urânio extraído da região, o projeto pretende esterilizar os mosquitos e assim conter a disseminação da doença. A física nuclear Rúbia Ribeiro (Rejane Faria) integra o experimento.
Classificação: Não informado
Distribuidor: Olhar Filmes
Streaming: Indisponível
Nota: 7,5

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