CRÍTICA – O PROFETA (15º OLHAR DE CINEMA)

CRÍTICA – O PROFETA (15º OLHAR DE CINEMA)

Acredito que o primeiro dia de festival, desconsiderando, obviamente a sessão de abertura, é o dia de maior expectativa. O Olhar de Cinema sempre promove boas experiências. Em 2025, no 14º Olhar de Cinema, o filme brasileiro que abriu a competitiva nacional foi o A Voz de Deus, dirigido por Miguel Antunes Ramos. O longa se debruçava pela nova onda das igrejas evangélicas no Brasil: a inserção de pastores mirins, com alguns se intitulando de profeta, para engajar, sobretudo nas redes sociais através dos vários cortes compartilhados nas mais diversas mídias.

Neste ano de 2026, a competitiva internacional abriu com o único filme do continente africano a disputar nesta categoria. O Profeta é dirigido pelo cineasta moçambicano Ique Langa que, em um vídeo exibido antes de sua obra, demonstrou muita simpatia, mas acabou entregando muito dos caminhos pelo qual seu filme iria seguir.

Como o próprio título do filme já diz, temos aqui um olhar sobre a fé cega que as pessoas depositam nestes indivíduos que, por vezes, se autointitulam de profeta. Nesta obra vamos conhecer Helder (Admiro Laura Munguambe), um pastor evangélico que, em um primeiro momento, realiza seus cultos para uma plateia constituída de poucas pessoas. Estas pouco interessadas em um pastor que demonstra total falta de confiança nas palavras – mal ditas e lidas – em sua bíblia. Mas, após um encontro com o obscuro, em uma cena bem caracterizada pelo terror, na qual uma espécie de bruxa faz um pacto com ele, sua sorte parece mudar.

O Profeta é um filme em que o diretor busca a todo momento mostrar o seu domínio técnico. Ele utiliza uma razão de aspecto menor para dar uma ideia de opressão, na qual vive o protagonista. Helder não deseja tocar as pessoas pelas palavras de Deus, seu maior desejo é que as pessoas parem para ouvi-lo. O que ele quer é o poder que muitos pastores possuem, independentemente de achar se é ou não um intermediário do Divino.

Os diferentes enquadramentos são o que realmente servem e funcionam para a narrativa. Quando escolhe o plano detalhe, o diretor é bem direto no foco e no que quer mostrar, como o olhar angustiado do protagonista e a boca de sua esposa grávida profetizando: “Deus é grande”. Já quando traz um plano aberto com uma ampla profundidade de campo, é justamente para evidenciar como o protagonista agora conseguiu atrair a atenção. As pessoas se aproxima e o tocam. Ele, enfim, conseguiu o que tanto queria. Seus cultos estão cada vez mais cheios e seu personagem, cada vez mais poderoso. Mas o preço para sustentar tudo isso aumenta cada dia mais. Mesmo conseguindo o que queria, sua angustia não passou. Ique Langa utiliza os sonhos, com a representação de uma serpente, para demonstrar o terror que está por vir.

O uso do preto e branco também entra na conta de um diretor vaidoso. Embora o filme traga essa linguagem bem rebuscada, a história em si é vazia. Helder é um homem medíocre que sonha em ser maior do que pode ser. Recorre ao obscuro, mas, ao fim, tudo é vento. Nada é real. O Profeta não leva ninguém a lugar algum, nem o protagonista e nem o espectador. E isso vale para a vida real também, sobretudo aqui no Brasil, cujas cidades foram invadidas por centenas de igrejas evangélicas que nada fazem a não ser falsas promessas e a extorsão dos fiéis.


Filme: O Profeta
Elenco: Admiro Laura Munguambe, Nora Matavel, Yara Bonga, Alexandre Coana
Direção: Ique Langa
Roteiro: Ique Langa
Produção: Moçambique, África do Sul
Ano: 2026
Gênero: Drama
Sinopse: O filme acompanha a história de um pastor bondoso que entra em conflito com sua própria fé. Para superar essas dúvidas, ele busca ajuda em poderes obscuros, encontrando sucesso em seus objetivos até que as coisas saem totalmente do controle
Classificação: Não informado
Distribuidor: Não informado
Streaming: Indisponível
Nota: 4,0

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