Escrito em 1945 por George Orwell, “A Revolução dos Bichos” é uma sátira/alegoria do que acontecia com a União Soviética naquele momento. Após a Revolução de Outubro, em 1917, os bolcheviques, liderados por Lenin, tomaram o poder e iniciaram uma série de transformações; e a Rússia Czarista, então, se tornou a União Soviética, o primeiro Estado socialista do mundo. Após a morte de Lenin, em 1924, duas figuras centralizaram o debate daquele socialismo. Stalin propunha o socialismo isolado enquanto Trotsky defendia o estado de revolução permanente, alimentando a mesma ideia para outros países também.
O livro faz uma crítica muito clara ao povo, caracterizando-o apenas como uma grande massa burra, mas disposta ao trabalho e ao sacrifício pelo ideal comunista. É justamente nesse ponto que temos uma distorção da história e tal escolha é feita, sobretudo por conta do autor ferido em seu âmago por causa da ascensão de Stalin e pelas consecutivas derrotas de Trotsky dentro do Partido Comunista.
Existem ao menos três adaptações para o cinema desta obra e a mais recente delas é a de 2025, dirigida por Andy Serkis — ator, diretor, produtor, roteirista e mais um tanto de coisas que cansaria de escrever —, cujo lançamento nos cinemas brasileiros se deu hoje, dia 28 de maio de 2026. Serkis, que na juventude já foi membro do Partido Socialista dos Trabalhadores do Reino Unido, é sem dúvidas um progressista e, como tal, conhece e se posiciona, sempre que pode, contra o sistema hegemônico que está posto.
Nessa nova abordagem de A Revolução dos Bichos, Serkis traz um frescor ao imaginar não só a luta interna dos camaradas, mas também o inimigo maior, o Capitalismo/Imperialismo, aqui bem evidenciado na figura de Frieda Pilkington (Glenn Close), que é dona de quase todas as terras daquela região, faltando apenas a apropriação da Fazenda dos Bichos. Muito embora este seja o grande perigo no filme, o diretor mantem o conflito principal entre Napoleão (Seth Rogen) e Bola de Neve (Laverne Cox), que são as representações de Stalin e Trotsky, respectivamente.
O filme possui um tom mais leve que o livro é verdade, suprimindo da história as partes mais violentas e isso faz sentido uma vez que esta animação tem classificação indicativa de dez anos. Mas, ao mesmo tempo, consegue ser fiel, na maior parte do tempo, ao conteúdo da obra original. Mas uma mudança em especial chama a atenção e ela envolve a inserção de um personagem novo, o Sortudo (Gaten Matarazzo). Se no livro de 1945 o tom é melancólico e finaliza com total desesperança na humanidade, é em Sortudo que Serkis deposita toda a esperança de um mundo melhor.
A Revolução dos Bichos de Serkis perpassa por todo o livro. Mostra a luta dos bichos contra o Sr. Jones e a tomada da fazenda. Vemos os animais trabalhando em prol de uma vida melhor para todos, mesmo com a divisão de trabalho demonstrada. Porcos são seres mais inteligentes, pois sabem ler e escrever e por isso ficam mais ligados ao trabalho organizacional, enquanto os outros animais são reduzidos à apenas sua própria natureza, sendo o cavalo Sansão (Woody Harrelson) a personificação do trabalhador comum. O diretor, nesse ponto, poderia e deveria ter a mesma coragem que teve ao criar o personagem Sortudo e desfazer todo o olhar preconceituoso que Orwell teve com o proletariado, metaforicamente representado por todos os animais que não os porcos. Tanto para Orwell quanto para Serkis o povo é burro (Sansão não consegue decorar o alfabeto, só sabe as 4 primeiras letras) e facilmente utilizado como massa de manobra.
São muitos os caso de adaptações que fracassam no objetivo de retratar com certa fidelidade a obra original. Serkis, aqui, não só consegue isso como também deixa uma percepção, ainda que pequena, de uma evolução na mensagem. O tom de esperança, sobretudo dentro do ideal posto pela Revolução de Outubro, mantém a chama acesa para uma sociedade mais igual, com menos miséria, com menos fome e com trabalho digno para todos. Sabe aquela máxima “De cada um de acordo com sua capacidade, a cada um de acordo com suas necessidades”? É possível enxergar, mesmo que timidamente, isso no filme. E para os dias de hoje, faz-se mais do que necessário mensagens como esta.
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Filme: Animal Farm (A Revolução dos Bichos) Elenco: Seth Rogen, Gaten Matarazzo, Steve Buscemi, Glenn Close, Laverne Cox, Kieran Culkin, Woody Harrelson, Jim Parsons, Andy Serkis, Kathleen Turner Direção: Andy Serkis Roteiro: Nicholas Stoller, George Orwell Produção: Reino Unido Ano: 2025 Gênero: Aventura, Comédia, Drama Sinopse: Alegoria da Revolução Russa com animais se revoltando contra um fazendeiro em busca de liberdade. Sua revolta é minada internamente sem o conhecimento dos animais. Classificação: 10 anos Distribuidor: Paris Filmes Streaming: Indisponível Nota: 6,0 |

