CRÍTICA – A ODISSEIA

CRÍTICA – A ODISSEIA

Christopher Nolan construiu uma das filmografias mais marcantes do cinema contemporâneo apoiando-se quase sempre na criação de grandes conceitos. Seja brincando com diferentes temporalidades, explorando paradoxos científicos ou estruturando narrativas extremamente complexas, seus filmes costumam exigir do espectador um esforço constante para compreender a lógica que organiza aquele universo. Em “A Odisséia”, Nolan parece seguir um caminho diferente.

Em vez de dedicar boa parte de sua energia à elaboração de um conceito ou de uma arquitetura narrativa intrincada, Nolan concentra seus esforços em construir uma experiência cinematográfica. A narrativa é mais direta, mas isso não representa uma simplificação. Pelo contrário. Essa escolha permite que o filme direcione quase toda sua força para a construção da tensão, transformando a jornada de Odisseu numa experiência permanentemente envolvente.

Após a queda de Troia, Odisseu (Matt Damon) inicia a longa viagem de retorno para Ítaca, onde Penélope (Anne Hathaway) e seu filho Telêmaco (Tom Holland) continuam aguardando sua volta enquanto enfrentam a crescente pressão dos pretendentes ao trono. Preso durante anos na ilha de Ogígia e perseguido por sucessivos obstáculos ao longo do caminho, o herói revisita sua própria jornada enquanto tenta reencontrar o lar que deixou para trás. Inspirado no poema de Homero, Christopher Nolan transforma essa epopeia clássica numa aventura centrada menos no mito e mais na experiência humana de liderança, sobrevivência e perseverança.

“A Odisseia” tem seu maior mérito na maneira como Christopher Nolan transforma a tensão no eixo que organiza praticamente toda a experiência. Não se trata de um recurso utilizado em alguns momentos de ação; ela atravessa o filme inteiro e define sua identidade. E essa tensão não nasce apenas do perigo físico ou da grandiosidade dos acontecimentos. Ela depende de uma construção dramática que faz o espectador acompanhar cada obstáculo como se tivesse algo importante em jogo. A guerra, a viagem, os monstros e os desafios funcionam porque existe um investimento emocional anterior.

A figura de Odisseu, dessa forma, é onde esse investimento vem com maior força. O filme constrói um protagonista cuja principal característica não é apenas a inteligência ou a capacidade estratégica, mas um forte senso de responsabilidade pelos homens que lidera. Desde o início, fica claro que ele não os trata como peças descartáveis. Seu compromisso é levá-los de volta para casa, mesmo quando isso significa desafiar ordens, enfrentar riscos desnecessários ou colocar a própria vida em jogo.

Essa escolha altera completamente a maneira como as cenas de perigo são percebidas. Quando um soldado morre, a perda não pesa apenas pela morte daquele personagem. Muitas vezes sequer conhecemos profundamente quem morreu. O impacto verdadeiro recai sobre Odisseu. Cada morte representa também uma derrota para o líder, uma falha, ainda que inevitável, em cumprir a promessa de proteger seus homens. A tensão, portanto, não decorre apenas da possibilidade de alguém morrer, mas do peso moral que cada perda acrescenta ao protagonista. E é isso que faz com que praticamente todos os obstáculos tenham força dramática.

É nesse ponto que a direção de Nolan ganha destaque. Sua encenação organiza constantemente a informação para manter essa sensação de instabilidade. Os conflitos raramente parecem resolvidos com facilidade. Quase todas as vitórias acontecem por um fio. Sempre há um improviso, uma estratégia arriscada, um plano que parece prestes a fracassar ou um detalhe que ameaça colocar tudo a perder. Essa construção faz com que o suspense não dependa de surpresas gratuitas, mas da administração do tempo, da expectativa e da percepção de risco. E os elementos técnicos trabalham em favor dessa lógica.

A montagem prolonga momentos decisivos, alternando ações simultâneas para ampliar a ansiedade do espectador. A trilha sonora intensifica a sensação de urgência sem substituir a força dramática da cena. O desenho de som reforça a dimensão física dos acontecimentos. Nenhum desses elementos funciona isoladamente. Eles convergem para um único objetivo: manter a tensão permanentemente elevada.

Se a primeira grande qualidade do filme está na capacidade de Nolan de construir tensão quase permanente, como essa tensão é produzida? A resposta passa inevitavelmente pelo trabalho de direção, montagem, desenho de som e trilha sonora. O desenho sonoro do filme é, por exemplo, extremamente eficiente. Não é apenas a música que conduz determinadas sequências, mas todo o trabalho sonoro que amplia a sensação de risco, de peso e de urgência. A sequência do Ciclope talvez seja o melhor exemplo. Quando a criatura é atacada a potência do seu grito não funciona apenas como um efeito alto ou impactante que revela a dor sentida pelo mesmo. Ele ocupa o espaço da sala, sem criar desconforto físico, mas reforçando a dimensão colossal daquela ameaça. E esse desconforto, para além da altura do som, é causado pela própria construção desse som, alcançando determinadas ondas que, por si só, mesmo sem o volume, já causam tal desconforto.

Já na abertura do portão durante a invasão de Troia, a montagem alterna constantemente dois movimentos: o esforço desesperado para abrir o enorme portão e a chegada do exército inimigo. O portão demora a ceder, o tempo parece se alongar e a trilha cresce exatamente na medida em que a expectativa aumenta. Quando Agamêmnon finalmente atravessa a abertura seguido pelos soldados, a sensação de triunfo não nasce apenas da música, mas da maneira como todos os elementos da cena convergem para aquele instante.

Por outro lado, quando o filme desacelera para acompanhar reflexões de Odisseu, cenas envolvendo Penélope ou outros momentos contemplativos, a música ganha um protagonismo maior não pelo excesso, mas por nascer de uma base dramática que quase nunca possui a mesma força das sequências de ação e suspense. E nesse ponto lembra muitos filmes de Terrence Malick, mas apenas na forma. Em alguns momentos, vemos personagens refletindo enquanto imagens do passado ou da memória aparecem acompanhadas por uma trilha contemplativa bastante presente. A diferença é que, no cinema de Malick, esse estado contemplativo constitui praticamente toda a lógica do filme. Desde o início, suas obras educam o espectador para esse tipo de experiência. A contemplação não interrompe a narrativa; ela é a própria narrativa. Aqui, em “A Odisseia”, esses momentos geralmente interrompem o fluxo de tensão, com uma densidade dramática mais baixa, fazendo com que a trilha sonora acabe chamando mais atenção.

E, se por um lado “A Odisseia” fuciona tão bem como uma experiência de tensão, o mesmo não alcança semelhante impacto emocional quando decide desacelerar. Não se trata de uma mudança de gênero, tampouco de ritmo, o próprio filme precisava desses momentos. Depois de longas sequências de aventura, suspense e violência, é natural que a narrativa procure espaços de contemplação, reflexão e desenvolvimento das relações entre os personagens. O problema está em como essas cenas são construídas.

Nolan organiza sua narrativa em três grandes núcleos de linhas de tempo diferente. O primeiro acompanha a jornada de Odisseu até chegar à ilha de Ogígia. O segundo acompanha sua permanência com Calipso. O terceiro permanece em Ítaca, dividido entre Penélope e Telêmaco. Se a jornada de Odisseu concentra praticamente toda a potência do filme, o mesmo não se pode dizer dos outros dois núcleos, que cumprem funções narrativas importantes, mas raramente alcançam a mesma intensidade.

No caso do núcleo que se passa em Ogígia, o problema se torna bastante evidente. O filme informa repetidamente que Odisseu está preso naquela ilha. Essa condição é verbalizada e, em alguns momentos, até sugerida visualmente, mas a experiência desse aprisionamento quase nunca é construída de forma concreta. A ilha não transmite uma sensação de ameaça e Calipso tampouco é apresentada como uma figura intimidante; pelo contrário, ela surge como uma personagem acolhedora, quase protetora, preocupada com o estado físico e emocional de Odisseu. Nada disso constitui um problema isoladamente. O problema é que essa combinação enfraquece justamente aquilo que a narrativa pretende comunicar. Sabemos racionalmente que Odisseu está preso, mas raramente sentimos esse aprisionamento. A condição existe como informaçã não como experiência dramática.

Outro problema, não só do filme, mas parece recorrente na filmografia de Nolan é a direção nas sequências de ação. E aqui vale destacar a cena de ação final. Curiosamente, o problema não está na preparação da sequência. Até o início da batalha, Nolan conduz a cena com o mesmo domínio demonstrado ao longo de todo o filme. A infiltração, a expectativa pelo reencontro, a tensão provocada pela iminência do confronto e a maneira como todas essas informações são organizadas mantêm o espectador completamente envolvido. A dificuldade surge quando a ação propriamente dita começa.

Enquanto a construção da tensão privilegia clareza espacial, progressão dramática e controle absoluto do tempo da cena, a coreografia do combate passa a depender de uma montagem excessivamente fragmentada. Os cortes tornam-se rápidos demais, os eixos mudam constantemente e a geografia da ação perde parte da clareza construída até então. Em vez de intensificar o impacto dos golpes, a sequência acaba produzindo uma sensação de confusão visual. Em alguns momentos, Nolan ainda recorre a pequenos efeitos dramáticos bastante conhecidos do cinema de ação contemporâneo, como a interrupção momentânea do combate para destacar um gesto heroico ou uma fala de efeito, recursos que lembram certas convenções da Marvel e do cinema de super-heróis atuais em geral, destoando do tratamento muito mais sóbrio adotado durante o restante da obra. Felizmente, trata-se de um problema relativamente pequeno que não compromete a obra, já que as grandes qualidades do filme nunca estiveram na elaboração de longas coreografias de combate, mas na construção da tensão que antecede cada confronto.

No fim, “A Odisseia” representa uma mudança interessante em relação aos últimos filmes de Christopher Nolan. Ele parecia cada vez mais interessados em desenvolver conceitos complexos que, muitas vezes, ocupavam uma parcela significativa da experiência. Aqui, acontece quase o inverso. Nolan parece confiar na força da própria história e concentra sua direção menos na explicação de ideias e mais na construção da experiência cinematográfica. Nem tudo funciona com a mesma intensidade. Alguns momentos dramáticos poderiam alcançar maior desenvolvimento, mas, ainda assim, esses limites permanecem pequenos diante da consistência do conjunto.


Filme: The Odyssey (A Odisseia)
Elenco
: Matt Damon, Tom Holland, Anne Hathaway, Robert Pattinson, Lupita Nyong’o, Charlize Theron, Zendaya, Benny Safdie, Jon Bernthal, John Leguizamo, Elliot Page, Mia Goth
Direção
: Christopher Nolan
Roteiro
: Christopher Nolan
Produção
: EUA
Ano
: 2026
Gênero
: Aventura, Ação, Suspense, Fantasia
Sinopse
: Acompanhe a saga de Odisseu, o lendário rei de Ítaca, em sua longa e perigosa jornada de retorno ao lar após a Guerra de Troia. O relato narra seus confrontos com seres míticos, como o ciclope Polifemo, as sedutoras sereias e a ninfa Calipso, enquanto ele luta contra o destino para se reencontrar com sua fiel esposa, Penélope.
Classificação
: 14 anos
Distribuidor
: Universal Pictures
Streaming
: Indisponível
Nota
: 8

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