O mundo moderno se caracterizou pela estrutura econômica e social envolvendo colonizadores e colonizados. É sabido que a Europa, se é o que é hoje, deve-se aos muitos anos de exploração da América – que forneceu toneladas de ouro e prata, principalmente –, da África – que foi a base do tráfico de escravos – e da Ásia, que abasteceu o mercado europeu com especiarias, sedas e porcelanas. Se ainda hoje os países da Europa possuem essa imagem de “primeiro mundo”, isso se deve, única e exclusivamente, aos séculos de exploração violenta dos outros povos, algo que até hoje não foi reparado e/ou devolvido.
Se antes diferentes fatores influenciavam a economia global, atualmente quem dita os rumos é o petróleo. Ou seja, quem tem o controle das maiores reservas de petróleo tem o mundo nas mãos. No mundo capitalista em que vivemos, tendo os Estados Unidos como a maior exemplificação do imperialismo, com seu projeto contínuo de expansão econômica, politica e militar, o que vemos ao longo dos anos são conflitos e mais conflitos. Há quem se engane com a propaganda veiculada pelas grandes mídias de que essas guerras são travadas para libertar os povos da tirania de seus ditadores ou que são batalhas em prol da democracia. A verdade é que os Estados Unidos não se furtam a utilizar todo seu poderio militar para ter a posse e o controle do petróleo.
Um Calendário Incompleto (2026), documentário da cineasta iraniana Sanaz Sohrabi, mostra-nos, em um primeiro momento, como a união de países, majoritariamente árabes, em defesa da nacionalização do petróleo mexeu nas estruturas, até então sólidas, de quem detinha o controle sobre essas reservas: Estados Unidos e Reino Unido, por meio de sete empresas conhecidas como as “Sete Irmãs”.
Embora a criação da OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo), em 1960, tenha sido o pontapé inicial para essa mudança, foi na imagem de Mohammad Mossadegh, a partir de 1951, que a idealização da soberania e da nacionalização da indústria petrolífera se concretizou – sob o lema “Petróleo árabe para os árabes”. E mesmo após seu governo ter sido derrubado por um golpe planejado pela CIA (Estados Unidos) e pelo MI6 (Reino Unido), e dele ter sido preso e passado o resto da vida em prisão domiciliar, a mensagem já havia sido transmitida.
Fundada em 14 de setembro de 1960, a OPEP contava com cinco países: Arábia Saudita, Irã, Iraque, Kuwait e Venezuela. A Venezuela era, nesse primeiro momento, o único país fora do Oriente Médio a fazer parte da organização, e sua presença era marcante, uma vez que possuía, e ainda possui, a maior reserva de petróleo do mundo – o real motivo da intervenção dos Estados Unidos e posterior captura e prisão de Nicolas Maduro no início de 2026.
O olhar da diretora leva-nos por diversos caminhos. Há a importância dada a Mossadegh e o nacionalismo sendo levado a diversos outros países que, aos poucos, foram entrando para a OPEP. No entanto, é interessante notar como Sohrabi vai se ater, quando fala sobre a Venezuela, ao Coro de Conciertos de la Universidad Central de Venezuela (UCV), utilizando essa universidade e seu anfiteatro como ambientação para várias passagens do documentário. Esse grupo musical tinha como propósito elevar cada nação membro, respeitando suas histórias e idioma, e também mostrar a importância geopolítica de uma união como essa.
Um outro recurso que a diretora utiliza nesse filme é o resgate de arquivos com os selos postais da época, que serviam para celebrar os aniversários da OPEP: uma demonstração do sucesso econômico e político que confirmava, cada vez mais, a união entre os países. Mas, como mencionado no segundo parágrafo desse texto, o projeto expansionista, sobretudo dos Estados Unidos, não seria abandonado. E se, desde a criação da OPEP, em 1960, os países integrantes viam suas exportações de petróleo aumentarem vertiginosamente, foi em 1979 com a guerra entre Irã e Iraque, que a organização sofreu um grande golpe do qual jamais se recuperou.
Um Calendário Incompleto, filme integrante da competitiva Internacional da 15ª edição do Olhar de Cinema, demonstra como é possível uma alternativa ao que está posto. Serve como mais uma prova da ganância e tirania dos Estados Unidos e comprova como este país atentou e segue atentando contra qualquer nação que ouse frear seus objetivos de dominação. Se hoje, em pleno 2026, vemos o mesmo Irã – que já sofreu nas mãos dos Estados Unidos no golpe de 1953 – sob bombardeios por parte de Israel e dos Estados Unidos, saibam que nada tem a ver com defesa da democracia. É mais um capítulo da luta pelo domínio do mundo, que hoje tem Estados Unidos e China como expoentes. Os outros países são apenas peças de um grande tabuleiro de xadrez.
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Filme: An Incomplete Calendar (Um Calendário Incompleto) Direção: Sanaz Sohrabi Roteiro: Sanaz Sohrabi Produção: Canadá, Irã, Turquia, Vanuatu, Venezuela Ano: 2026 Gênero: Documentário Sinopse: A partir de um álbum musical de 1980 gravado pelo Coro da Universidade Central da Venezuela para celebrar a OPEP, o filme-ensaio de Sanaz Sohrabi investiga uma história alternativa do petróleo. Cruzando canções folclóricas e farto material de arquivo, a obra reconstrói os elos inesperados entre recursos energéticos, projetos de decolonização e as lutas por soberania no Sul Global entre as décadas de 1950 e 1970. Classificação: 12 anos Distribuidor: Não informado. Streaming: Indisponível Nota: 9,0 |

