CRÍTICA – HONESTINO

CRÍTICA – HONESTINO

A ditadura militar é uma das maiores manchas da história do Brasil, sendo um dos assuntos mais abordados no nosso cinema, e isso é extremamente válido, sobretudo para que sempre relembremos o quão inadmissível foram os acontecimentos desse período sombrio, e sobretudo para trazer à luz histórias que foram apagadas em circunstâncias tão injustas e revoltantes. Honestino, filme de Aurélio Michiles, vem para reconstituir a trajetória de Honestino, líder estudantil da geração de 1968, desde sua atuação no movimento estudantil até sua perseguição pela ditadura militar.

Onde Honestino mais acerta é em perscrutar com veemência como a base da extrema direita sempre consistiu em ser antieducação, mostrando como as uniões estudantis e universidades eram um dos maiores pilares contra a ditadura, e como a intelectualidade era provavelmente a maior forma de resistência contra os opressores (sendo algo que incomoda esse espectro político até os dias atuais, inclusive). O ódio aos estudantes muito revela o fracasso de domínio pelas ideias absurdas, por isso, os fascistas recorriam ao “infalível” silenciamento.

O filme intercala arquivos reais de Honestino e de todo o contexto histórico de sua época, mesclando esse teor documental com um arco ficcional (onde Honestino é interpretado por Bruno Gagliasso), que é uma das escolhas criativas que infelizmente não funciona muito bem no projeto, já que essas dramatizações não geram a emoção que os reais documentos, fotografias, depoimentos e registros históricos conseguem suscitar no espectador. Talvez o filme funcionasse melhor se esse lado ficcional frágil não tivesse sido inserido, já que empobrece a narrativa.

Ainda sobre essa escolha de amalgamar registros reais com algumas cenas ficcionais, o que fica é a impressão de um certo apelo emocional que soa brega e quebra a imersão no que realmente importa. As entrevistas são as partes mais comoventes, já que são relatos reais, de pessoas que se viram diante de uma impotência palpável em meio a um contexto de tragédias. O projeto deveria ter investido mais tempo nesses depoimentos para potencializar sua mensagem, sua denúncia, uma vez que a dimensão histórica é visivelmente maior que a dramática.

A iniciativa de fazer um filme contando a história de um dos maiores militantes da época mais opressiva do nosso país, com sua postura tão combatida e articuladora, é algo louvável, e os realizadores acertam muito ao conseguirem recolocar Honestino no imaginário coletivo – não o reduzindo como uma vítima da repressão, mas como um jovem que teve uma atuação política de extrema importância e cuja vida foi interrompida pelo regime – mas faltou a algo a mais ao explorar sua existência para algo além daquele recorte histórico.

Ou seja, até mesmo em um dos pontos mais fortes do longa, que é esse resgate da memória de Honestino através de documentos e dos depoimentos das pessoas próximas a ele, a maneira como tudo é apresentado ao espectador carece de um maior vínculo, dando o ar de que esse é um daqueles projetos audiovisuais em que nos deparamos na escola ou na faculdade para entender a importância da luta de uma certa figura naquela fase história; mas, e o Honestino humano? Mal se vê um aprofundamento nesse sentido.

Isso traz o sentimento de que o filme teria potencial para ser mais marcante. O objetivo geral é muito legítimo e o material histórico inegavelmente relevante (e precioso, inclusive, visto que é ressaltado em vários momentos o fato de ter sido evitado mais registros naquela época por motivos de segurança pessoal), mas a realização nem sempre transforma essa intenção de memória em uma experiência cinematográfica tão potente quanto deveria. Ao menos, consegue o apelo para não permitirmos que tal obscuridade volte a nos acuar.


Filme: Honestino
Elenco: Bruno Gagliasso
Direção: Aurélio Michiles
Roteiro: Aurélio Michiles, André Finotti
Produção: Brasil
Ano: 2025
Gênero: Documentário, biografia
Sinopse: Fusão entre documentário e ficção, o filme conta a história de Honestino Guimarães, líder estudantil da geração de 1968, presidente da UNE e aluno da UnB. Preso cinco vezes por sua militância, Honestino foi sequestrado em 1973, aos 26 anos, e é uma das centenas de desaparecidos durante a ditadura militar.
Classificação: 12 anos
Distribuidor: Pandora Filmes
Streaming: Indisponível
Nota: 5,0

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