CRÍTICA – 10 COISAS QUE EU ODEIO EM VOCÊ

CRÍTICA – 10 COISAS QUE EU ODEIO EM VOCÊ

Considerava que Diário de uma Paixão (2004) seria o último do gênero romântico que escreveria no ano de 2026, mas surpresas sempre tendem a acontecer, não é mesmo? Uma chama reacendeu no coração ao assistir esse clássico que consequentemente fiquei com vontade de assistir outro grande clássico da virada do século. Sim… Assisti. Admito que era uma pendência das grandes, mas qual cinéfilo não tem aquela watchlist que entram títulos que ficam por décadas sendo jogados para frente em um eterno ciclo de: um dia irei assistir. Boa sorte para adivinharem outros, talvez em futuras críticas em que admita isso mais uma vez…

Sempre fico com um pé atrás quando se trata de filmes do fim da década de 1990 e início dos anos 2000 quando estão associados ao gênero da comédia, por causa de duas motivações principais: o receio do humor (ainda mais quando se trata de produções de hollywood) não ter envelhecido muito bem – e mesmo que tente assistir pensando no contexto de sua época, não é mais a mesma coisa, tanto o mundo quanto a minha própria pessoa possuem outros limites éticos e visão de mundo – e a vergonha alheia de certas atuações caricatas que buscam uma linha tênue entre verossimilhança e exageros que nem mesmo na época me descia muito bem – pensando em Click (2006) que me gera esse desconforto o tempo inteiro.

E, por mais incrível que pareça, 10 Coisas que Eu Odeio em Você não gerou nenhuma das duas expectativas negativas – guarde que foi a primeira experiência com o longa-metragem para além da clássica cena com o reprodutor de música no campo de futebol americano. Isso não significa que não existam momentos problemáticos ou desconfortáveis, mas estão longe de retirar a imersão ou deixar desconfortável a ponto de gerar um sentimento de querer abandonar o longa-metragem.

A palavra-chave que melhor me ocorre para definir o filme com precisão é conforto. Pode ser aplicado de maneira generalizada: narrativa, imagem, trilha-sonora, fotografia. Seu destaque é cumprir com demasiado sucesso a simplicidade que se propõe: um par romântico entre figuras teoricamente opositoras que no fim descobrem elementos em comum e se apaixonam até mesmo por aquilo que as diferenciam. O elenco de personagens é bem caricato e formado em arquétipos: o bonitão idiota e rico Joey Donner (Andrew Keegan), a menina bonita patricinha Bianca Stratford (Larisa Oleynik), sua irmã feminista descontruída e progressista Kat Stratford (Julia Stiles), o nerd inteligente Cameron James (Joseph Gordon-Levitt) e o nerd para alívio cômico Michael (David Krumholtz) e claro, o jovem descolado e desleixado Patrick Verona (Heath Ledger).

Outra palavra que irei repetir com total certeza é simples, pois é de uma simplicidade sua proposta narrativa e construção de cenário que não inova em absolutamente nada: a escola é dividida nas clássicas gangues ou grupos: nerds, rockeiros, punks, hip-hop, patricinhas, esportistas e assim em diante. A partir da chegada do aluno novo, Cameron e sua amizade com Michael, esses elementos são apresentados, porém a narrativa trabalha com um entrelaçar de vontades e motivações das personagens principais e secundários:

  • Bianca – anseia por ser uma garota popular e conquistar todos pela escola.
  • Kat – deseja ser uma mulher emancipada e progressista, longe dos clichês.
  • Cameron – se apaixona imediatamente por Bianca e deseja conquistá-la.
  • Michael – é só o alívio cômico, mas acaba também tendo seu romance (bem shakespeariano) com a amiga de Kat.
  • Patrick – o aluno deslocado e desligado da escola que age por “interesses” próprios pelo estigma de ser malvado, bruto e violento.
  • Joey – quer conquistar as garotas e pagar de malandrão ricaço que consegue tudo que deseja.

A partir disso é estabelecido os altos e baixos da narrativa, principalmente o casal protagonista e improvável: Patrick e Kat, que vão de pouco a pouco quebrando os preconceitos e preceitos de um sobre o outro, aflorando um interesse genuíno e desenrolando em uma paixão intensa que desagua em um amor.

É uma narrativa com altos e baixos estabelecidos em encontros e desencontros de informações, mas o charme vem de não ficar segurando em demasia os conflitos originados pelas meias-verdades e interesses das personagens, tudo se desenrola com facilidade e simplicidade, o que reforça o sentimento de conforto e segurança do público, gerando aquele quentinho no coração que faz você abrir um sorriso e se aconchegar com uma narrativa direta e reta. O que gera tamanho destaque e fama, transformando-o em um clássico da comédia-romântica?

É o cozy somado com momentos icônicos e atuações em que é notável o nível de conforto dos atores. Todo mundo cumpre bem aquilo que é proposto e isso sobrepõe os limites da tela, tornando-se bem óbvio o quanto divertido foi a produção do longa-metragem. Cozy é aquele quentinho, filme de um dia que você não deseja pensar ou se desafiar narrativamente, colocar um cobertor, preparar uma pipoca e experienciar uma história que gera aquele canto seguro e nostálgico – para os dias atuais. Então, com uma cadência narrativa que nunca recua ou constrói tensões de longa duração, seus momentos emblemáticos brilham por um tom humorístico que envelheceu muito bem, com um gosto de início dos anos 2000 que é bem-vinda em qualquer momento. A melhor descrição que posso entregar é o sorriso persistente em meu rosto ao longo de todo o filme. Me prendeu e me entreteve em sua leveza. É difícil de encontrar títulos que conseguem essa consistência, coesão e coerência ao longo de suas quase duas horas de duração.

A questão central dos conflitos é o encontro da identidade, fugindo daquilo que nós somos cobrados e descobrindo uma verdadeira “intenção” do eu, com ideias bem progressistas ao refletir sobre sua época de lançamento. Uma ideia bem interessante de deixar os adolescentes serem adolescentes – sem também transformar isso em um grandioso discurso. O destaque fica para o par romântico principal: Kat e Patrick em que ambos possuem suas aparências externas e fragilidades internas, dando uma dinâmica de roteiro que eles se expõem de pouco em pouco, descobrindo um “verdadeiro” eu com auxílio do outro, havendo encontros e desencontros dessa aflorar até o momento de plena aceitação e estabelecimento do clímax romântico. A delicadeza do roteiro em sua relação advém até mesmo de um momento tão clichê na maioria das comédias-românticas ter consciência daquilo que está fazendo: quando surge a oportunidade do casal se beijar dentro do carro após Kat se embebedar em uma festa, Patrick se recusa por ela estar alterada. Quando presenciei a cena (já que minhas expectativas era me deparar com várias questões atuais problemáticas que ainda residem nos filmes do início da virada do século) fui conferir os roteiristas. Coincidentemente foi escrito por duas mulheres – contém ironia. É uma resposta quase óbvia.

A qualidade do roteiro não para por ai, afinal, nenhum personagem tem seu arco dramático abandonado, com todos do elenco principal encontrando alguma solução, redenção ou punição pela sua conduta, criando uma linha de aberturas e fechamentos extremente satisfatória, até mesmo para a amiga de Kat – Mandella (Susan May Pratt) encontrando o seu Shakespeare que é Michael, em uma subtrama pequena, enxuta, simples, de poucas cenas e texto, mas que engaja pela sensação de completude no todo do roteiro.

Impossível passar por toda essa crítica e não comentar sobre a icônica cena de Heath Ledger com a caixa de som nas mãos se declarando para Kat. Só ficam elogios por ver pela primeira vez contextualizado um momento tão relembrado e admirar com o famoso sorriso sua simplicidade, coesão e coerência. Me diverti assistindo e percebo que irei me divertir se ao longo dos próximos anos vier a revisitar novamente esse que já pode ser chamado de clássico…


Filme: 10 Things I Hate About You
Elenco: Heath Ledger, Julia Stiles, Joseph Gordon-Levitt, Larissa Oleynik, David Krumholtz, Andrew Keegan, Susan May Pratt, Gabrielle Union, Larry Miller, Allison Janney, Daryl Mitchell
Direção: Gil Junger
Roteiro: Karen McCullah, Kirsten Smith
ProduçãoEstados Unidos
Ano: 1999
Gênero: Romance, Comédia
Sinopse: Bianca Stratford é bonita e popular, mas não pode namorar antes que sua irmã mais velha encontre um namorado primeiro. O problema é que nenhum garoto consegue chegar perto da irmã, Kat Stratford. Para resolver a situação, um rapaz interessado em Bianca suborna um amigo com passado misterioso para sair com Kat e, quem sabe, tentar conquistá-la.
Classificação: 12
Distribuidor: Buena Vista Pictures Distribution
Streaming: Disney+
Nota: 9,0

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