O cinema que conhecemos hoje nasceu do desconforto. O tipo de linguagem cinematográfica – ou seja, a maneira que o filme e os artistas envolvidos utilizam os elementos audiovisuais para transmitir emoções e ideias ao expectador – que hoje identificamos como familiar, em algum momento já foi classificada como estranha ou revolucionária. Até mesmo durante a Nova Hollywood, período em que o cinema já era relativamente contemporâneo (entre 1967 e 1980), diversos expectadores relataram estranheza com as novas técnicas de montagem rápida adotadas pelos diretores que participaram do movimento. Já na Alemanha dos anos 20, com O Gabinete do Doutor Caligari, cenários distorcidos, sombras pintadas e uma sensação de delírio constante marcaram por ocorrer numa época em que o cinema ainda procurava identidade, vindo a se tornar uma arte extremamente possibilitadora. Logo, o mesmo elemento que agora faz parte de “regras” consolidadas, antes causava incômodo e ia contra o consenso.
Podemos dizer então que um lançamento atual que seja incômodo e vá contra o consenso é revolucionário? Muito provavelmente, não. E se é uma experimentação incômoda, bem, aí podemos chegar a outra conclusão. “2046“, do cineasta taiwanês Wong Kar-Wai e lançado em 2004, é uma ficção científica disruptiva e metalinguística em que temporalidade não-linear e memórias perdidas se misturam em uma experiência propositalmente fragmentada e visualmente inovadora, com uso experimental de CGI. Ainda que possa ser divisivo, certamente existem elementos que até aqueles que não conseguiram embarcar na imersão proposta, podem ser absorvidos e analisados em debate.
No cenário brasileiro, ainda são escassas as produções de ficção científica. Não apenas por isso, é celebrável quando diretores do cinema nacional se dedicam a um projeto que ouse quebrar este paradigma, ainda que aos poucos. Aquele que Viu o Abismo, codirigido por Gregório Gananian e Negro Leo, se apresenta como uma ficção científica brasileira, ainda que, durante a projeção, não seja exatamente essa a impressão que se tenha.
Lançando rapidamente o expectador numa paranoia incisiva, o filme é inteiramente conceituado como uma montagem constante e incessante, praticamente sem diálogos, e sem muitas pausas para se possa entender o que está acontecendo e diversas tomadas confusas e desconfortáveis. Recusando completamente qualquer insinuação levemente mais objetiva a respeito dos acontecimentos e situações que circulam a pseudo trama apresentada, ‘Aquele que Viu o Abismo’ muitas vezes parece uma experimentação-teste que ao mesmo tempo parece ter tanta coisa a dizer, mas que acaba por não dizer nada – apontando para tudo ao mesmo tempo, sem se guiar para alguma direção específica. Um manifesto com tantos gritos, que acaba ensurdecendo ao invés de passar a mensagem; tornando-se apenas uma lembrança esquecida como aquelas que tanto tenta alarmar – e de forma agoniante.
Existe uma ameaça – ainda que nunca seja clara – aparentemente situada em uma sociedade à beira de um colapso governamental e social, em que um agente invisível parece desconfigurar memórias e padrões. No meio disso, está o expectador, desorientado no meio de exposições performáticas numa espetacularização nas ruas e templos chineses – sim, é lá onde boa parte das filmagens que são apresentadas estão situadas (não espere encontrar um Brasil futurista).
O projeto é tão deslocado na tarefa de convidar o expectador a investir sua energia em embarcar tanto na história quanto na estrutura apresentada, que até mesmo uma contemplação meramente visual ou imersiva fica descartada. Não que haja alguma comparação de conteúdo, mas, por exemplo, um filme de Terrence Malick poderia ter seu sentido ou proposta recusado por quem assiste, mas, pelo menos, este poderia aproveitar o filme unicamente pelo caráter imagético. Aquele que Viu o Abismo vai pela contramão: quem não topar a ideia, estará desconvidado por completo e terá todos seus sentidos “desaguçados”. Para quem se encontrar do outro lado da força, o cenário será bem diferente: uma viagem psicotrópica a lá Enter the Void, de Gaspar Noé.
Aquele que Viu o Abismo é um protótipo de uma jornada de paranoia coletiva psicodélica que não faz questão de convidar ninguém para partir: quem deve convidar-se a si mesmo é você. Como resultado, esperado ou não, é uma película muito difícil de ser sustentada, a menos que haja ou uma tremenda boa vontade, ou completa e espontânea entrega para se deixar imergir nessa dolorosa apneia e inescrutável – isto é; extremamente difícil de se fazer compreender, investigar ou de decifrar por completo. E que aparentemente não faz nenhuma questão de fazê-lo.
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Filme: Aquele que Viu o Abismo Elenco: Negro Leo, Clara Choveaux, Ava Rocha, Danielly O.M.M Kaufmann, Uma Gaitán Campelo Rocha Gonçalves, Lena Kilina, Alê Amazônia, Sun Yuchen, Sun Mingzhen. Direção: Negro Leo, Gregório Gananian Roteiro: João Dumans, Negro Leo, Gregório Gananian País: Brasil Ano: 2024 Gênero: Ficção Científica, Experimental Sinopse: Imerso em uma complexa trama de assassinatos, X (Negro Leo) usa suas visões para tentar sobreviver e navegar por um sistema opressor. Ele se vê encurralado pela ProLife, uma empresa multinacional que recruta civis oferecendo a possibilidade de uma vida eterna. Classificação: 14 anos Distribuidor: Embaúba Filmes Streaming: indisponível Nota: 3,5 |

