10º FIIK JANELA CAIPIRA – TERCEIRO DIA

10º FIIK JANELA CAIPIRA – TERCEIRO DIA

Sexta-feira, 08/08 — início do fim de semana, alívio do proletariado — marca também o último dia de exibição de curtas da décima edição do festival Janela Caipira. Com apenas um longa restando para o sábado, o coletivo Kino-Olho encerra sua mostra anual de curtas com o mesmo vigor e brilho que atravessou toda a programação de 2025.

Nesta derradeira sessão, a temática Futuros Ancestrais propõe revisitar a ancestralidade como chave para projetar um futuro mais generoso. Um convite a reencontrar as forças que atravessam corpos, territórios e memórias, a imaginar o futuro pela escuta atenta do passado. Após as projeções, a mediadora Vivi Pistache retoma seu papel de guia sensível, conduzindo realizadores e público por mais uma conversa, onde perguntas e respostas se misturam a reflexões coletivas.

Créditos: Michael Willis – @willis.mov

Competitiva Filme-Ensaio

Último dia de exibição de filmes-ensaio, e a sessão manteve, em sua maior parte, a mesma lógica das anteriores: obras livres, sem amarras formais, que exploram a mente de seus idealizadores — com a exceção de uma, que se apoia no formato documental.

A noite começou com Cores no Quarto (2020), de Elder Agarve, que brinca com luzes, tonalidades e sensações de seu quarto durante o isolamento da Covid-19. Uma sonoridade extra-diegética acrescenta textura à experiência — no início, quase como se estivéssemos submersos no fundo do mar. No debate posterior, alguém comentou ter lembrado o interior de um útero; talvez nossa percepção não esteja tão distante assim.

Logo após, Pink Dreams (2021), de Raphael Paes Gijano, reencena o mito de Narciso sob a ótica de signos da história homossexual. De acordo com o realizador, o filme foi produzido como exercício com o tema “noites gostosas”; bem, não há como dizer que ele não acertou em cheio na temática.

O último filme-ensaio, não apenas do dia mas de toda a décima edição do festival, é Feira do Cervezão (2009), de direção coletiva. O curta apresenta uma série de entrevistas com feirantes, que comentam sobre o estado atual da feira e suas perspectivas futuras. Acaba funcionando menos como um ensaio e mais como um registro antropológico de Rio Claro, preservando vozes e histórias que ajudam a compreender a vida cotidiana da cidade

Competitiva Curta Escolar

A categoria com menos filmes de todo o festival, mas a minha favorita: Competitiva Curta-Escolar. Não necessariamente pela qualidade técnica das obras, mas pelo prazer de observar como o cinema se insinua nas engrenagens do mundo escolar e quais vínculos constrói com os alunos. Há também um encanto particular em ver a molecada botando a cabeça para viajar com os filmes.

Oscália 30 Anos (2018), dirigido por Erika Araújo e João Vitor, com apoio de uma turma da Escola Estadual Professora Oscália Góes Correa Santos. Através de relatos de membros do corpo escolar, o filme busca reconstruir a trajetória da instituição e da mulher que lhe dá nome, Oscália. Assim como Feira do Cervezão, um interessante registro antropológico da cidade interiorana. É curioso perceber como cruzamos cotidianamente espaços batizados com “nomes de gente” — escolas, ruas, cidades — e raramente nos perguntamos quem foram essas pessoas. O único dos curtas escolares que foi por um caminho documental.

Créditos: Michael Willis – @willis.mov

Competitiva Curta-Metragem

Amor de Picadeiro (2013) marca mais uma presença de João Paulo Miranda, desta vez com seu primeiro trabalho de maior repercussão internacional. A trama acompanha uma mulher barbada de circo diante do dilema se deve, ou não, retirar sua barba. Miranda é muito competente em construir um universo atravessado por uma violência latente, onde cada elemento de cena parece ameaçador à protagonista. Sem pronunciar uma única palavra, a personagem (interpretada pela homenageada Val Morari) transmite um sofrimento profundo, intensificando a atmosfera tensa da obra.

Na sequência, Lugar de Ladson (2022), de Rogério Borges. Meio documentário, meio ficção, o curta apresenta Ladson, um garoto com deficiência ocular da cidade de Rio Claro, e sua luta para conseguir um encontro amoroso. Extremamente sensívl a maneira com a qual Borges consegue gerar empatia sem recorrer à piedade, apresentando Ladson como um sujeito pleno, não como um objeto de compaixão. Ladson apenas o é. O curta também se destaca pela formalidade estética, utilizando recursos visuais que simulam a visão do protagonista, provocando um certo mal-estar sensorial que permeia todo o curta.

Ana Paula Bonafé nos leva à aldeia Tereguá, em São Paulo, com seu curta Djadjaporai – Quando as Crianças Cantam (2024). No filme, crianças indígenas contam um pouco mais sobre sua aldeia e sua vivência através de músicas, rezas e brincadeiras. Uma obra que privilegia o som como principal via de construção imagética, fazendo o espectador ter percepções sobre a aldeia e a cultura a partir dos sons daquele lugar. Em determinado momento, duas crianças aparecem utilizando, uma delas, camiseta de futebol e, outra, camiseta de anime; me fez refletir sobre o alcance da colonização cultural na sociedade capitalista.

Encerrando a programação de curtas do festival, Artes(an)ato (2025), de Isadora Maria Torres e Diego de Matos Gondim, convida o espectador a ouvir histórias de mulheres artesãs de um quilombo da região. Bem bonito e delicado a abordagem que prioriza o peso da oralidade e permite que a imagem ceda espaço para a potência das vozes. Na maior parte do tempo, a câmera se detém em objetos, lugares e texturas, enquanto as narradoras permanecem fora de quadro, criando um isolamento sonoro que amplifica a força e o peso desses relatos.

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