Domingo, 19 de outubro de 2025. O mundo fica em choque com um furto de ares cinematográficos no Museu do Louvre, Paris, ocasião em que alguns pouco homens, a partir de uma janela voltada para as margens do rio Sena, adentram na Galeria de Apolo e levam consigo joias valiosíssimas que remetem aos tempos da realeza francesa. Coincidência ou não, alguns dias antes chegara às salas de cinema brasileiras o novo longa-metragem da diretora independente estadunidense Kelly Reichardt, The Mastermind, cuja narrativa foca nos desdobramentos de um assalto fracassado a um museu de arte de uma pequena cidade no estado de Massachusetts.
Reichardt situa a trama nos anos 1970, época de grande ebulição social nos Estados Unidos da América, motivada, em especial, pelos sangrentos combates no Vietnã. Esse momento histórico contrasta com a personalidade contemplativa de seu protagonista, JB Mooney, filho de banqueiro que, apesar de dominar o manejo da produção mobiliária, preferiu se dedicar ao “ofício” amador do roubo de obras de arte. Os minutos iniciais são particularmente bressonianos na maneira como a diretora expõe, sem subterfúgios, o método meticuloso seguido por Mooney em suas investidas criminosas. Com elegância ímpar de decupagem, evidencia-se a economia de movimentos e olhares essenciais à consumação do extravio ilícito de peças de um museu, levado a efeito por um indivíduo acima de quaisquer suspeitas — homem branco, de família tradicional, detentor de diferenciado conhecimento sobre as artes plásticas.
Os típicos elementos da filmografia de Kelly Reichardt — a exemplo da ambivalência emocional dos indivíduos em relação ao sonho americano de prosperidade, misto de fé cega e desilusão imposta — vêm à tona quando a história dá uma guinada face aos imprevistos que transformam o audacioso assalto cometido por Mooney e dois comparsas em uma legítima comédia de erros digna de sitcons. Daí por diante, a jornada de Mooney vai se afunilando em direção a um beco existencial de sombras profundas e atemorizadoras, cuja saída torna-se pouco provável à medida que a solidão o cerca e destrói suas esperanças. O conforto do lar e o repouso seguro nos braços da esposa e dos filhos dá lugar à fuga errática rumo ao desconhecido e ao reconhecimento social não desejado, vindo na esteira das capas de jornais e do noticiário policial na TV, nos quais seu rosto aparece estampado de modo frontal.
Embora a diretora proponha o estabelecimento da narrativa à luz dos típicos padrões societais em voga nos EUA durante a década de 1970, é preciso salientar a existência de um certo vazio semântico nessa escolha uma vez que sejam considerados os meandros do desenvolvimento narrativo. Em outras palavras, significa dizer que os acontecimentos expostos não transmitem, de maneira suficientemente forte, uma ideia de vínculo espiritual à época em que se passam — exceto pela cena final, na qual Reichardt tece um comentário afiado acerca da natureza ideológica do Sistema de Justiça do país no exercício de sua prerrogativa punitivista.
Por sua vez, o formalismo da construção imagética é mediado, sobretudo, pelo efeito vintage da fotografia sugestivamente etérea de Christopher Blauvelt, responsável por criar uma atmosfera esfumaçada que reforça, com efetividade e beleza minimalista, o ambiente social dos anos setenta. O som metalizado de orquestra sinfônica, balizado por instrumentos como bateria e trompete, é outro elemento que se sobressai, lembrando-nos quase que incessantemente sobre o equilíbrio instável do movimento da vida, oscilatório entre notas de acorde baixo e alto.
O décimo quinto filme da carreira de Kelly Reichardt é uma reafirmação do talento da diretora para explorar temas e personagens tão caros à sociedade estadunidense, à qual ela pertence, mas sem deixar de lado a pretensão de abordá-los sob uma ótica universal, capaz de dialogar com públicos oriundos de contextos geográficos e histórico-sociais distintos entre si. Possivelmente, trata-se de uma obra de menor alcance e qualidade se considerarmos o conjunto de sua filmografia; nem por isso, entretanto, dá para se negar os seus méritos, certamente maiores do que suas limitações.
Em The Mastermind, o acerto principal está em se analisar JB Mooney escapando à tentação do maniqueísmo na representação cinematográfica de um ladrão. Por mais que a personagem encarne o típico indivíduo que se afoga em meio às ondas de sua ambição — movida, até certo ponto, por uma ingenuidade genuína —, e que se mostra relapso frente às suas potencialidades pessoais, o que vemos no filme é um retrato naturalista do quão ilusório é o estilo de vida pautado pelos ideais burgueses de felicidade. Assim como guardar a arte se mostra mais difícil do que roubá-la, a busca da autorrealização material, inclusive por meio de atalhos como a prática de um roubo, se mostra mais fácil do que a manutenção dessa conquista. O preço a ser cobrado, no fim das contas, talvez tenha o poder de transformar alguém numa vítima de si próprio, tendo como saída, única e inevitável, fugir das coisas que não têm fim.
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Filme: The Mastermind Elenco: Josh O’ Connor, Alana Haim, John Magaro, Gaby Hoffmann, Bill Camp, Hope Davis, Rhenzy Feliz, Jasper Thompson e Sterling Thompson. Direção: Kelly Reichardt Roteiro: Kelly Reichardt Produção: Estados Unidos Ano: 2025 Gênero: Policial Sinopse: Em 1970, Mooney e dois colegas entram em um museu em plena luz do dia e roubam quatro pinturas. Quando guardar a arte se mostra mais difícil do que roubá-la, Mooney é relegado a uma vida em fuga. Classificação: 14 anos Distribuidor: Imagem Filmes e MUBI Streaming: Indisponível Nota: 7,5 |

