A tendência à superficialidade em cinebiografias, especialmente as de celebridades musicais, é, resumidamente, apresentar com um certo brilho uma construção simplificada e comercial de uma entidade-símbolo com viés de mercado; uma limitação conceitual disfarçada que se manifesta no cinema mainstream atual e cria um paradigma que parece redefinir os conceitos de profundidade intelectual sendo considerado um modo “artístico” de se fazer cinema. Nestes títulos, a abordagem funciona como imitação sugerindo, através de diversos figurantes, o impacto sociocultural de certa personalidade, com roteiros marcados por simplificações evidentes e questionáveis. O cinema nacional também tem sido afetado por este fenômeno com as recentes e problemáticas cinebiografias do grupo Mamonas Assassinas, e não apenas uma, mas, logo, duas de Silvio Santos, com os pseudo atores Rodrigo Faro e Leandro Hassum.
Esse nicho decadente e ofensivo à linguagem cinematográfico impõe as ditas cinebiografias como uma espécie de gênero. Springsteen: Salve-Me do Desconhecido (2025) é tão dissimulado ao seguir essa cartilha que inclusive mente e cria uma personagem: Faye Romano, interpretada pela ótima Odessa Young, sequer existe na vida real. Trata-se de um compilado de várias garotas paqueradas por Bruce Springsteen, o influente guitarrista americano biografado nesse projeto.
Nessa padronização e processo de formalização do teor acrítico dos tais projetos de investimento milionário pelo simples fato de conter a “história” de algum famoso da vida real (e não pela qualidade do argumento), temos a morte de um cinema autoral, em que o diretor troca a sua visão original e particular de interpretar símbolos da vida real, através de liberdades específicas da linguagem audiovisual, por um roteiro instantâneo e, com todo respeito, lixo. Nisso, substitui-se o desenvolvimento psico-artístico da coisa por um retrato — no pior sentido da palavra: uma captura seca, sem graça e estática de um evento histórico-cultural.
Trata-se da negligência de um dos princípios não apenas da área de documentários, mas do ato de se filmar, por natureza, que é o de: tudo a ser filmado é passivo de uma escolha política. Ora, se você pretende registrar, por exemplo, um confronto físico direto entre duas multidões de espectros políticos polares num contexto de tecido social de extremismos, cada fragmento da película projetará imagens específicas que são unidades de um todo — e você deliberadamente escolhe o que mostrar e o que deixar de fora. Por essência, a arte de captar imagens é subjetiva. Springsteen é um projeto abraçado a conjuntura da morte dessa subjetividade, uma vez que não importa o diretor a assinar com a produtora já que o roteiro pode simplesmente ter sido um prompt do ChatGPT — como aqui deve ter sido.
Born in the U.S.A. é uma das músicas mais famosas de Springsteen, e apresenta uma crítica incisiva ao país, alinhando-se à classe operária que Bruce frequentemente aborda. Essa conexão reflete o espírito de contestação social e a busca por alternativas ao sistema dominante nas décadas de 1970 e 80. Nos dias de hoje, um Bruce destemido de 76 anos enfrenta ataques de Trump e se mantém politicamente consciente e relevante. Já o filme, dirigido pelo pouco diferente diretor Scott Cooper, é de caráter apolítico e não faz nenhum comentário a respeito da música que abriu este parágrafo; pelo contrário, apenas usa desta para uma cena para tentar justificar Jeremy Allen White como um Oscar-bait de melhor ator.
Até na possibilidade de ofertar curiosidades a respeito da criação de músicas e álbuns do biografado, o filme é fajuto. Por exemplo, a canção Badlands é inspirada na película homônima de Terrence Malick, com Sissy Spacek, de 1973 – em pleno movimento de contracultura da Nova Hollywood. E como o filme faz para retratar essa inspiração? Simplesmente põe Bruce na sala assistindo TV; o filme passa, ele compõe automaticamente a letra e tcham: está pronta. Tem como ser mais ChatGPT do que isso?
E que não se misture: Allen está de fato bem no filme. Não em nível de Oscar, mas está bem. Assim como Odessa Young. Mas ambos dentro de um contexto comercial de fácil empatia e caminhos previamente traçados de ascensão, queda, redenção, problemáticas amorosas e tudo de clichê frequentemente visto em trocentos filmes idênticos a este. A produção também abusa de outros arquétipos raquíticos como o do alívio cômico gordinho de Paul Walter Hauser e o produtor estrategista de Jeremy Strong. Todos regulares em seus papéis previsíveis.
A carência de sustância também é percebida na enorme dificuldade do filme em construir um mundo com uma sociedade palpável. O impacto de Springsteen nunca é organicamente sentido; tudo precisa ser simplificado e explicitamente colocado em cena com, por exemplo, figurantes o reconhecendo na rua e buzinando elogios ou ofensas a ele. É curioso, contudo, que o roteirista Paul Schrader seja citado, pois ele chegou a considerar Springsteen para estrelar um novo roteiro após o sucesso de Taxi Driver, em 1976. O filme, roteirizado por Schrader, é notável por sua capacidade de fazer o espectador sentir a atmosfera social e a sociedade da época, mesmo que a narrativa seja filtrada pela perspectiva de um protagonista mentalmente perturbado.
Por falar em Scorsese, é valioso pensar que boa parte de sua filmografia, especialmente no século XXI, seja formada por longas baseados em histórias reais. Mas, imagine se O Lobo de Wall Street fosse uma cinebiografia tradicional e isenta, “politicamente correta”. Não teríamos as insanidades, os absurdos, o teor megalomaníaco, nem aquela sensação de sonho (como na cena que DiCaprio tenta dirigir chapado); não teríamos autoralidade e sim as características frases de epílogos como “Jordan Belfort foi solto depois de anos preso…” — e demais clichês recorrentes. E quando via que um longa de ficção não cairia bem, o que mr. Scorsese fazia? Documentários, como foram os casos de No Direction Home (Bob Dylan) e Living the Material World (George Harrison), entre outros.
Esteticamente, Springsteen: Salve-Me do Desconhecido oferta uma plastificação que combina com seu teor automatizado, com uma direção que se assemelha à clipes gerados por inteligência artificial e com uma decupagem tediosa e padronizada, além de uma incômoda câmera tremida. O filme alterna flashbacks em preto e branco (uau…) da infância de Bruce, nos quais seu pai (o ótimo Stephen Graham) o agredia. E isso parece ser a simulação de problemática e catarse ao longo das monótonas 2 horas de duração. Mas, tanto faz, absolutamente todas as cenas deste filme são provenientes de outros — ainda que aqui mais pobres. As quatro, cinco cenas de shows, além de aparecerem abruptamente e serem desconectadas da estrutura (pelo motivo de simplesmente precisarem existir para que o filme se insira mercadologicamente como musical), são filmadas com pleno descaso e indiferença, com enquadramentos horrorosos e sem o menor senso de espaço. Um desastre.
Essa automação no modo de se fazer filmes de celebridades (não só musicais, como de figuras políticas também) acaba, ao tentar celebrar a identidade envolvida, resumindo suas vidas e as imitando num processo improdutivo onde sequer se sabe mais sobre a celebridade. Você não sairá de Springsteen sabendo mais sobre o próprio, ou sequer abrindo um novo vínculo. Trata-se de um amontoado de cenas tiradas de outros filmes e sequenciadas no roteiro mais genérico possível para que algum material se forme e que se faça dinheiro com isso. É como se a relevância do biografado na vida real fosse o suficiente para validar qualquer produto relacionado a ele — enquanto histórias originais precisam andar por um caminho muito mais árduo para alcançar os holofotes.
O esboço frágil e falso de uma biografia sobre um Springsteen incompleto, de uma única nota, só poderia ter um resultado, que vem sendo exatamente a expectativa dos produtores: um macarrão instantâneo fácil de fazer e fácil de vender. O último fio de esperança, para além de diretores que se vendem à esta lógica robótica de dirigir filmes, são títulos recentes como o imparável Elvis, de Baz Luhrmann, e o urgente Oppenheimer, do Nolan — estes sim, grandes exemplos recentes de originalidade.
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Filme: Springsteen: Deliver Me From Nowhere (Springsteen: Salve-Me do Desconhecido) Elenco: Jeremy Allen White, Jeremy Strong, Paul Walter Hauser, Stephen Graham, Odessa Young, Gaby Hoffmann Direção: Scott Cooper Roteiro: Scott Cooper, Warren Zanes Produção: Estados Unidos Ano: 2025 Gênero: Drama, Biografia Sinopse: A jornada de Bruce Springsteen na criação de seu álbum de 1982 “Nebraska”, que surgiu enquanto ele gravava “Born in the USA” com a E Street Band. Classificação: 14 anos Distribuidor: Walt Disney Studios Streaming: Indisponível Nota: 2,0 |

