O cinema japonês é reconhecidamente um dos mais diversos e ricos do mundo. Se no passado os filmes de época (Jidaigeki), sobre samurais, eram os detentores dos principais títulos, com o tempo, esse posto foi sendo ocupado por outros gêneros como o Anime, impulsionado pelo Studio Ghibli; os filmes de monstro (Kaiju eiga), sendo Godzilla o mais famoso desse gênero; os melodramas que, de forma mais substancial, tem tido mais sucesso em relação ao desgaste temporal e natural dos gêneros; e o J-Horror, que, entre o final dos anos 1990 e o início dos anos 2000, teve seu período de maior sucesso com O Chamado (1998) e O Grito (2002).
Tal gênero adormecido parece querer despertar e o longa Dollhouse (2025), que chegou aos cinemas do ocidente na última quinta-feira, dia 06 de novembro, mostra que o J-Horror segue vivo e assustador. O longa, dirigido por Shinobu Yaguchi, pode, em um primeiro momento, parecer importar do ocidente uma premissa semelhante ao de outros filmes de terror envolvendo bonecos(as), mas o que distingue Dollhouse de filmes como Boneco do Mal (2016) e Annabelle (2014) é o terror construído através da atmosfera criada e não, necessariamente, pelas ações macabras dos bonecos amaldiçoados.
O filme tem na trilha sonora o termômetro da tensão. No início, com a câmera filmando uma vizinhança com crianças brincando e uma música calma, percebemos em poucos minutos a trilha sonora tendo papel fundamental para criar a tensão no espectador. Primeiro a música silencia e, assim, acompanhamos os ruídos da cidade que, junto à aflição dos personagens Yoshie Suzuki (Masami Nagasawa) e Toshiko Suzuki (Kôji Seto), pais da pequena Mei (Totoka Suzuki), nos revela que o perigo os ronda. Mas não demora para que esse silêncio aflitivo dê lugar ao grito desesperado da mãe e então a música entre em cena novamente para incorporar de vez o tom do filme.
Dollhouse narra a história de uma mãe, Yoshie, que após a morte de sua filha Mei, em total sofrimento, compra uma boneca como uma espécie de terapia para superar o trauma pelo qual passou. Em um primeiro momento esse ser inanimado cumpre sua função e, apesar do seu aspecto sujo, com direito a unhas e cabelos que crescem, o mal parece não estar ali. O assustador fica por parte do comportamento da mãe que passa a criar esta boneca como se fosse uma filha — algo parecido com o surto recente que tivemos aqui no brasil das bonecas ultrarrealistas, ou bebês reborn — e a parede cheia de quadros fotográficos do casal com a boneca entre eles é altamente desconfortável.
A tensão do início do filme que parecia ter sido superada com a chegada da boneca, volta quando Yoshie e Toshico tem um novo bebê, Mai (Aoi Ikemura), e a boneca acaba por ser renegada a um mero objeto inanimado. Mas o horror é conduzido sempre através da sugestão e nunca pela encenação do que de fato aconteceu. O espectador, obviamente, sabe o que está havendo, mas percebe, também, que a descrença da mãe é totalmente aceitável, visto que a natureza das coisas impede em acreditar no sobrenatural. O filme vai estender ao máximo essa suspenção da crença nos personagens de modo que o diretor precise, cada vez mais, ser incisivo para que a trama não se torne maçante. Então, o que acompanhamos é uma escalada da tensão a partir dos 25 minutos de filme e que não cessará até o final.
Cenas como a que a boneca aparece na cama da mãe no meio da noite ou a que Mai está brincando de esconde-esconde são tão bem construídas que o medo toma conta do nosso corpo rapidamente e isso sem que o filme precise apelar para o uso do jump scare. O diretor Yaguchi, que nunca tinha dirigido um filme de terror antes, impressiona pela total destreza na construção dessa atmosfera de suspense e medo. E a cria, basicamente, através da subjetividade, já que em momento nenhum é mostrado a boneca fazendo qualquer coisa. Assim, existe a todo tempo essa dualidade de uma boneca inerte e inofensiva com uma possível entidade a possuindo.
O filme perde o ritmo quando começa a querer desvendar o que é essa boneca e qual a sua história. Acabam sendo muitas informações dadas em pouco tempo e, diferente de como tudo foi construído até aqui, com o tempo necessário para que os elementos do terror se consolidassem, o filme se torna tão genérico quanto a maioria dos títulos de terror que foram lançados nos últimos anos, como a presença de um especialista em maldições que ajudará a “solucionar” aquele problema da família Suzuki. Por sorte, o diretor muda o rumo e retorna ao que estava dando certo. Coloca novamente a família Suzuki junto da boneca e, assim, o filme vai para o seu desfecho escalando ainda mais o terror dentro de uma perspectiva do sobrenatural com direito a dois finais — sendo o último, aquele que antecede os créditos, fiel a tudo o que fora construído até ali.
![]() |
Filme: Dollhouse Elenco: Masami Nagasawa, Koji Seto, Tetsushi, Tanaka, Aoi Ikemura, Totoka Honda, Ken Yasuda, Jun Fubuki Direção: Shinobu Yaguchi Roteiro: Shinobu Yaguchi Produção: Japão Ano: 2025 Gênero: Terror Sinopse:Após a morte de Mei, filha de cinco anos de Yoshie Suzuki, ela encontra em um mercado de antiguidades uma boneca muito parecida com a menina falecida. O objeto passa a ser tratado como parte da família e ajuda Yoshie a superar o luto. Com o nascimento de Mai, uma nova filha, a boneca é esquecida. Mas quando Mai cresce e começa a brincar com ela, estranhos acontecimentos passam a assombrar a casa. A cada tentativa de se livrar da boneca, ela inexplicavelmente retorna. Classificação: 16 anos Distribuidor: Sato Company Streaming: Indisponível Nota: 7,0 |

